Entre ruas que acompanham o ritmo acelerado da Região Metropolitana do Recife, uma colina conserva paredes erguidas no começo da colonização portuguesa. Em Igarassu, a Igreja dos Santos Cosme e Damião, iniciada em 1535, ancora um conjunto de casarões, conventos e museus que transforma a cidade em uma sobreposição viva de tempos.
Por que a igreja de Igarassu atravessa tantos séculos?
A resposta começa em 1535, quando o capitão Afonso Gonçalves mandou erguer uma capela dedicada aos santos padroeiros. O templo nasceu no mesmo período de formação do núcleo colonial e tornou-se uma referência espacial para o povoamento que cresceu ao redor da colina. A data marca a origem da construção, mas não significa que cada parede permaneceu intocada. Reformas sucessivas incorporaram soluções de outros períodos, fazendo do edifício uma síntese de mudanças religiosas, arquitetônicas e sociais.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Iphan considera a construção a igreja mais antiga existente no Brasil. O reconhecimento não depende apenas da idade, pois o edifício preservou uso religioso e recebeu adaptações ao longo de quase cinco séculos. Tombado individualmente em 1951, o templo passou por amplo restauro concluído em 2022. A intervenção conservou características históricas, introduziu melhorias para o uso contemporâneo e também alcançou a Casa Paroquial vizinha.
O que nasceu ao redor da matriz de 1535?
Ao redor da igreja surgiu um conjunto de ruas, largos e edifícios que reúne diferentes fases da história pernambucana. Segundo a Prefeitura de Igarassu, o sítio histórico ocupa aproximadamente 396.202 m² e concentra alguns dos monumentos civis e religiosos mais antigos e preservados do estado. A proteção federal deixou de olhar apenas para um prédio quando, em 1972, alcançou o conjunto arquitetônico e paisagístico. Dessa forma, praças, perspectivas, volumes e relações entre imóveis também passaram a integrar o patrimônio.
O visitante encontra a antiga Casa de Câmara e Cadeia, erguida em meados do século XVIII, além do Museu Histórico de Igarassu, instalado em três casas do mesmo século. A instituição municipal informa que seu acervo reúne cerca de 250 peças, entre documentos, objetos sacros, armas e moedas. A antiga sede administrativa também chama atenção pelas dimensões, consideradas as maiores entre edifícios desse tipo até a construção da Casa de Detenção do Recife, no século XIX. Assim, arquitetura e acervo contam partes complementares da mesma trajetória.

Igarassu preserva histórias além da igreja mais antiga
O conjunto não termina na matriz. O Convento de Santo Antônio, construído no fim do século XVI, foi o terceiro convento franciscano erguido no Brasil. Ampliado no século XVII, tornou-se escola de noviços e acumulou funções muito diferentes da finalidade religiosa inicial. Durante a Revolução Praieira de 1848, o prédio serviu como quartel-general das tropas revolucionárias. Mais tarde, o espaço passou a receber o atual Museu Pinacoteca de Igarassu, mantendo circulação pública em uma construção atravessada por episódios políticos.
A pinacoteca guarda 24 quadros e painéis dos séculos XVII e XVIII, alguns relacionados à trajetória pernambucana. Perto dali, capelas, conventos e sobrados completam uma paisagem que não pode ser compreendida por uma única data. Essa concentração de igrejas, museus, antigos espaços administrativos e casario explica por que o núcleo funciona como documento urbano. Cada construção registra uma etapa diferente, enquanto a proximidade entre elas permite enxergar continuidades e rupturas sem separar os monumentos da cidade atual.
Como o núcleo antigo convive com a metrópole?
| Tipo | Foco |
|---|---|
| Religioso | Matriz de 1535 e conventos de diferentes períodos. |
| Urbano | Casario, museus, largos e antigos edifícios administrativos. |
Igarassu integra a Região Metropolitana do Recife e fica a cerca de 27 km da capital pernambucana, segundo o Tribunal de Contas do Estado. Essa proximidade coloca o núcleo histórico dentro de uma área marcada por deslocamentos diários, novas construções, redes de transporte e demandas urbanas que não existiam quando a matriz começou a ser erguida. O Plano Diretor Participativo instituído em 2024 tornou-se o principal instrumento municipal para orientar a política urbana e ambiental, incluindo decisões que afetam ocupação, mobilidade e proteção territorial.
Uma pesquisa do Centro Lúcio Costa do Iphan sustenta que a conservação precisa observar escalas local e regional. As relações com Itamaracá, Itapissuma, o Canal de Santa Cruz, rios e conexões terrestres interferem na leitura do patrimônio. A transformação desses vínculos altera a maneira como o sítio funciona e é percebido. Preservar, portanto, não significa congelar a cidade, mas orientar mudanças, manter referências visuais e reconhecer que o centro antigo participa de um território maior.
Uma cidade que mantém o passado em movimento
A igreja iniciada em 1535 continua sendo o centro simbólico de uma paisagem formada por fé, administração, arte e conflitos históricos. Caminhar por esse núcleo permite perceber como o patrimônio permanece vivo quando ainda participa da rotina urbana, recebe celebrações e dialoga com novas necessidades. Igarassu mostra que conservar não significa afastar o passado do presente. Ao visitar a cidade, observe não apenas a idade dos edifícios, mas as relações que continuam unindo cada praça, fachada, caminho e encontro cotidiano.
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