Na noite de 22 de novembro de 1910, marinheiros assumiram quatro navios da Armada na Baía de Guanabara. Eles voltaram sua artilharia para a capital federal, num motim liderado por João Cândido Felisberto após anos de castigos corporais. Pela primeira vez, o governo precisava negociar com homens que controlavam alguns dos navios mais modernos do país.
Como a Revolta da Chibata começou
O estopim imediato foi o castigo imposto ao marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes, que recebeu 250 chibatadas diante da tripulação do Minas Gerais. A biografia oficial de Hermes da Fonseca registra o castigo como gatilho, mas as denúncias já envolviam uma disciplina marcada por violência física. O Arquivo do Senado acrescenta que a maioria da marinhagem era negra, num país que havia abolido a escravidão apenas 22 anos antes.
Na noite seguinte, o movimento ganhou escala após uma articulação que, segundo o Senado, vinha sendo preparada pelos marinheiros havia pelo menos um ano. O Arquivo do Senado registra cerca de 2.300 marinheiros amotinados e quatro navios sob controle dos revoltosos. O histórico naval identifica o Minas Gerais, o São Paulo, o Bahia e o Deodoro, além de registrar mortes de oficiais nos confrontos iniciais.
Por que os navios mudaram o equilíbrio de forças
Os marinheiros controlavam embarcações de primeira linha: o Minas Gerais e o São Paulo chegaram em 1910 e simbolizavam o reaparelhamento naval iniciado anteriormente. A Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha registra 12 canhões de 305 milímetros na bateria principal do Minas Gerais. O mesmo documento informa uma lotação de 1.173 homens, dimensão que ajuda a explicar a complexidade de operar aquela máquina de guerra.
Esse poder de fogo transformou uma rebelião disciplinar em crise nacional, e os disparos atingiram áreas residenciais do Rio de Janeiro. O Senado registra que dois projéteis mataram duas crianças no Morro do Castelo, perto da Câmara dos Deputados, enquanto moradores deixavam áreas ameaçadas. Registros oficiais divergem sobre detalhes da flotilha, mas convergem sobre o domínio dos grandes encouraçados pelos marinheiros durante os dias do levante.

O que os marinheiros exigiam do governo
O fim da chibata estava no centro das reivindicações, junto de pedidos por melhor alimentação, reajuste de salário, redução da carga de trabalho e anistia. Nas mensagens ao governo, os revoltosos ligaram os castigos físicos à negação de direitos básicos. Eles queriam uma Marinha na qual a disciplina não dependesse de açoites e na qual os marinheiros fossem tratados como cidadãos fardados.
A pressão funcionou porque o governo tinha poucas opções seguras: enfrentar os encouraçados significava arriscar equipamentos recém-adquiridos e a própria capital. Parlamentares assumiram as negociações, enquanto senadores como Rui Barbosa passaram a defender uma saída que evitasse um confronto naval de grandes proporções. Em 25 de novembro de 1910, Hermes da Fonseca sancionou o Decreto nº 2.280, concedendo anistia aos insurgentes que se submetessem às autoridades.
A anistia encerrou a Revolta da Chibata?
Não por muito tempo: os marinheiros entregaram as embarcações em 26 de novembro, depois da anistia e da promessa de terminar com os castigos corporais. Dois dias depois, uma nova norma autorizou a exclusão de praças consideradas inconvenientes à disciplina, alterando rapidamente o ambiente criado pelo acordo. A Fundação Casa de Rui Barbosa registra que Rui Barbosa chamou a medida de fraude contra a anistia e criticou o governo no Senado.
Em dezembro, uma nova rebelião ocorreu na Ilha das Cobras, envolvendo marinheiros que, segundo o Arquivo do Senado, não haviam participado do primeiro levante. A repressão seguinte alcançou também participantes da Revolta da Chibata, com prisões, expulsões e mortes, enquanto o governo ampliava seus poderes sob estado de sítio. Por isso, a promessa de 1910 permanece numa controvérsia histórica documentada: a anistia existiu formalmente, mas medidas posteriores reduziram sua proteção prática.
O que aconteceu com João Cândido depois do levante
João Cândido não saiu da crise com a carreira preservada, apesar de ter entregado o navio depois do acordo aprovado pelo Congresso. O Arquivo do Senado registra que ele passou pela prisão, foi internado no Hospital de Alienados e acabou expulso da Marinha. Depois, viveu em condições modestas e trabalhou vendendo peixe no Rio, enquanto antigos marinheiros ainda lhe prestavam ajuda financeira.
A própria denominação Revolta da Chibata se consolidou mais tarde, associada pelo Senado ao livro publicado por Edmar Morel em 1958. Em 2008, a Lei nº 11.756 concedeu anistia post mortem a João Cândido e aos demais participantes do movimento. O texto legal declarou que buscava restaurar o que o Decreto nº 2.280 havia assegurado aos marinheiros em novembro de 1910.
O que a Revolta da Chibata deixou
A Revolta da Chibata expôs o contraste entre a modernização tecnológica da Marinha e as condições impostas a muitos de seus marinheiros. A conquista formal da anistia não impediu perseguições posteriores, razão pela qual o episódio permanece cercado por uma controvérsia histórica duradoura. Seu legado continua ligado às discussões sobre disciplina militar, cidadania, racismo e limites da autoridade estatal na Primeira República.
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