Quem caminha pelo alto da Serra das Letras encontra pedra sob os pés, nas paredes e até nas divisórias internas de casas antigas. Em São Thomé das Letras, o quartzito não funciona apenas como cenário: ele moldou técnicas construtivas, virou produto mineral de alcance nacional e, em 2024, recebeu reconhecimento oficial de origem. A história urbana local quase se confunde com a própria rocha.
O quartzito de São Thomé das Letras começou a se formar quando?
O terreno associado à formação foi estruturado entre 1,4 e 1,7 bilhão de anos, muito antes do surgimento do arraial. A ficha técnica do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) explica que o quartzito resulta de processos metamórficos ligados a temperatura, pressão, fluidos e à dinâmica tectônica.
O quartzo presente na rocha se recristalizou durante o metamorfismo, formando cristais firmemente imbricados. O documento também classifica a Pedra São Thomé como rocha metamórfica de tonalidades esbranquiçadas, amarelas e rosadas. Por isso, a curiosidade central de São Thomé das Letras começa muito antes de qualquer rua: a paisagem urbana ocupa um terreno cuja história geológica atravessa escalas de tempo quase impossíveis de comparar com a história humana.
Por que a mesma pedra aparece nas ruas e dentro das casas?
Porque o quartzito era abundante e se tornou material de construção diretamente ligado ao terreno local. O Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG) registra edificações antigas com alvenaria estrutural de pedras secas, formada por lascas irregulares sobrepostas sem aglomerantes. A rocha também aparece em pisos, portais, cercaduras e divisórias internas, enquanto grandes blocos acompanham a topografia das ruas.
A Capela de Nossa Senhora do Rosário mostra essa técnica de forma especialmente clara. Segundo o IEPHA-MG, sua construção começou no século XVIII com alvenaria estrutural de pedra seca, e a consagração ocorreu em 1995. O edifício preserva um exemplo visível de como a geologia local entrou na arquitetura religiosa e ajuda a explicar por que, em São Thomé das Letras, a pedra retirada da região aparece tanto na estrutura quanto na aparência urbana.

Como a Pedra São Thomé entrou na economia local?
A relação econômica é antiga. A Agência Minas registra que moradores começaram a explorar a Pedra São Thomé por volta de 1860. A atividade ganhou escala ao longo do tempo, e a rocha passou das construções locais para etapas de extração, beneficiamento, ornamentação e revestimento.
Essa continuidade ligou patrimônio, trabalho e paisagem. A prefeitura inclui a extração e o beneficiamento da pedra entre as atividades da economia municipal, enquanto o nome de São Thomé permaneceu associado ao quartzito mesmo após a ampliação de seus usos. Assim, a rocha que serviu como solução construtiva também se tornou produto mineral e reforçou o vínculo territorial reconhecido mais tarde pela Denominação de Origem.
O que a D.O. reconhece na Região Pedra São Thomé das Letras?
O reconhecimento oficial identifica uma ligação entre as características do quartzito e a área onde ele se formou. O INPI concedeu a Denominação de Origem em 9 de julho de 2024 para quartzitos plaqueados ou foliados da Região Pedra São Thomé.
A área delimitada pelo registro possui 108.067.552,89 m² e fica majoritariamente em São Thomé das Letras, com parte em Luminárias. A ficha técnica descreve a rocha como resistente à abrasão, de baixa condutividade térmica e com estrutura tabular que facilita o desplacamento em lajotas. Essa combinação de geologia, propriedades físicas e histórico de processamento local transformou o nome da pedra em uma indicação oficialmente vinculada ao território.
A cidade é escrita na própria pedra
Em São Thomé das Letras, o quartzito conecta uma história geológica antiquíssima à arquitetura e ao trabalho de gerações. A mesma rocha que condiciona ruas e aparece em paredes também recebeu reconhecimento de origem e continua associada à economia local. Se você gosta de lugares em que a paisagem explica a cidade antes mesmo de qualquer placa, caminhe pelo centro observando o chão, as fachadas e os encaixes das pedras: ali, séculos de construção e uma história geológica imensa permanecem à vista.
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