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A fruta do Cerrado que cruzou o Atlântico e revelou um valor que o Brasil ainda não aproveita

Davy Emanuel Silva dos Santos Davy Emanuel Silva dos Santos
14/07/2026 22:37
A fruta do Cerrado que cruzou o Atlântico e revelou um valor que o Brasil ainda não aproveita

A semente do baru começou a ser exportada diretamente para a Europa. - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Em junho de 2026, 200 quilos de baru saíram do Cerrado mineiro rumo à Áustria. Foi a primeira exportação direta da castanha para a Europa após a liberação sanitária do bloco. O detalhe está dentro do fruto: a parte mais valorizada representa apenas 4,45% de sua massa, enquanto polpa, casca e endocarpo raramente chegam ao mesmo mercado.

Como essa fruta do Cerrado entrou no mercado europeu?

📄 2023: A CoopCerrado notificou a intenção de vender sementes torradas na União Europeia.
✅ 2025: O bloco autorizou o produto como alimento tradicional de um país terceiro.
🚢 2026: Uma remessa direta de 200 quilos seguiu do Cerrado mineiro para a Áustria.

A entrada comercial ganhou forma com uma remessa enviada pela Cooperativa Regional de Base na Agricultura Familiar e Extrativismo (Copabase). Segundo a Agência Sebrae de Notícias, a operação de junho de 2026 foi a primeira exportação direta da cooperativa para a Áustria.

O lote recebeu remuneração 25% superior à obtida pelo baru convencional em outros mercados externos. O percentual compara o mesmo produto em operações internacionais, não o baru com o açaí. Antes desse embarque, o produto já alcançava Estados Unidos, Canadá e Dubai, o que mostra uma internacionalização construída em etapas. A cadeia responde por cerca de metade do faturamento da Copabase, alcança aproximadamente 300 famílias e movimenta em torno de 15 toneladas anuais. Por isso, a alegação de preço cinco vezes maior não pode ser repetida sem dados equivalentes de apresentação, moeda, país, loja e período.

Por que o baru foi tratado como alimento novo na Europa?

A União Europeia (UE) enquadrou o produto em sua legislação de novos alimentos porque não havia consumo relevante documentado no bloco antes de 1997. Essa classificação não significa que o baru seja novo para o Brasil. A semente torrada já possuía histórico de consumo seguro apresentado pelas organizações brasileiras durante o processo regulatório.

Em 30 de junho de 2025, o Regulamento de Execução 2025/1263 autorizou a comercialização das sementes inteiras e torradas. O documento também fixa requisitos de composição, contaminantes e rotulagem. A permissão não abrange automaticamente a polpa, a semente crua ou qualquer produto feito com outras partes do fruto.

A fruta do Cerrado que cruzou o Atlântico e revelou um valor que o Brasil ainda não aproveita
O bloco europeu classificou o baru devido à falta de consumo anterior. – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

O que existe dentro da casca dura do baru?

A parte vendida como castanha é uma única semente protegida por um endocarpo resistente. Segundo a Embrapa Cerrados, ela corresponde a 4,45% da massa do fruto. A abertura exige ferramentas ou máquinas próprias, e diferenças de tamanho entre árvores interferem no rendimento e na padronização comercial.

A norma europeia admite variações naturais e estabelece faixas de 20% a 35% para proteínas e gorduras nas sementes torradas. Esses números descrevem a composição do produto autorizado, mas não transformam o baru em cura ou garantia de benefícios extraordinários. A expressão “superalimento” pertence ao vocabulário comercial, não a uma categoria científica oficial.

Quanto do fruto ainda pode ganhar novos usos?

Parte do frutoUso documentado
AmêndoaConsumo após torra e extração de óleo.
Polpa e cascaProdução estudada de farinhas e alimentos processados.
EndocarpoPossível matéria-prima para carvão, sem uso alimentar.

A polpa, a casca e o endocarpo possuem aplicações registradas, embora recebam menos atenção comercial que a amêndoa. A publicação Critérios de Seleção de Baru para Produção de Amêndoas e Recomposição Ambiental informa que todo o fruto pode ser aproveitado. A polpa com casca já foi estudada em farinhas para pães e biscoitos, enquanto o endocarpo duro pode originar carvão.

Essas possibilidades não tornam qualquer fruto recolhido adequado para consumo imediato. Polpa, farinha, óleo e sementes torradas são produtos distintos, com exigências próprias de higiene, secagem, armazenamento e controle microbiológico. A expansão do aproveitamento depende de processamento seguro, padronização e compradores para cada material.

Por que colher no chão não significa desperdiçar?

O baru maduro costuma ser recolhido depois da queda natural, principalmente entre julho e setembro. A Embrapa também descreve a coleta com lona sob a copa. Como a semente se solta no interior, o fruto pode produzir um som característico ao ser sacudido, ajudando extrativistas a reconhecer o estágio de maturação.

A queda faz parte do ciclo da espécie e não comprova abandono. Frutos no solo podem alimentar animais, favorecer a regeneração ou sofrer danos de insetos na polpa, enquanto o endocarpo continua protegendo a semente. Não existe estimativa nacional confiável sobre quanto baru apodrece sem uso, portanto a imagem de desperdício generalizado deve ser apresentada como hipótese, não como estatística.

Um valor escondido no fruto

A viagem do baru até a Europa mostra como uma pequena semente pode abrir mercado para comunidades do Cerrado. O desafio brasileiro está em valorizar também as partes que ficam fora do pacote, sem confundir potencial de uso com alimento seguro. Quando ciência, processamento e comércio avançam juntos, o fruto deixa de ser apenas uma castanha cara e passa a revelar uma cadeia muito maior.

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Tags: alimentaçãocuriosidadessustentabilidade
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