Em março de 1974, um homem de uniforme remendado saiu da selva da ilha de Lubang, nas Filipinas, carregando um fuzil ainda funcional. Era o soldado japonês Hiroo Onoda, que continuava obedecendo a uma missão recebida em 1944. Panfletos, rádios e até mensagens da família não bastaram para convencê-lo de que a guerra havia terminado.
A ordem que manteve Hiroo Onoda na selva
Onoda chegou a Lubang em 26 de dezembro de 1944, quando o avanço aliado ameaçava as posições japonesas no arquipélago. Treinado em inteligência e guerrilha, recebeu a missão de dificultar desembarques inimigos e preservar uma resistência na ilha. Suas instruções proibiam a rendição e o suicídio, além de exigir que ele aguardasse novas ordens.
As forças americanas e filipinas retomaram Lubang em 1945, enquanto Onoda e outros três militares recuaram para as montanhas. A partir desse momento, uma ordem criada para uma campanha em andamento passou a controlar uma realidade que já havia desaparecido. Registros diplomáticos reunidos pelos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos confirmam que ele só abandonou a missão quando um superior o dispensou formalmente.

Por que os avisos sobre o fim da guerra falharam?
A rendição do Japão foi anunciada em agosto de 1945, mas os primeiros avisos encontrados pelo grupo não produziram o efeito esperado. Os homens examinaram panfletos lançados sobre a ilha e concluíram que o material poderia ser propaganda inimiga. Como ainda enfrentavam moradores, policiais e equipes de busca, interpretaram os confrontos como provas de que o conflito continuava.
Depois, as autoridades enviaram fotografias, cartas de parentes, gravações e novas mensagens. Porém, cada tentativa reforçou a desconfiança, pois Onoda acreditava que o adversário poderia ter reunido informações pessoais para montar uma armadilha. O isolamento, o treinamento militar e a obediência às ordens formaram um sistema fechado. Qualquer evidência contrária ganhava uma explicação capaz de preservar a crença na guerra.
Ele não passou os 29 anos sozinho
A versão do combatente completamente solitário durante quase três décadas simplifica a história. Onoda entrou na mata com Yuichi Akatsu, Shōichi Shimada e Kinshichi Kozuka. Akatsu deixou o grupo em 1949 e se entregou no ano seguinte. Shimada morreu em 1954, após um confronto com uma unidade filipina.
Kozuka permaneceu ao lado de Onoda até outubro de 1972, quando morreu durante um tiroteio com a polícia. Somente então Onoda viveu sozinho, por cerca de um ano e quatro meses. A morte do companheiro também mostrou ao governo japonês que ele provavelmente continuava vivo. Portanto, o fato documentado é uma resistência de quase 29 anos, não uma solidão ininterrupta pelo mesmo período.
Quem conseguiu encerrar a missão?
Duas pessoas tiveram papéis diferentes e decisivos no desfecho. Primeiro, uma encontrou Onoda e conquistou sua confiança. Depois, outra levou a autoridade militar que ele exigia para deixar a selva.
| Personagem | Papel no desfecho |
|---|---|
| Norio Suzuki | Localizou Onoda em fevereiro de 1974 e voltou ao Japão com fotografias que provaram o encontro. |
| Yoshimi Taniguchi | Viajou até Lubang e comunicou formalmente o encerramento das atividades militares. |
Suzuki encontrou Onoda em fevereiro de 1974, após poucos dias de busca, e ouviu que ele aguardava uma ordem do antigo comandante. O governo japonês localizou Taniguchi, que já trabalhava como livreiro. Em março, ele leu as instruções que encerravam a missão. A Nippon.com registra que Onoda retornou ao Japão em 12 de março, depois de sair da selva com espada, munição e um fuzil preservado.
O retorno transformou Onoda em herói e controvérsia
No Japão, multidões receberam Onoda como símbolo de disciplina, resistência e lealdade. Essa leitura, contudo, não resume o que aconteceu em Lubang. Durante a clandestinidade, o grupo roubou alimentos, queimou colheitas e participou de confrontos com moradores e policiais. O presidente filipino Ferdinand Marcos concedeu perdão ao militar, encerrando o risco imediato de punição.
Famílias filipinas atribuem ao grupo mortes e ferimentos ocorridos depois de 1945, mas as fontes divergem sobre o número exato e a responsabilidade individual em cada episódio. Por isso, uma cifra única não deve aparecer como certeza. Uma reportagem da Special Broadcasting Service (SBS) reúne relatos de descendentes e mostra por que a imagem de Onoda continua disputada. Para uns, ele representou obediência extrema. Para outros, prolongou a violência contra uma população que já vivia em paz.
Uma ordem além da guerra
A história de Hiroo Onoda mostra como uma ordem, reforçada pelo isolamento e pela desconfiança, pode sobreviver ao conflito que lhe deu origem. O episódio permanece relevante porque reúne disciplina, crença e violência, além de lembrar que nenhuma narrativa de resistência deve apagar as consequências sofridas pelos habitantes de Lubang.
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