O chão da atual Arta esconde ruas, muralhas e edifícios de Ambrácia, uma cidade grega que enfrentou Roma em 189 a.C. Quando os invasores abriram passagens sob as defesas, os moradores responderam com escuta, contratúneis e fumaça sufocante. O subsolo virou um campo de batalha que ainda provoca perguntas sobre engenhosidade e sobrevivência.
Por que Roma atacou Ambrácia em 189 a.C.?
A cidade ocupava uma posição estratégica no Epiro, próxima ao golfo Ambraciano e protegida pelo rio Arachthos. Colonos de Corinto a fundaram no fim do século VII a.C., favorecidos por terras agrícolas, comércio e madeira para construção naval. Sua força regional também nasceu da ligação entre caminhos terrestres, acesso fluvial e proximidade com o litoral.
Durante o governo de Pirro, Ambrácia virou capital real e recebeu palácios, templos e teatros. Depois, entrou na Liga Etólia, adversária de Roma naquele momento, e passou a enfrentar uma pressão militar crescente. Em 189 a.C., Marco Fúlvio Nobilior cercou a cidade, mas encontrou moradores preparados para responder a novas estratégias.
Como era a cidade que Roma encontrou?
Ambrácia tinha muralhas robustas, ruas largas pavimentadas e vias menores com calçadas. O traçado formava quadras regulares, dotadas de esgoto central e canais transversais para conduzir a água. Segundo a documentação institucional, cada quadra reunia vinte casas organizadas ao redor de pátios com colunas.
A vida pública se concentrava na ágora, perto do templo de Apolo Pítio Salvador, dos teatros e de edifícios administrativos. Oficinas locais produziam cerâmica, estatuetas, trabalhos em pedra e peças de cobre, enquanto a cidade cunhava moedas próprias. Esse cenário ajuda a entender por que o cerco ameaçava uma comunidade rica, estruturada e acostumada a defender sua autonomia.

Como os defensores encontraram o túnel romano?
Os romanos começaram com aríetes e equipamentos capazes de quebrar muralhas e puxar partes das ameias. Os moradores reagiram soltando pedras, pesos e troncos, enquanto erguiam barreiras internas sobre as brechas abertas. Sem uma passagem segura na superfície, os invasores iniciaram uma escavação subterrânea para atingir as defesas por baixo.
A terra retirada do túnel formou um volume visível e alertou os sitiados. Eles cavaram uma vala paralela à muralha, instalaram placas metálicas finas e escutaram as vibrações produzidas pelos mineiros romanos. Depois, abriram uma passagem perpendicular e interceptaram o corredor inimigo, transformando observação, acústica e trabalho coordenado em defesa concreta.
A fumaça subterrânea foi realmente uma arma química?
O relato de Políbio descreve uma solução montada para expulsar os escavadores romanos. Os defensores adaptaram um grande recipiente ao túnel, abriram um furo na base e conectaram um tubo de ferro. Penas finas, carvões acesos e uma tampa metálica perfurada completavam o dispositivo voltado para a passagem inimiga.
Um fole de ferreiro empurrava ar pelo tubo e levava uma fumaça pungente para o corredor romano. O espaço ao redor do recipiente foi fechado para concentrar o fluxo, que os invasores não conseguiram suportar. A fonte, porém, não identifica compostos, registra mortes ou prova que esse foi o primeiro uso de gás venenoso.
O que aconteceu com Ambrácia depois do cerco?
A resistência prolongou a operação, mas não terminou em vitória militar. Negociações levaram os habitantes a aceitar a rendição, enquanto os aliados etólios deixaram a cidade sob trégua. Depois, Marco Fúlvio retirou objetos decorativos, estátuas e pinturas ligados ao período em que Ambrácia havia servido como residência real.
A página do Museu Arqueológico de Arta e Ministério da Cultura da Grécia informa que a cidade conservou certa autonomia romana. Após a fundação de Nicópolis, ligada à vitória de Otaviano em 31 a.C., parte da população foi transferida. Séculos depois, Arta cresceu sobre o terreno antigo e incorporou ruínas ao cotidiano urbano.
Partes das muralhas, o templo de Apolo, o pequeno teatro e trechos da necrópole permanecem visíveis entre construções modernas. O Museu Arqueológico de Arta dedica sua exposição à antiga cidade e reúne objetos recuperados pelas escavações. Assim, a história do cerco continua ligada a ruas usadas diariamente por moradores e visitantes.
Escute o que ficou sob as ruas
Ambrácia mostra que uma cidade pode desaparecer do mapa político sem perder sua voz. O cerco, os túneis e a fumaça revelam uma defesa construída com observação, técnica e coragem, enquanto as ruínas sobrevivem sob a Arta moderna. Ao conhecer essa região grega, procure os vestígios discretos e imagine o som das escavações atravessando a terra.
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