Anvisa libera estudo com substância que pode ajudar na recuperação da medula

Pesquisa autorizada pela Anvisa vai testar a segurança da polilaminina em cinco pacientes com lesão medular recente; entenda como vai ser
Caneta apontando para região vermelha em raio-x da medula de uma pessoa
(Imagem: Only_NewPhoto/Shutterstock)

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, nesta segunda-feira (05), o início de um estudo clínico de fase 1 com a polilaminina, substância experimental desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa vai testar a segurança da aplicação do composto em cinco pacientes com lesão recente na medula espinhal, num procedimento feito diretamente na área lesionada.

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Estudada há mais de duas décadas, a polilaminina já havia mostrado resultados promissores em testes iniciais, ainda limitados, com recuperação parcial de movimentos em alguns casos considerados improváveis. Agora, pela primeira vez, o tratamento entra num protocolo formal de pesquisa clínica aprovado pela Anvisa. É um passo indispensável antes de qualquer avaliação mais ampla sobre sua eficácia.

Anvisa libera a primeira fase para testar a segurança da polilaminina em humanos

A autorização concedida pela Anvisa diz respeito a um estudo de fase 1, etapa inicial de qualquer pesquisa clínica em humanos. Aqui, o objetivo não é provar se o tratamento funciona, mas avaliar se ele é seguro para os pacientes, identificando possíveis riscos e efeitos adversos da aplicação.

Portal da Anvisa
Autorização concedida pela Anvisa diz respeito a um estudo de fase 1 com a polilaminina (Imagem: rafastockbr/Shutterstock) – Imagem: rafastockbr/Shutterstock

Nesta fase, apenas cinco voluntários poderão participar. O perfil é bastante específico: pessoas entre 18 e 72 anos que tenham sofrido uma lesão medular completa, com perda total de sensibilidade e movimento, causada por um trauma recente, ocorrido há menos de 72 horas. Além disso, a lesão precisa estar localizada na região torácica da medula, entre as vértebras T2 e T10, e o paciente deve ter indicação cirúrgica.

A aplicação da polilaminina será feita uma vez, de forma intramedular, diretamente na área lesionada da medula espinhal, durante o procedimento cirúrgico. Pacientes com lesões crônicas (ocorridas há meses ou anos) ficam fora do protocolo neste momento.

O estudo é patrocinado pelo laboratório brasileiro Cristália, responsável pela formulação usada nesta fase clínica. Os locais onde a pesquisa será realizada ainda não foram divulgados. A expectativa é que essa etapa dure ao menos seis meses. Só depois da análise dos dados de segurança será possível decidir se o tratamento pode avançar para as fases 2 e 3, voltadas à comprovação de eficácia.

O que é a polilaminina e por que ela chama atenção de pesquisadores há anos

A polilaminina é uma versão reorganizada em laboratório da laminina, uma proteína naturalmente presente no organismo. A laminina faz parte da chamada matriz extracelular, espécie de estrutura de suporte que ajuda a orientar o crescimento, a migração e a conexão entre os neurônios.

Representação de um cérebro humano e nervos saindo dele e descendo
A polilaminina estimula neurônios maduros a rejuvenescem e criarem axônios (Imagem: Rebel Red Runner/Shutterstock)

Durante o desenvolvimento embrionário, essa proteína tem papel fundamental na formação dos circuitos do sistema nervoso. Na vida adulta, porém, essa capacidade fica muito limitada, especialmente no sistema nervoso central, como o cérebro e a medula espinhal. A polilaminina foi desenvolvida para tentar reproduzir, no tecido lesionado, um ambiente mais próximo do observado nas fases iniciais do desenvolvimento.

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Após um trauma medular, forma-se uma cicatriz rica em moléculas que dificultam a regeneração neural. A ideia é que a polilaminina funcione como um “substrato permissivo” para ajudar a tornar esse ambiente menos hostil e favorecer o crescimento dos axônios, estruturas responsáveis pela transmissão dos sinais nervosos.

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Antes da liberação da Anvisa, a substância já havia sido testada em animais, como cachorros, e em pequenos grupos de humanos, fora de estudos clínicos formais. Os resultados foram variados: alguns pacientes apresentaram pequenos movimentos, enquanto outros tiveram ganhos mais amplos, como maior controle do tronco ou passos com auxílio. 

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Os próprios pesquisadores reforçam, no entanto, que os dados ainda são limitados e que a polilaminina não deve ser vista como uma cura isolada, mas como parte de uma estratégia mais ampla de regeneração neural.

(Essa matéria usou informações de Folha de S. Paulo, G1 e O Globo.)

Pedro Spadoni
Pedro Spadoni

Pedro Spadoni é jornalista formado pela Universidade Metodista de Piracicaba. Já escreveu para sites, revistas e jornal.

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