🔆 Sem gasolina e sem luz, cubanos parafusaram painéis solares no teto de triciclos
Os carros antigos que viraram cartão-postal de Havana quase sumiram das ruas. No lugar deles, triciclos elétricos chineses com placas solares no toldo viraram o transporte de centenas de milhares de pessoas numa ilha onde a corrida custa menos de um dólar. ⬇️
Os calhambeques coloridos dos anos 1950 praticamente desapareceram das ruas de Havana. No lugar deles, triciclos elétricos fabricados na China dominam as avenidas, os becos e as rotas que os ônibus abandonaram. Muitos desses veículos de três rodas carregam uma adição improvisada no toldo: um painel solar que recarrega a bateria durante o trajeto, sem depender da rede elétrica que apaga todos os dias. A cena resume como Cuba enfrenta a pior crise de energia das últimas décadas.
Por que os triciclos elétricos tomaram conta das ruas cubanas?
Porque não há combustível para mover mais nada. Cuba produz apenas cerca de 40% do petróleo que consome. Desde janeiro de 2026, quando o governo dos Estados Unidos ameaçou impor tarifas sobre países que vendessem petróleo à ilha, o fornecimento externo despencou. Segundo a Associated Press, apenas um navio-tanque chegou a Cuba desde então, no fim de março. Antes, eram cerca de oito por mês.
O colapso no abastecimento agravou os apagões rotativos, reduziu o transporte público a quase zero e aprofundou a escassez de alimentos e medicamentos. Nesse cenário, os triciclos elétricos se tornaram a alternativa mais viável. Custam entre 2 mil e 4 mil dólares, rodam com baterias de gel ou lítio e não dependem de gasolina. Marcas chinesas como Zonsen e Jinpeng dominam o mercado, e a marca Vedca é montada localmente por meio de um acordo com a China.

Como funcionam os triciclos equipados com painéis solares?
O princípio é simples. Uma placa fotovoltaica é fixada sobre o toldo que cobre os assentos dos passageiros. Enquanto o veículo circula ou fica estacionado, o painel solar alimenta a bateria sem depender da rede elétrica. A instalação do suporte e da placa custa cerca de 500 dólares, segundo Carlos Álvarez, engenheiro de 29 anos que mantém uma oficina especializada em veículos elétricos em Havana.
O investimento se paga rápido. Com os blecautes diários que atingem a ilha, carregar a bateria na tomada virou operação incerta. O painel garante autonomia mínima para que o veículo continue rodando mesmo quando a energia da rua some. É uma solução precária se comparada a qualquer sistema de transporte urbano organizado, mas funcional dentro das condições reais da cidade.
Quem consegue comprar um veículo desses num país com salário de 10 dólares?
A conta não fecha pela via convencional. O salário médio de um funcionário público em Cuba gira em torno de 10 dólares por mês. No setor privado, chega a cerca de 40. Um triciclo de três rodas de 2 mil dólares equivale a mais de 16 anos de salário estatal. Mesmo assim, eles se multiplicaram pelas ruas.
As formas de aquisição variam. Parte dos cubanos vendeu seus carros antigos movidos a gasolina, que perderam utilidade sem combustível nas bombas. Outros receberam os veículos de parentes que vivem no exterior, onde os preços costumam ser menores. Pequenos empresários investiram o lucro de seus negócios, apostando na recuperação rápida do capital com o transporte de passageiros e mercadorias.
- Transporte de passageiros: os triciclos cobrem rotas fixas que os ônibus deixaram de atender. A corrida custa cerca de 500 pesos cubanos, menos de 1 dólar.
- Carga e abastecimento: comerciantes como Ricardo Quintero, engenheiro e dono de uma barraca de verduras, usam o veículo para levar produtos até o ponto de venda.
- Coleta de lixo: em alguns bairros de Havana, os veículos elétricos de três rodas substituíram caminhões na retirada de resíduos das ruas.

Essa solução improvisada tem chance de durar?
Ricardo Quintero, um dos donos entrevistados pela AP, acredita que sim. Olhando para o próprio triciclo solar, ele resumiu em uma frase o que muitos cubanos já perceberam: isso veio para ficar. A frase carrega menos otimismo do que resignação. A crise de combustível não dá sinais de recuo, e a rede elétrica continua instável. O veículo não é confortável, não é rápido e expõe passageiros ao sol e à chuva. Mas anda.
Berta Ferrer, funcionária de uma loja no centro de Havana, toma o triciclo quatro vezes por semana para chegar ao trabalho. Os 500 pesos da corrida pesam no orçamento. A alternativa, porém, é caminhar. “Se você pode pagar, você pega. Se não pode, não vai a lugar nenhum”, disse ela à AP.
O que os triciclos de Havana revelam sobre adaptação em tempos de escassez?
Revelam que, quando o sistema colapsa, as pessoas constroem o próximo com o que têm à mão. Painéis solares parafusados em toldos de lona, baterias de lítio embarcadas em chassis chineses e rotas traçadas na base da demanda, sem planejamento oficial. Não é um modelo de transporte público. É sobrevivência organizada, e funciona porque não havia alternativa.
Se a imagem de carros dos anos 1950 rodando por Havana já contava uma história sobre improvisação e resistência, a dos triciclos elétricos com placa solar no teto conta a mesma história numa versão atualizada, mais silenciosa e movida pelo sol que não falta na ilha.
