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Home Cidades

O enigma de 12 mil anos que sobrevive nas serras de uma cidade amazônica

Davy Emanuel Silva dos Santos Davy Emanuel Silva dos Santos
05/08/2026 09:08
O enigma de 12 mil anos que sobrevive nas serras de uma cidade amazônica

Achados arqueológicos amazônicos revelam vestígios ancestrais em formações rochosas de Monte Alegre - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

O vermelho ainda resiste nas paredes de pedra, cercado por serras que rompem a planície amazônica. Em Monte Alegre, no oeste do Pará, cavernas, abrigos e paredões preservam sinais ligados a algumas das ocupações humanas mais antigas conhecidas na região. A paisagem transforma a chegada ao município em uma viagem entre arqueologia, natureza e perguntas ainda abertas.

Por que Monte Alegre mudou a história da ocupação amazônica?

🏛️ Há cerca de 12 mil anos: Ocupações humanas deixam vestígios entre cavernas e serras.
🌿 2001: O parque estadual nasce para proteger paisagens e sítios arqueológicos.
🚀 Hoje: Pesquisa, visitação responsável e conservação mantêm essa história visível.

Os achados da Caverna da Pedra Pintada, também chamada de Gruta do Pilão, ajudaram a desmontar a antiga ideia de uma Amazônia pouco ocupada antes da colonização. O Museu Paraense Emílio Goeldi informa que o local apresenta indícios de presença humana desde cerca de 12 mil anos.

Essa antiguidade coloca o município entre os pontos decisivos para compreender a ocupação das Américas. Criado em 2001, o parque protege parte desse conjunto e aproxima conservação ambiental, pesquisa arqueológica e visitação orientada. As fontes oficiais relacionam pinturas, gravuras, cerâmicas e artefatos a diferentes períodos, portanto, a mesma idade não pode ser atribuída automaticamente a cada figura preservada nas rochas. O conjunto importa porque reúne imagem, abrigo, vestígios escavados e paisagem em uma mesma narrativa arqueológica.

As serras transformam a arqueologia em paisagem

O cenário surpreende porque as formações rochosas surgem acima da planície, abrindo mirantes naturais sobre rios, campos e floresta. O Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará apresenta um circuito com cavernas, trilhas, paredões pintados e formas esculpidas pela erosão. Essa combinação faz da geologia parte essencial da experiência arqueológica.

Na Serra da Lua, desenhos aparecem em um paredão aberto. Na Serra do Paytuna, a Gruta do Pilão ocupa um flanco cerca de 120 metros acima do Rio Amazonas. A Pedra do Mirante combina visão panorâmica de 360 graus com pinturas em sua base, enquanto a Pedra do Cogumelo e a Pedra da Tartaruga revelam como o vento modelou a rocha. Não se visita apenas um acervo, percorre-se o ambiente que deu suporte a ele.

O enigma de 12 mil anos que sobrevive nas serras de uma cidade amazônica
Formações rochosas e mirantes naturais abrigam acervos arqueológicos na paisagem amazônica – Créditos: Wikimedia Commons

O que permanece desenhado nas pedras de Monte Alegre?

As superfícies guardam figuras geométricas, formas humanas e animais, além de marcas cuja interpretação continua exigindo pesquisa. O valor desses painéis não depende apenas de uma imagem isolada, mas da relação entre pigmentos, posição do abrigo, vestígios escavados e sucessivas presenças humanas no território. Por isso, os pesquisadores documentam traços, sobreposições, técnicas e condições de conservação.

A arqueóloga Edithe Pereira pesquisa a arte rupestre local desde 1989. Segundo o Museu Goeldi, seus estudos originaram livros, exposições, materiais didáticos, capacitação de condutores e um selo dos Correios lançado em 2013. Em 2024, pesquisas coordenadas pela instituição anunciaram 14 novos sítios arqueológicos fora do parque, ampliando um patrimônio municipal que ultrapassa 30 sítios. O trabalho científico também inspirou roupas, joias, quadrinhos e um samba-enredo local. Em 2022, o parque entrou na seleção de 25 locais do World Monuments Watch, reconhecimento que também expôs ameaças ligadas ao fogo, à expansão agropecuária e a períodos mais secos.

Como visitar sem transformar o patrimônio em cenário?

TipoFoco
ArqueológicoPinturas, gravuras, cavernas e vestígios protegidos.
NaturalSerras, mirantes, trilhas e rochas moldadas pela erosão.

A visita exige acompanhamento e cuidado, porque qualquer toque, risco ou retirada de material pode causar perda irreversível. O órgão gestor informa que a entrada é gratuita e ocorre por visita monitorada, solicitada ao parque, ou por visita guiada com condutores credenciados. Caminhar com quem conhece as rotas ajuda a perceber a altura dos painéis, a relação entre abrigo e paisagem e as diferenças entre pintura, gravura e forma natural.

O período indicado pelo IDEFLOR-Bio vai de maio a dezembro, quando as chuvas ficam menos intensas. A partir de Santarém, o trajeto combina cerca de duas horas de balsa até Santana do Tapará e aproximadamente 80 km por via terrestre. Ramais arenosos podem exigir veículo com tração, por isso o planejamento deve considerar as condições locais, água, calçado adequado e orientação credenciada. Preservar silêncio, distância e superfícies mantém o lugar disponível para pesquisa e para as próximas gerações.

Leve essa história com você

Monte Alegre reúne algo raro, uma cidade amazônica onde o passado remoto continua integrado às serras, às cavernas e à vida atual. Cada painel amplia a percepção sobre a presença humana na floresta e lembra que a Amazônia guarda histórias muito anteriores aos registros coloniais. A maior surpresa está em reconhecer uma paisagem observada, ocupada e simbolizada por grupos humanos há milhares de anos. Visite com tempo, escute os condutores e trate cada parede pintada como um documento que atravessou milênios para chegar até nós.

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Tags: curiosidadehistórianatureza
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