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Home Cidades

Cerca de cem sítios arqueológicos estão registrados dentro de um único município costeiro, muitos deles formados por enormes montes de conchas deixados por populações que viveram no litoral milhares de anos antes da chegada dos portugueses

Davy Emanuel Silva dos Santos Davy Emanuel Silva dos Santos
27/08/2026 11:17
Cerca de cem sítios arqueológicos estão registrados dentro de um único município costeiro, muitos deles formados por enormes montes de conchas deixados por populações que viveram no litoral milhares de anos antes da chegada dos portugueses

Cananéia preserva rico patrimônio arqueológico com sambaquis milenares no litoral sul paulista - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Entre manguezais, canais e ilhas do litoral sul paulista, Cananéia guarda uma paisagem que também funciona como arquivo humano. Registros oficiais apontam 100 sítios arqueológicos no município. Pesquisas identificam sambaquis com vestígios que recuam a quase 8 mil anos, muito antes da formação da cidade colonial.

Por que Cananéia concentra tantos sítios arqueológicos?

🏛️ Quase 8 mil anos: Datações remetem à antiga ocupação sambaquieira de Cananéia.
🌿 1955: O Sambaqui da Barra do Rio Itapitangui recebe tombamento federal.
🚀 Hoje: Arqueologia, conservação e turismo dividem o mesmo território estuarino.

A resposta começa na própria geografia costeira. Manguezais, ilhas, rios e ambientes protegidos ofereceram recursos abundantes a grupos que viveram junto à água durante milênios. Um levantamento estadual baseado no cadastro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) contabiliza 100 sítios no município. Grande parte corresponde a sambaquis, berbigueiras e concheiros.

O quadro aparece em documento do Governo do Estado de São Paulo. O levantamento coloca Cananéia entre os municípios paulistas com maior número de registros arqueológicos. A tabulação estadual de 2020 classificou 97 registros conjuntamente como sambaqui, berbigueiro e concheiro, além de outro identificado apenas como sambaqui. Esses montes não são simples depósitos naturais. Eles preservam restos de alimentação, carapaças, carvão e outros vestígios capazes de reconstruir modos de vida antigos.

Montes de conchas guardam quase 8 mil anos de ocupação

Os sambaquis mostram que a presença humana nessa costa antecede em milhares de anos a chegada portuguesa. Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) identificou oito sambaquis com vestígios arqueológicos submersos nos manguezais de Cananéia. As datações analisadas remetem a ocupação sambaquieira local a uma antiguidade de quase 8 mil anos.

O mar também ajuda a explicar por que parte desse patrimônio ficou escondida. O estudo relaciona a distribuição e a preservação dos sítios às oscilações do nível marinho ao longo do Holoceno. Em alguns casos, estruturas ficaram submersas ou cobertas por sedimentos costeiros. A caracterização estadual também cita estimativa de que cerca de 25% dos sambaquis da região Cananéia-Iguape permaneciam intactos. O Iphan protege desde 1955 o Sambaqui da Barra do Rio Itapitangui. O sítio é formado por carapaças de moluscos e associado a antigos grupos de coletores e pescadores.

Cerca de cem sítios arqueológicos estão registrados dentro de um único município costeiro, muitos deles formados por enormes montes de conchas deixados por populações que viveram no litoral milhares de anos antes da chegada dos portugueses
Sambaquis submersos revelam ocupação humana ancestral associada às variações do nível do mar – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O que visitar entre patrimônio e Mata Atlântica?

O roteiro funciona melhor quando o visitante combina memória arqueológica, paisagem histórica e natureza protegida. A arqueologia não aparece como atração isolada, mas como parte de um território moldado por água, ocupações humanas e conservação ambiental.

Há experiências oficiais que ajudam a ler essas camadas sem transformar os sítios em cenário de exploração. O ideal é respeitar áreas protegidas, seguir orientações locais e priorizar percursos estruturados para visitação.

  • Centro Histórico: o conjunto urbano foi protegido pelo estado em 1969, com revisão do tombamento em 2017. O casario ajuda a perceber a camada colonial e pós-colonial da cidade.
  • Parque Estadual da Ilha do Cardoso: reúne Mata Atlântica, manguezais, praias, comunidades tradicionais e trilhas. Os núcleos de visitação dependem de transporte náutico.
  • Núcleo Perequê: oferece trilhas monitoradas, uma passarela suspensa de 600 metros sobre manguezal, observação de fauna e roteiros de caiaque ou stand-up paddle.
  • Núcleo Marujá: combina comunidade caiçara, praia, trilhas e roteiros náuticos. Há percurso monitorado de caiaque ou stand-up paddle entre 2 e 3 km.
  • Sambaqui do Itapitangui: o bem tombado pelo Iphan permanece como referência central para compreender a antiguidade da ocupação costeira.

Como chegar e organizar o passeio?

EtapaOrientação
ChegadaCananéia fica a cerca de 272 km da capital paulista e o acesso rodoviário passa pela BR-116 e pela SP-226.
Ilha do CardosoOs núcleos de visitação são alcançados por transporte náutico e algumas atividades exigem monitoria.

De São Paulo, a distância informada pela Secretaria de Turismo estadual é de aproximadamente 272 km. O acesso regional usa a BR-116 e a SP-226, que liga a rodovia federal à região de Pariquera-Açu e Cananéia. Dentro do município, parte importante dos passeios muda de modal, porque canais e ilhas tornam o barco essencial.

Para o Parque Estadual da Ilha do Cardoso, a própria gestão informa que os núcleos de visitação dependem de transporte náutico. Grupos organizados e períodos de maior procura pedem planejamento prévio. Trilhas específicas podem exigir monitoria obrigatória, portanto convém confirmar horários, condições e regras antes do deslocamento.

Cananéia merece tempo

Cananéia permite enxergar o litoral como uma sequência de tempos sobrepostos, dos sambaquis milenares ao casario histórico e às áreas protegidas atuais. A viagem ganha mais sentido quando o visitante entende que conchas, manguezais e canais também são documentos. Se puder, reserve mais de um dia e combine história com natureza sem pressa, deixando a paisagem explicar cada mudança de tempo.

Leia mais:

  • Um ex-presidente dos Estados Unidos entrou na Amazônia com Marechal Rondon para descobrir onde terminava um rio praticamente desconhecido
  • Por que tanta gente sente ansiedade só de ver o celular tocando e prefere resolver tudo por mensagem, um comportamento que psicólogos já dão nome
  • Mais de 80% do território deste município permanece protegido por um parque estadual, e algumas praias só aparecem depois de horas de trilha
Tags: ciênciahistóriaturismo
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