Vai parar de usar caneta emagrecedora? Cuidado com essa armadilha

Estudo da Oxford mostra que pessoas que param de usar canetas emagrecedoras ganham peso quatro vezes mais rápido do que as que fazem dieta
Pedro Spadoni08/01/2026 14h49, atualizada em 09/01/2026 07h30
Mulher aplicando injeção de caneta emagrecedora na barriga
(Imagem: MillaF/Shutterstock)
Compartilhe esta matéria
Ícone Whatsapp Ícone Whatsapp Ícone X (Tweeter) Ícone Facebook Ícone Linkedin Ícone Telegram Ícone Email

Siga o Olhar Digital no Google Discover

Canetas emagrecedoras, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy, fazem sucesso por oferecerem perdas rápidas e expressivas de peso. O problema aparece quando a pessoa interrompe o uso delas. Um estudo recente da Universidade de Oxford mostra que, ao suspender as injeções, o peso volta. E volta rápido.

A pesquisa, publicada no British Medical Journal nesta semana, indica que muitos pacientes retornam ao peso inicial em aproximadamente um ano e meio após parar de usar a medicação.

Os dados reforçam um alerta: sem continuidade ou apoio estruturado, os benefícios do tratamento tendem a desaparecer. Isso recoloca a obesidade no lugar de condição crônica, não problema resolvido em etapas curtas.

Quando remédio sai de cena, peso volta mais rápido do que entrou

O levantamento reuniu 37 estudos com mais de nove mil adultos e chegou à seguinte conclusão: após interromper qualquer medicamento para controle de peso, o reganho médio é de 0,4 kg por mês. Mantido esse ritmo, o corpo volta ao ponto de partida em pouco tempo, mesmo depois de perdas clinicamente relevantes.

caneta emagrecedora
Entre usuários de canetas como Wegovy e Mounjaro, o peso retorna a uma velocidade média de 0,8 kg por mês (Imagem: MillaF/Shutterstock)

Com os fármacos mais recentes, o efeito é ainda mais intenso. Entre usuários de análogos de GLP-1, como Wegovy e Mounjaro, o peso retorna a uma velocidade média de 0,8 kg por mês. Na prática, isso significa que parte significativa do emagrecimento conquistado durante o tratamento se dissolve em menos de dois anos após a suspensão.

A comparação com programas tradicionais de dieta e exercício deixa o contraste mais evidente. Mesmo quando a perda inicial é menor, quem segue apenas intervenções comportamentais recupera o peso de forma mais lenta: cerca de 0,3 kg por mês a menos do que quem interrompe a medicação. Esse padrão se mantém independentemente de quanto peso foi perdido no começo.

O impacto vai além da balança. Melhoras em glicose, pressão arterial, colesterol e triglicerídeos tendem a desaparecer em cerca de 1,4 ano após o fim do uso. Com isso, projeções otimistas que falavam em manutenção dos ganhos por até três anos começam a ruir. À luz dos dados, o horizonte realista cai para algo próximo de 18 meses.

Por que o corpo ‘cobra a conta’ quando a injeção é interrompida

Para os pesquisadores, o fenômeno não indica falha dos remédios, mas da expectativa criada em torno deles. A obesidade aparece, mais uma vez, como uma condição crônica e recorrente, que reage mal a soluções pensadas como temporárias. Quando o tratamento acaba, o corpo tende a buscar o equilíbrio anterior.

canetas emagrecedoras Ozempic Mounjaro
Muitos descrevem a interrupção das injeções como acionar um “interruptor da fome” (Imagem: Marc Bruxelle/Shutterstock)

Relatos de pacientes ajudam a ilustrar o que acontece na prática. Muitos descrevem a interrupção das injeções como acionar um “interruptor”: a fome surge de forma abrupta e intensa, quase imediata. O apetite, antes silenciado, volta a ocupar o centro das decisões alimentares.

Há também um componente biológico importante. O uso prolongado de GLP-1 em níveis elevados pode reduzir tanto a sensibilidade do organismo quanto a produção natural desse hormônio, responsável pela sensação de saciedade. Quando o “reforço” artificial desaparece, o corpo responde com mais fome e menos controle.

Programas baseados em dieta e atividade física funcionam de outro modo. Eles forçam o treino de habilidades (escolhas alimentares, rotina de exercícios, leitura de sinais do próprio corpo) que ajudam a sustentar o peso ao longo do tempo. Quando o emagrecimento depende quase exclusivamente do remédio, essas estratégias muitas vezes não se consolidam, o que dificulta a manutenção após a suspensão.

Leia mais:

O resultado é um padrão previsível: cerca de 50% dos usuários abandonam as injeções antes de completar um ano de tratamento e o peso retorna. Para os especialistas, a mensagem é: o uso dessas drogas precisa ser pensado no longo prazo, integrado a acompanhamento clínico e mudanças reais de estilo de vida. Ou o ciclo de perda e ganho de peso tende a se repetir.

(Essa matéria também usou informações da Universidade de Oxford.)

Pedro Spadoni
Redator(a)

Pedro Spadoni é jornalista formado pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep). Já escreveu para sites, revistas e até um jornal. No Olhar Digital, escreve sobre (quase) tudo.