Entre a mata de Bonito, em Mato Grosso do Sul, uma abertura estreita mal antecipa o que existe abaixo. A fenda conduz a um salão inundado, onde a água cristalina encobre formações calcárias gigantes. No Abismo Anhumas, a escala muda de repente e transforma uma cavidade discreta na superfície em um cenário subterrâneo marcado por rocha, profundidade e estruturas minerais raras.
Por que o Abismo Anhumas parece pequeno visto de cima?
Porque a abertura entrega apenas uma fração do ambiente subterrâneo. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) descreve o início da cavidade como uma fenda estreita de paredes escarpadas. Quem observa o terreno pela superfície encontra um acesso discreto, mas a passagem vertical se amplia até um salão muito maior. Esse contraste entre entrada e interior tornou Anhumas uma das feições mais marcantes da paisagem cárstica de Bonito.
A história da exploração reforça essa sensação. Em relato publicado pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, o geólogo Paulo Boggiani conta que sua equipe conheceu a cavidade em 1983 e percebeu que ela superava 60 metros de profundidade. Sem equipamento adequado naquele momento, o grupo voltou em 1984 para mapear o abismo e outros pontos subterrâneos da região. A pesquisa ajudou a revelar uma paisagem que quase desaparece quando vista de cima.
O que existe abaixo do solo de Bonito?
Existe um salão parcialmente inundado que transforma a descida em contato direto com a geologia da Serra da Bodoquena. A Secretaria de Turismo e Desenvolvimento Econômico de Bonito informa que o atrativo fica a cerca de 23 km da área urbana. A página municipal descreve a chegada ao lago por sistema elétrico e destaca a transparência da água como parte central da experiência dentro da caverna.
Na superfície do lago, o visitante pode observar o salão e seguir para atividades aquáticas oferecidas no local. A experiência muda conforme a modalidade escolhida e o nível de preparo exigido. Por isso, a Secretaria municipal separa as possibilidades entre observação, flutuação e mergulho, mantendo cada atividade ligada às condições específicas da cavidade. A diferença não está apenas na profundidade alcançada, mas também na forma de enxergar as estruturas que permanecem sob a água.
- Contemplação: o passeio de bote permite observar o salão inundado e as formações rochosas sem submersão.
- Flutuação: o uso de snorkel aproxima o visitante das estruturas submersas mantendo a atividade junto à superfície.
- Mergulho: a iniciação alcança até 8 metros, enquanto mergulhadores certificados podem chegar a 18 metros de profundidade.

Como nascem os cones calcários sob a água?
Os cones fazem parte do universo dos espeleotemas, depósitos minerais formados dentro de cavernas. O SGB explica que essas estruturas surgem quando minerais dissolvidos pela água voltam a se cristalizar no teto, nas paredes ou no piso. O carbonato de cálcio participa com frequência desse processo e pode originar calcita. A água atua, portanto, como agente de dissolução e também de deposição mineral em condições adequadas. No Abismo Anhumas, a cavidade está associada à Formação Bocaina, unidade geológica relacionada às rochas carbonáticas que ajudam a compor o relevo cárstico da Serra da Bodoquena.
O que diferencia Anhumas é a combinação entre cones calcários submersos, grandes dimensões e água transparente. A Secretaria de Turismo de Bonito registra cones com mais de 15 metros de altura. O levantamento do SGB considera a cavidade um dos sítios mundialmente mais importantes para esse tipo de espeleotema. Sob a água, portanto, não existe apenas um fundo rochoso. Há um conjunto de depósitos minerais que registra processos químicos e hídricos ocorridos no ambiente cavernícola ao longo do tempo. Essa raridade científica torna o lago interessante mesmo fora da perspectiva esportiva.
Bonito guarda outra escala sob os pés
As medidas finais ajudam a entender o que os olhos não percebem na superfície: o SGB registra 72 metros de desnível até o salão e um lago que chega a 80 metros de profundidade. A pequena fenda de Bonito funciona, portanto, como uma porta para uma paisagem vertical de proporções inesperadas. O contraste também mostra como a paisagem de Bonito continua além do que aparece entre matas, rios e afloramentos. Se você gosta de lugares que mudam completamente quando vistos por dentro, vale observar Anhumas primeiro como fenômeno geológico, porque a aventura começa muito antes de tocar a água.
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