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Tem gente que carrega a vida inteira dentro de duas caixas de isopor. Foi assim, num domingo de Dia dos Pais na orla de Casa Caiada, que um senhor de boina e camisa social virou assunto no Brasil inteiro.
A boina e o isopor na areia de Casa Caiada
Vital Maria da Costa, de 85 anos, é fotógrafo aposentado e também trabalhou como marceneiro, pintor de automóveis e sorveteiro. Morador de Belo Jardim, no Agreste de Pernambuco, ele está desde o início do ano na casa de um irmão, na Região Metropolitana do Recife, para facilitar o acompanhamento médico. A Folha de Pernambuco situa esse endereço no bairro do Janga, em Paulista.
De lá até a praia de Casa Caiada, em Olinda, é uma boa caminhada. Ele a fazia mesmo convivendo com hérnia em estágio avançado, complicações nos rins e na próstata e dores de cabeça constantes.
E foi justamente em uma dessas idas à praia de Casa Caiada que a história de Vital chamou a atenção nas redes sociais. Em um vídeo publicado por Jonatha Felip, o aposentado aparece vendendo pudim mesmo diante das dificuldades de saúde e conta um hábito que emocionou quem registrou o encontro: ao chegar em casa, ele costuma fazer uma oração agradecendo por cada cliente que comprou com ele. Confira o vídeo no Instagram
Três sabores que vieram da cozinha da mãe e da avó
Os pudins são feitos por ele mesmo, nos sabores tradicional, café e doce de leite. O de café e o de doce de leite saíam por R$ 7. Quem já pesquisou preço de exame particular entende a matemática: cada unidade era um pedaço pequeno de uma conta grande.
A habilidade vem de longe, de quando ele aprendeu a cozinhar observando a mãe e a avó. Segundo reportagem de Genivaldo Henrique para a Folha de Pernambuco, o aposentado depende do SUS, mas faltava dinheiro para a rede particular. “O médico falou que eu precisava desse exame rápido”, contou Seu Vital.
Quem filmou, quem reconheceu e quem espalhou
O empresário Jonatha Felipe passeava pela orla, comprou dois pudins e publicou o registro no Instagram. Em menos de quatro horas, mais de 100 mil pessoas já tinham visto. Hoje o vídeo passa de 3 milhões de visualizações, com relatos de acessos em Portugal, Estados Unidos, Suíça, Irlanda, Espanha e Escócia.
A história chegou até a dentista Ana Júlia Leal, quase vizinha do idoso, que o reconheceu e foi até a casa onde ele está para contar o que acontecia. O vídeo de agradecimento do aposentado saiu publicado no perfil dela.
Vale entender o que comoveu tanta gente naquelas imagens simples:
- As duas caixas de isopor carregadas na mão, sem carrinho e sem ajudante.
- A calça, a camisa social e a boina no meio da areia, num contraste que ninguém esquece.
- Os 85 anos somados à hérnia avançada e aos problemas nos rins e na próstata.
- O destino do dinheiro, que não era lucro, e sim exame pedido com urgência.
Pontos-chave
Quem é Seu Vital
Fotógrafo aposentado de 85 anos, que aprendeu a cozinhar na infância com a mãe e a avó.
Por que ele vendia pudim
Para custear exames particulares diante da urgência apontada pelo médico e da espera na rede pública.
O que mudou depois do vídeo
A campanha do pudim virtual encheu o Pix dele e abriu caminho para o tratamento.
Ele se assustou com o valor que caiu na conta
Quando as transferências começaram a chegar, veio a confusão. Seu Vital chegou a achar que parte do dinheiro tinha sido enviada por engano e pensou em devolver o que não correspondia à venda dos doces.
Ele conta que se assustou com um valor bem maior do que a quantidade de pudins vendidos. E criou o próprio jeito de retribuir: guarda o nome de quem manda Pix para citar nas orações.

Dona Cida, os exames e a banca de frutas
Ele não caminhava sozinho. Conforme reportagem de Weverton Kaero publicada pelo Terra a partir do Portal de Prefeitura, em 13 de agosto, Seu Vital tem uma companheira há quatro anos, dona Cida, e os dois querem oficializar a união. O casamento ficou para depois, porque “a saúde dele está em primeiro lugar”, resume ela. Naquela data, os recursos já permitiam marcar exames na rede particular e pausar as vendas.
Dois dias depois, em 15 de agosto, Jonatha Felipe contou por telefone ao Só Notícia Boa, em reportagem de Rinaldo de Oliveira, que o dinheiro cobre o tratamento e que o que sobrar talvez dê para uma casinha pequena. Ninguém sabe o total arrecadado, porque as transferências caíram direto na conta do aposentado. E o plano seguinte já tem forma: “Talvez botar uma banca de frutas, para não ficar parado”, disse ele.
No fim das contas, a história toda cabe numa cena de praia que passa despercebida todo dia em Olinda e em tantas outras cidades. Às vezes basta alguém olhar de verdade para mudar o rumo de uma vida inteira.
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