Em 45 dias, Covid-19 já matou mais no Brasil que a gripe no ano inteiro de 2019

Primeiro caso conhecido no país foi registrado em 26 de fevereiro, provando que não se trata de 'só mais uma gripe'

Renato Santino, editado por Cesar Schaeffer 11/04/2020 17h25
Argentina e China desenvolvem novos testes para coronavírus
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Desde que o coronavírus surgiu e a Covid-19 começou a se espalhar pelo mundo, a doença tem sido comparada com a gripe. Faz algum sentido, considerando que alguns dos sintomas são bem parecidos, e a causa em ambos os casos é um vírus respiratório. No entanto, quanto mais o tempo passa, mais fica evidente que as duas coisas são bem diferentes.


Neste sábado, 11 de abril, o Brasil oficialmente superou a marca simbólica dos 1.100 óbitos em decorrência da Covid-19. Para esse número chegar ao patamar em que está, foi necessário menos de dois meses entre o primeiro caso confirmado, datado do dia 26 de fevereiro, e menos de quatro semanas em relação à primeira morte, revelada em 17 de março.

Os números mostram que a doença está acelerando no país, e que o pico dos efeitos da pandemia no Brasil ainda não está no horizonte. Esses números também mostram que a Covid-19 é profundamente mais grave do que a gripe comum.

O Brasil registrou ao longo de todo o ano de 2019 um total de 796 mortes por H1N1, o mesmo vírus que causou um surto global em 2009. No total, as mortes por influenza (a família de vírus que causa gripe e que incluem o H1N1, influenza A não subtipado, influenza B e influenza A H3N2) chegaram a pelo menos 1.109 até o início de dezembro. Enquanto isso, o novo coronavírus já superou as 1.100 mortes em menos de dois meses após sua primeira detecção em solo nacional.

Segundo o boletim epidemiológico de dezembro de 2019 do Ministério da Saúde, as 1.109 mortes computadas até o início daquele mês eram apenas 22,5% dos casos letais de Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG) registrados no ano. No total, foram 4.939 mortes entre 39.190 casos notificados ao longo do ano passado, o que equivaleria a aproximadamente 12,6% de letalidade.

Quando se olha a situação das SRAGs no Brasil em 2020, é fácil perceber o tamanho do problema que o sistema de saúde brasileiro está enfrentando e enfrentará pelas próximas semanas ou meses. O gráfico abaixo mostra a evolução das hospitalizações por SRAGs em 2019 e 2020 até a 14ª semana epidemiológica de cada ano.

 
 Reprodução

Não é difícil perceber como o número de hospitalizações por SRAGs disparou em comparação entre 2019 e 2020. Até o início do ano, as duas barras caminhavam quase juntas, mas a partir da semana 10 (entre 1 e 7 de março, poucos dias após o primeiro contágio confirmado) a diferença entre os dois fica mais evidente. Durante a semana 13, o número de internações disparou em cerca de 9 vezes na comparação entre anos.

A tendência é de aceleração

Como os testes para detecção do coronavírus ainda estão em escassez no Brasil (e no mundo inteiro), a subnotificação tende a ser altíssima e há casos de pessoas que chegam a morrer antes mesmo de serem formalmente diagnosticadas com Covid-19, olhar as hospitalizações por SRAGs ajuda a entender a dimensão do problema. Segundo o ministério da Saúde, até a quinta-feira (9) eram 127 mil brasileiros suspeitos de portarem o coronavírus esperando para serem testados, e 320 mil testes foram distribuídos, então é possível que a partir da próxima semana o número de casos confirmados se aproxime dos casos positivos, mas desconhecidos.

Atualmente, o Brasil realiza cerca de 0,3 testes para cada mil habitantes, o que é um número baixíssimo em comparação ao que é feito em outros países. O gráfico abaixo mostra que há várias nações chegando ou superando a marca de 10 testes para cada mil habitantes.

Reprodução 

Não é à toa que autoridades de saúde reforçam que o problema da Covid-19 não é apenas a doença e sua letalidade, mas o impacto que ela tem sobre o sistema de saúde de um país. Sim, ainda vai morrer muita gente contaminado pelo coronavírus no Brasil, mas as outras doenças também tendem a ter maior letalidade. Afinal de contas, com leitos hospitalares abarrotados com pacientes com Covid-19, não haverá mais espaço para cuidar adequadamente de vítimas de dengue, zika, chicungunha que já são doenças que já ocupam os hospitais em anos normais e não deverão parar de infectar brasileiros só porque o coronavírus está circulando. Da mesma forma, as pessoas continuarão tendo infartos e AVCs e podem não ter o atendimento adequado por causa do impacto da Covid-19 nos hospitais.

Esse impacto já está sendo amplamente reportado em algumas regiões. O Amazonas só tinha seis leitos em UTIs desocupados até quinta-feira (9). Na cidade São Paulo, os números também começam a preocupar. Segundo publicação da CBN, a prefeitura confirma que 94% dos leitos clínicos já é ocupado por pacientes com Covid-19. Entre as UTIs, há um pouco mais de folga: 65% delas estão preenchidas.


Confira em tempo real a COVID-19 no Brasil:



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