Em comunidades do interior de São Lourenço do Sul, uma conversa ainda pode mudar de idioma sem sair do Rio Grande do Sul. O pomerano, trazido por famílias que chegaram à região em 1858, permanece na fala cotidiana, nas escolas e em festas comunitárias. A sobrevivência dessa língua mostra como uma migração do século XIX continua marcando a identidade local.
Como São Lourenço do Sul recebeu os primeiros pomeranos?
A presença pomerana começou de forma organizada depois que o coronel José Antônio de Oliveira Guimarães firmou, em 1857, contrato com o prussiano Jacob Rheingantz para trazer imigrantes europeus. Segundo a Prefeitura de São Lourenço do Sul, os primeiros 88 imigrantes chegaram em 18 de janeiro de 1858, e a maioria vinha da Pomerânia.
A história local, porém, começa antes dessa chegada. A própria prefeitura registra atividade pecuária portuguesa no território durante o século XVIII. A precisão histórica está em dizer que a Colônia de São Lourenço, formada a partir de 1858, teve papel decisivo na construção econômica, social e cultural do município que surgiria depois. Em 1877, a colônia reunia mais de 6 mil moradores entre imigrantes e descendentes.
Por que o pomerano ainda é ouvido em São Lourenço do Sul?
Porque a língua continuou ligada à vida comunitária, sobretudo no interior. Em registro oficial de 2017, a prefeitura classificou São Lourenço do Sul como um dos poucos municípios onde o pomerano ainda existia e mostrou que estabelecimentos locais ofereciam atendimento nesse idioma. O município também documentou comunidades escolares nas quais a preservação da língua oral permanece como forte laço de identidade.
Essa continuidade ajuda a explicar por que o idioma atravessou tantas gerações. A Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Desporto registrou aulas de pomerano na Escola Municipal Martinho Lutero, em Santa Augusta, além de atividades voltadas a crianças e jovens. A língua não ficou restrita a lembranças de família, ela também ganhou espaço pedagógico.

A escola virou uma ponte entre gerações
Um dos exemplos mais fortes é o Projeto Pomervida. A prefeitura informou que a iniciativa estimula estudantes a pesquisar histórias, costumes e modos de vida dos antepassados. Em 2017, a Escola Municipal Martinho Lutero registrava que 98% dos alunos tinham origem pomerana e destacava a língua oral como o principal laço identitário daquela comunidade escolar.
A preservação também chegou aos livros. Em 2019, a Feira do Livro do município lançou um Dicionário Escolar Português/Pomerano. Em 2022, a Coordenadoria de Cultura recebeu exemplares de O Pequeno Príncipe traduzidos para o pomerano, com o título Dai Klair Prins. Esses registros mostram uma transformação importante: uma língua sustentada principalmente pela oralidade passou a circular também em materiais escritos e espaços públicos.
A língua também aparece na comida e nas festas
O idioma sobrevive acompanhado de práticas que dão sentido às palavras. O portal oficial de turismo mantém o Caminho Pomerano, roteiro do interior que reúne gastronomia, artesanato, ervas medicinais, prédios históricos, acervos familiares e a representação do casamento pomerano, no qual a noiva veste preto. A Casa das Cucas Pomeranas, por exemplo, associa receitas familiares às lembranças dos antepassados.
Essa herança continua sendo trabalhada coletivamente. Em 2025, o VII Festival Municipal de Arte, Cultura e Conhecimento Pomerano reuniu escolas do interior com apresentações, exposições, alimentos e produtos ligados à tradição. O evento mostra que a identidade pomerana não depende de uma única manifestação, ela circula entre língua, memória, culinária, música e educação.
O que mudou depois do marco de 150 anos?
O aniversário de 150 anos da imigração alemã e pomerana, celebrado em 2008, ajudou a transformar memória familiar em ações públicas de preservação. Naquele ano, comunidade e poder municipal trabalharam no projeto do Museu Casa da Imigração, instalado na região de Picada Moinhos. A casa ligada a Jacob Rheingantz, construída por volta de 1860, tornou-se um ponto concreto para contar a formação da antiga colônia.
A história também passou a ser observada pela pesquisa linguística. Em 2025, a prefeitura recebeu trabalho desenvolvido em parceria entre universidades sobre o contato entre pomerano e português na metade sul do Rio Grande do Sul, antes de apresentação acadêmica em Munique. O detalhe chama atenção porque mostra duas formas de preservar o mesmo patrimônio: a comunidade mantém usos e tradições, enquanto pesquisadores registram como décadas de convivência entre línguas deixam marcas na fala.
Uma memória que ainda fala
São Lourenço do Sul preserva uma história rara porque a chegada de 1858 ainda pode ser percebida na fala, na escola e nas práticas culturais de descendentes. O marco de 150 anos ocorreu em 2008, e em 2026 são 168 anos desde a chegada dos primeiros 88 imigrantes. Para entender essa permanência, vale olhar menos para uma fotografia antiga e mais para as comunidades onde o pomerano continua sendo transmitido e celebrado, uma viagem pela história local que eu recomendaria a quem gosta de observar como uma língua pode guardar memória por gerações.
Leia mais:
- O alimento que você guarda errado há anos sem saber: o tomate perde sabor e textura dentro da geladeira
- Do alto de uma montanha a 1.840 metros, o visitante consegue enxergar o litoral e ilhas a dezenas de quilômetros
- Um único navio ficou atravessado em um canal em 2021 e travou uma das rotas comerciais mais importantes do planeta
