À primeira vista, os blocos avermelhados parecem rochas comuns, mas veios, anéis e texturas revelam outra origem. Em Mata, no Rio Grande do Sul, troncos de uma floresta do Triássico atravessam cerca de 230 milhões de anos. Eles reaparecem no chão, nas praças e ao redor da igreja, sob o céu do interior gaúcho.
Como uma floresta inteira virou pedra?
Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul, uma grande enchente derrubou a antiga floresta no período Triássico. Depois, minerais substituíram gradualmente a matéria vegetal e preservaram os troncos na forma encontrada atualmente.
Nesse processo, a celulose deu lugar à sílica e ao dióxido de silício, enquanto parte da estrutura interna permaneceu registrada. Os fósseis também documentam alterações climáticas do Triássico, por isso ajudam a reconstruir ambientes desaparecidos e etapas da evolução geológica da Terra.
Por que os troncos ainda parecem madeira?
Os minerais ocuparam espaços microscópicos sem apagar completamente o desenho dos tecidos vegetais. Essa preservação explica veios, rachaduras, anéis e superfícies que confundem o olhar, pois o visitante reconhece uma árvore em um material transformado em rocha há milhões de anos.
O Serviço Geológico do Brasil classifica os Sítios Paleobotânicos do Arenito Mata entre as mais importantes florestas petrificadas do planeta. Os lenhos fósseis silicificados aparecem em arenitos, sedimentos e pontos da área urbana, aproximando pesquisa, educação, turismo e cotidiano.

Como os fósseis entraram na paisagem da cidade gaúcha?
A integração dos fósseis ao espaço urbano ganhou força na década de 1970, ligada à atuação do padre Daniel Cargnin. Ao perceber que os troncos petrificados precisavam de proteção, ele ajudou a incorporá-los à paisagem e fortaleceu uma identidade que ainda marca o centro do município.
A Igreja Matriz Santo Antônio recebeu, em 1977, escadarias, cruz, praça e calçadas ornamentadas com fósseis vegetais. Na Praça Santo Brugalli, fragmentos também aparecem na ornamentação, lembrando a busca comunitária por conservação, pesquisa e memória coletiva.
O Jardim Paleobotânico de Mata conserva fósseis no próprio solo
| Tipo | Foco |
|---|---|
| Jardim Paleobotânico | Fósseis vegetais preservados no terreno em uma área de 3,6 hectares. |
| Paisagem urbana | Praça, escadarias e calçadas ornamentadas com madeira petrificada. |
O Jardim Paleobotânico de Mata conserva exemplares no local onde foram encontrados, condição definida pelo termo científico in situ. Em 1980, a prefeitura delimitou cerca de 3,6 hectares por meio de convênio com a Universidade Federal de Santa Maria, unindo proteção, pesquisa, educação e visitação.
O estado tombou o jardim em 19 de junho de 2018 e o registrou no Livro Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Os troncos ainda afloram junto às encostas, enquanto o inventário federal indica acesso pela BR-287 e pela RS-532, em um percurso de cerca de 12,45 km até o centro.
Mata é para olhar devagar
Essa cidade aproxima a rotina de uma pequena cidade gaúcha aos vestígios de uma floresta triássica, preservados por cerca de 230 milhões de anos. Entre o jardim, as calçadas e as escadarias, a pedra conserva formas, texturas e histórias que pertenciam a árvores de um mundo desaparecido. Reserve tempo para caminhar sem pressa e observar cada detalhe, porque este é daqueles lugares capazes de mudar nossa percepção sobre o passado.
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