No sertão da Paraíba, uma superfície de pedra reúne marcas separadas por uma distância de tempo quase incompreensível. Em Sousa, pegadas deixadas por dinossauros há cerca de 140 milhões de anos aparecem junto de gravuras produzidas por povos pré-coloniais, uma associação que levou o Iphan a reconhecer o Serrote do Letreiro como um sítio sem paralelo conhecido.
Por que o Serrote do Letreiro é único no mundo?
Porque o local preserva pegadas fossilizadas e petróglifos em afinidade direta, algo que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) descreve como o primeiro caso conhecido no mundo. Os registros não pertencem à mesma época. Os dinossauros passaram pela região milhões de anos antes, enquanto os desenhos foram feitos por grupos humanos pré-coloniais que encontraram aquelas marcas já endurecidas na rocha.
O detalhe mais intrigante está na disposição das gravuras. Segundo o Iphan, os desenhos aparecem preferencialmente no entorno das pegadas, sem cobri-las ou alterá-las. Essa organização sustenta a interpretação de que aquelas populações perceberam as marcas como estruturas relevantes e interagiram com elas de maneira intencional. O significado dos petróglifos, porém, continua desconhecido, o que impede transformar essa aproximação em uma explicação fechada sobre crenças ou rituais.
As gravuras respeitam o espaço deixado pelas pegadas
No Serrote do Letreiro, a proximidade não parece resultado de uma sobreposição casual. O Iphan informa que vestígios de terópodes e saurópodes aparecem lado a lado com a arte rupestre e permanecem sem intervenções dos autores das gravuras. Entre os desenhos há formas geométricas, sobretudo círculos com linhas radiais, enquanto uma representação com três dígitos chama atenção por lembrar a configuração de uma pegada de dinossauro terópode.
Essa escolha espacial levou os pesquisadores citados pelo órgão federal a considerar que os grupos humanos reconheceram as marcas como pegadas, ainda que não soubessem sua origem paleontológica. Uma hipótese mencionada pelo Iphan relaciona essa percepção à semelhança formal com rastros de emas. A interpretação permanece cautelosa, pois não existe tradução conhecida para os símbolos. O que se pode afirmar é que pessoas observaram aquelas formas antigas e produziram seus próprios registros ao redor delas.

O que as pegadas revelam sobre o sertão de Sousa?
Elas mostram que a atual paisagem seca de Sousa guarda um arquivo de ambientes muito mais antigos. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) registra no geossítio rastros de dinossauros terópodes, saurópodes e ornitópodes, além de icnofósseis de invertebrados. As rochas pertencem à Formação Antenor Navarro e incluem arenitos e níveis conglomeráticos associados a antigos sistemas fluviais e depósitos formados próximos às margens da bacia sedimentar.
O cadastro oficial descreve três áreas principais de afloramento, que juntas superam 10 mil m². Em duas delas, inscrições de baixo relevo aparecem associadas às pegadas. O geossítio fica a cerca de 12,3 km a noroeste da área urbana de Sousa e integra a Bacia do Rio do Peixe, região conhecida pela abundância de rastros fossilizados. Para o SGB, o Serrote do Letreiro reúne interesse paleontológico, arqueológico, educativo e científico com relevância internacional.
Por que o Serrote do Letreiro muda a leitura do passado?
Porque o sítio aproxima dois campos que normalmente contam histórias separadas. De um lado está o registro de animais do Cretáceo Inferior; de outro, a ação de populações humanas que chegaram milhões de anos depois. O Iphan destaca que essa evidência ajuda a reconhecer que povos indígenas antigos observaram o patrimônio fossilífero do território e produziram conhecimento a partir dele, contrariando leituras históricas que minimizaram a capacidade dessas populações de interpretar o ambiente.
O reconhecimento também amplia a responsabilidade de conservação. O Iphan informa que sítios arqueológicos possuem proteção legal e que o recadastramento permite monitoramento, fiscalização e indicação de medidas de preservação. O SGB aponta ainda que o afloramento sofre com enxurradas durante o período chuvoso e com o crescimento sazonal da vegetação, fatores que favorecem o intemperismo. Preservar o local significa manter, na mesma rocha, um registro paleontológico e outro cultural.
Um encontro que atravessa eras em Sousa
O Serrote do Letreiro transforma uma superfície rochosa de Sousa em uma espécie de encontro entre tempos que nunca coexistiram. As pegadas contam a passagem de dinossauros, enquanto as gravuras mostram que seres humanos observaram essas marcas e escolheram desenhar perto delas. Para quem gosta de arqueologia e paleontologia, esse diálogo silencioso entre fósseis e arte rupestre merece entrar na lista dos lugares brasileiros capazes de mudar a maneira de olhar para o passado. É um lugar que reúne ciência, patrimônio e memória humana no mesmo horizonte.
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