Na margem de um canal, pescadores esperam em silêncio enquanto dorsos cinzentos cortam a água. O lance da tarrafa não começa por ordem humana, mas por um movimento do boto, interpretado por quem aprendeu a observar o mar. Em Laguna, essa parceria conduz a pesca artesanal e transforma uma tradição nacionalmente reconhecida em uma das cenas mais incomuns do litoral catarinense.
Por que a pesca com botos de Laguna virou patrimônio?
A resposta está no conhecimento transmitido entre gerações. Os pescadores reconhecem comportamentos individuais, leem a movimentação da água e dominam o tempo da tarrafa. Essa aprendizagem forma um saber coletivo, ligado à paisagem, à tainha e à convivência diária com os animais.
Em 11 de março de 2026, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou a Pesca com Botos no Sul do Brasil como Patrimônio Cultural do Brasil. A inscrição no Livro dos Saberes reconhece a prática como conhecimento tradicional, não como simples atração turística.
O sinal que faz a tarrafa tocar a água
Os botos conduzem o cardume de tainhas em direção à margem, onde os pescadores formam uma barreira humana. Um mergulho repentino, uma mudança de direção ou uma batida de cauda pode indicar o instante certo para lançar a tarrafa. Imagens aéreas, registros subaquáticos e sons permitiram à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) descrever essa sincronia. Nos eventos observados, 86% dos peixes recolhidos vieram de lances sincronizados.
Com os botos presentes, os pescadores ficaram 17 vezes mais propensos a capturar tainhas e recolheram quase quatro vezes mais peixes. Entre os animais cooperativos, a taxa estimada de sobrevivência foi 13% maior. A cooperação, porém, não envolve todos os animais. No levantamento divulgado em 2023, cerca de 40% da população observada apresentava esse comportamento. Os pescadores reconhecem indivíduos por marcas e modos de agir, enquanto os filhotes podem aprender a técnica acompanhando as mães.

O que conhecer depois de acompanhar os botos?
Depois dos botos, o visitante pode conhecer os Molhes, o Centro Histórico e o Farol de Santa Marta. A mesma viagem reúne paisagem costeira, arquitetura histórica e comunidades ligadas ao mar. O roteiro fica mais completo quando a observação da pesca se conecta aos lugares que explicam a formação de Laguna.
- Molhes da Barra: principal cenário para observar pescadores, botos, a entrada do canal e o movimento entre a lagoa e o oceano.
- Praia dos Botos: faixa de águas mais tranquilas na margem norte do canal, associada à observação da pesca cooperativa.
- Centro Histórico: conjunto urbano tombado, com ruas, casarios e espaços ligados à memória política e marítima do município.
- Farol de Santa Marta: marco de navegação inaugurado em 1891, cercado por praias, dunas e comunidades pesqueiras.
- Caixa de Pesca: ponto menos óbvio nos Molhes, usado como referência para contemplar a paisagem e acompanhar a rotina local.
Essa combinação revela uma cidade que não separa patrimônio cultural e ambiente. As construções contam parte da história, enquanto o canal mostra um saber ainda praticado. Por isso, reservar tempo para caminhar e observar torna a visita mais rica do que uma passagem rápida.
Quando e onde acompanhar a pesca em Laguna?
| Tipo | Foco |
|---|---|
| Cultural | Observar o trabalho dos pescadores sem ocupar a área de lançamento das tarrafas. |
| Natural | Acompanhar os botos à distância, sem alimentar, tocar ou perseguir os animais. |
O período mais associado à pesca da tainha vai de junho a julho, conforme o Portal de Turismo de Laguna. Os Molhes da Barra, a Praia dos Botos e outros pontos da Lagoa de Santo Antônio dos Anjos permitem acompanhar a atividade quando cardumes, animais e pescadores se encontram.
Não existe garantia de avistamento nem horário fixo, porque a cena depende das condições naturais e da presença dos peixes. Chegar cedo aumenta o tempo disponível para observar, mas o visitante precisa manter distância das tarrafas e respeitar o espaço de trabalho. A experiência ganha sentido quando a curiosidade não interfere na rotina.
Leve o tempo do canal na memória
Laguna guarda uma parceria em que atenção, experiência e movimento animal formam uma linguagem sem palavras. O patrimônio vive porque pescadores continuam lendo os botos, famílias transmitem o conhecimento e o ambiente ainda permite esse encontro raro entre espécies, ligado à tainha, à lagoa, ao trabalho artesanal e à vida diária de quem conhece o canal desde cedo. Visite os molhes com calma, escute quem mantém a tradição, converse com respeito e deixe que a cidade revele seu ritmo como faria um amigo antigo.
Leia mais:
