Quando o voo AF447 desapareceu sobre o Atlântico em 1º de junho de 2009, parte decisiva da resposta afundou com o Airbus A330. Os gravadores ficaram junto aos destroços, a cerca de 3.900 metros. Quase dois anos depois, robôs submarinos encontraram o avião e abriram caminho para uma recuperação que parecia improvável.
Por que encontrar o AF447 exigiu uma busca tão difícil?
O Air France 447 fazia a rota Rio de Janeiro-Paris com 216 passageiros e 12 tripulantes quando caiu no Atlântico. A investigação enfrentou um problema incomum: o local exato do impacto não era conhecido. O fundo oceânico na região também é profundo, irregular e difícil de mapear. O Bureau d’Enquêtes et d’Analyses pour la sécurité de l’aviation civile (BEA) coordenou sucessivas campanhas de busca.
As primeiras operações recuperaram destroços e vítimas na superfície, mas os gravadores permaneceram desaparecidos. O desafio passou a ser localizar um campo de destroços em uma área submarina extensa, com relevo complexo. Segundo o BEA, os destroços principais foram encontrados no início de abril de 2011. Eles estavam a aproximadamente 3.900 metros de profundidade.
Três REMUS 6000 transformaram o fundo do oceano em um mapa
A fase decisiva usou três veículos autônomos REMUS 6000. Eles podiam trabalhar a profundidades de até 6.000 metros. A Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI) liderou a equipe de busca dessa fase. Os veículos percorriam faixas longas e sobrepostas do fundo com sonar de varredura lateral. O método lembrava o corte de uma área em linhas paralelas e reduzia espaços sem cobertura.
Quando um dos robôs detectou objetos suspeitos, outro veículo foi enviado para produzir mapas mais detalhados e imagens. Essas fotografias foram encaminhadas ao BEA, que identificou o material como partes do Airbus A330. A combinação de autonomia, sonar e câmeras permitiu investigar um ambiente inacessível a mergulhadores. Também reduziu o risco de deixar grandes trechos sem observação.

O que os robôs encontraram a 3.900 metros?
A descoberta não apareceu como a silhueta intacta de um avião. O sonar revelou um campo de destroços, e as câmeras registraram peças reconhecíveis, como partes da asa, trem de pouso e motor. A WHOI informa que a equipe chegou à área em março de 2011. Depois de cerca de uma semana, um REMUS identificou os primeiros indícios no fundo do Atlântico.
O achado mudou a investigação porque permitiu abandonar uma busca ampla e concentrar recursos em uma área conhecida. Segundo o BEA, os destroços estavam cerca de 6,5 milhas náuticas ao norte da última posição conhecida do avião. O relevo continuava difícil, mas agora havia imagens e mapas do local. O REMUS 6000 foi desenvolvido para mapeamento profundo e podia operar bem abaixo da profundidade do AF447. Localizar o avião, porém, ainda não significava encontrar imediatamente as unidades de memória dos gravadores.
Como as caixas-pretas voltaram à superfície com os dados preservados?
A quinta campanha submarina começou em 26 de abril de 2011, com foco nos gravadores e em peças relevantes para a investigação. O veículo operado remotamente Remora 6000 desceu ao campo de destroços. Em 1º de maio, a equipe localizou a unidade de memória do Flight Data Recorder (FDR). O equipamento foi içado para o navio. O Cockpit Voice Recorder (CVR) foi localizado em 2 de maio e retirado do oceano nas primeiras horas de 3 de maio.
O resultado mais surpreendente veio depois. No laboratório do BEA, investigadores abriram os gravadores e retiraram, limparam e secaram os cartões de memória antes da leitura. Em 16 de maio de 2011, o órgão confirmou a recuperação de todos os dados armazenados no FDR. Também obteve a gravação completa das duas últimas horas do CVR. A profundidade e o tempo no oceano não impediram a leitura dos registros.
Uma busca que mostrou até onde a investigação pode chegar
A recuperação dos gravadores do AF447 mostrou que um acidente em águas profundas não precisa permanecer sem dados essenciais. A operação reuniu planejamento, robôs autônomos, sonar, câmeras e um veículo controlado da superfície para alcançar peças submersas havia quase dois anos. O caso mostra como tecnologia de busca e preservação dos gravadores podem transformar destroços a 3.900 metros em evidência técnica para investigar um acidente.
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