Guerra de drones pode chegar à órbita com satélites armados e controlados por IA

Startup britânica quer transformar pequenos satélites em uma espécie de esquadrão de defesa orbital
Ilustração artística de um dos cubesats de defesa de satélites da Shield Space em órbita da Terra
Ilustração artística de um dos cubesats de defesa de satélites da Shield Space em órbita da Terra - Imagem: Shield Space

Uma startup britânica quer transformar pequenos satélites em uma espécie de esquadrão de defesa orbital. A proposta é lançar enxames de espaçonaves autônomas capazes de proteger satélites ocidentais contra possíveis ameaças, usando tecnologias, como lasers, micro-ondas e até métodos de interceptação física.

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A iniciativa é da Shield Space, empresa que pretende adaptar ao espaço conceitos de guerra com drones já observados em conflitos na Terra. A ideia é colocar em órbita dezenas de pequenos satélites, chamados CubeSats, que poderiam agir de forma coordenada mesmo se perdessem contato com os controladores em solo.

Tensão militar impulsiona projeto

O interesse por esse tipo de tecnologia aumentou após episódio ocorrido em maio de 2026. Na ocasião, quatro satélites militares russos se aproximaram do ICEYE-X36, satélite comercial de radar de abertura sintética que é amplamente considerado uma fonte de inteligência para a Ucrânia no campo de batalha.

A aproximação foi vista como manobra arriscada e potencialmente intimidatória. Satélites próximos poderiam interferir nos sinais de outro equipamento, ofuscá-lo com lasers, danificá-lo ou obrigá-lo a mudar de trajetória e gastar combustível.

Em outubro, um dos mesmos satélites russos teria passado a apenas 500 metros do ICEYE-X36. O episódio reforçou a preocupação com a segurança de equipamentos em órbita e estimulou o desenvolvimento de sistemas de defesa espacial.

Como funcionaria o enxame de satélites

  • A Shield Space planeja utilizar pequenas espaçonaves autônomas, com dimensões reduzidas e custo relativamente baixo. Elas seriam liberadas por uma espécie de nave-mãe em órbita e atuariam como interceptadoras para proteger satélites considerados estratégicos;
  • A empresa menciona diferentes recursos de defesa, incluindo lasers, micro-ondas e técnicas de interceptação à distância. O objetivo é que os equipamentos consigam cumprir suas funções mesmo sem comunicação constante com operadores na Terra;
  • O plano prevê a implantação de até 100 CubeSats em missão de proteção e defesa por menos de £ 100 milhões (cerca de R$ 700 milhões), segundo Graeme Ritchie, cofundador e CEO da empresa. O executivo comparou, ao Space.com o custo ao de um único satélite de gerações anteriores;
  • A proposta ainda está em desenvolvimento. Antes de chegar a um sistema operacional, a startup pretende realizar uma série de demonstrações para testar a capacidade de manobra e autonomia das espaçonaves.

Ilustração de dois cubesats da Shield Space em órbita
Ilustração de dois cubesats da Shield Space em órbita – Imagem: Shield Space

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Primeiro teste está previsto para 2027

O primeiro passo será o Projeto Broadsword, demonstração planejada para o quarto trimestre de 2027. A missão deve ser lançada em voo compartilhado da SpaceX, chamado Transporter-21.

O experimento utilizará dois equipamentos: um CubeSat de tamanho 8U e outro menor, de 3U, que funcionará como alvo. A equipe pretende demonstrar a capacidade de aproximar as duas espaçonaves de uma distância inicial de 100 quilômetros para apenas 100 metros.

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O teste também deve avaliar quatro estágios de autonomia, começando com participação humana no controle e avançando até um funcionamento descrito pela empresa como aproximadamente totalmente autônomo.

Para comparação, cada unidade de um CubeSat — chamada de U — corresponde a um cubo com dez centímetros de lado. Assim, um modelo 8U possui volume equivalente a oito dessas unidades.

A ideia de satélites trabalhando em conjunto não é inteiramente nova. Em 2023, a NASA lançou o projeto civil Starling, que demonstrou como um grupo de quatro pequenos satélites pode cooperar e operar de maneira autônoma em missão científica.

A diferença é que a Shield Space pretende aplicar esse princípio a operações militares, que exigem decisões mais complexas e capacidade de responder a ameaças.

Tecnologia ainda enfrenta obstáculos

Apesar das ambições, transformar a proposta em sistema de defesa funcional será um desafio. Os pequenos satélites precisam acomodar sistemas de propulsão, sensores, câmeras, capacidade computacional para inteligência artificial (IA) e equipamentos de defesa em espaço bastante limitado.

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A própria Shield Space reconhece dificuldades relacionadas a tamanho, peso e consumo de energia. Outro obstáculo é o treinamento dos sistemas autônomos: segundo os fundadores, dados reais de operações espaciais são escassos, e simulações ainda não são suficientes para reproduzir todas as condições necessárias.

Também existe a preocupação com as regras de engajamento. Um sistema autônomo desenvolvido para atuar em cenário militar precisa ser capaz de respeitar limites e instruções definidos para o uso da força.

O professor Bleddyn Bowen, especialista em astropolítica da Universidade de Durham (Inglaterra), demonstrou cautela em relação ao projeto. Ele comparou a iniciativa ao Brilliant Pebbles, programa da Guerra Fria que previa milhares de interceptadores autônomos em órbita para destruir mísseis balísticos soviéticos.

Para Bowen, embora muitas tecnologias sejam viáveis com investimento suficiente, ainda seriam necessários anos de desenvolvimento e testes. Entre as dificuldades está justamente avaliar armas cinéticas no espaço sem produzir detritos orbitais.

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Da proteção de satélites à defesa de órbitas inteiras

A Shield Space já trabalha com etapas posteriores ao primeiro teste. A empresa pretende avançar para demonstrações com dois CubeSats maiores, de 16U, depois para uma nave-mãe capaz de transportar dez satélites e, futuramente, para uma estrutura com dez dessas naves-mãe distribuídas por diferentes órbitas.

O objetivo de longo prazo é criar rede capaz de proteger regiões inteiras do espaço orbital. Ritchie chama essa visão de space-based carrier strike, em referência aos grupos de porta-aviões utilizados em operações militares na Terra.

Por enquanto, porém, a proposta está longe de ser uma capacidade comprovada. Os próximos testes terão de mostrar se pequenos satélites autônomos conseguem operar em conjunto e responder a ameaças reais sem criar novos riscos para o ambiente orbital.

Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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