Um deserto que se reconstrĂłi sozinho
DĂ©cadas atrĂĄs, cientistas soltaram um pequeno grupo de animais quase extintos em pleno deserto. NinguĂ©m imaginava o que aconteceria depois âŹïž
NinguĂ©m esperava que animais quase extintos pela caça se tornassem os maiores engenheiros ambientais do Oriente MĂ©dio. No deserto do NĂ©guev, em Israel, um grupo de onagros e burros selvagens africanos recupera sozinho um ecossistema que parecia condenado. Solo, ĂĄgua e vegetação voltaram a se conectar quatro dĂ©cadas depois da reintrodução desses animais. Hoje, o projeto Ă© estudado como referĂȘncia global de restauração ambiental.
Como os asnos selvagens chegaram ao deserto do Néguev?
Os primeiros asnos selvagens chegaram ao NĂ©guev graças a uma operação diplomĂĄtica secreta entre Israel e o IrĂŁ, antes da Revolução IslĂąmica de 1979. O general Avraham Yoffe, da Autoridade de Natureza e Parques de Israel, negociou com o XĂĄ a cessĂŁo de onagros persas de reservas reais. Israel recebeu onze exemplares em 1968, formando um nĂșcleo reprodutivo na Reserva de Yotvata. Durante a dĂ©cada seguinte, o paĂs comprou burros selvagens africanos da EtiĂłpia para ampliar a diversidade genĂ©tica do grupo.
Depois de mais de uma dĂ©cada de reprodução controlada em Yotvata, os pesquisadores consideraram o grupo pronto para a vida livre. Em 1982, vinte e oito animais foram soltos na Cratera Ramon, no coração do deserto do NĂ©guev. Hoje, entre 500 e 600 asnos selvagens vivem soltos na regiĂŁo, um dos maiores ĂȘxitos de conservação jĂĄ registrados.

Que caracterĂsticas tornam os asnos tĂŁo resistentes?
O pelo curto e cor de areia camufla os animais entre as rochas, sem a listra escura tĂpica dos burros domĂ©sticos. Seus corpos sĂŁo mais atlĂ©ticos, com pernas longas parecidas Ă s de um cavalo pequeno, e alcançam atĂ© 70 quilĂŽmetros por hora para escapar de predadores. Eles tambĂ©m sobrevivem vĂĄrios dias sem beber, um recurso raro entre grandes mamĂferos do deserto.
A velocidade nĂŁo Ă© a Ășnica vantagem desses equĂdeos no clima seco. TrĂȘs recursos do corpo explicam como eles resistem ao calor extremo do NĂ©guev:
- Cascos resistentes: permitem caminhar sobre pedras sem desgaste e escavar poços na terra seca.
- Metabolismo adaptado: suporta temperaturas acima de 40 graus e perda de até 30% do peso em ågua.
- DigestĂŁo especializada: extrai nutrientes de arbustos secos que outros herbĂvoros nĂŁo conseguem digerir.
Essas adaptaçÔes fĂsicas explicam a sobrevivĂȘncia dos asnos, mas nĂŁo bastam para recuperar um ecossistema inteiro. A força total do projeto aparece quando se olha para os efeitos que esses animais causam ao seu redor:
Como as fezes dos asnos fazem as acĂĄcias renascerem?
As fezes dos asnos selvagens carregam sementes de acĂĄcia que germinam com mais força apĂłs passar pelo sistema digestivo do animal. As acĂĄcias sustentam o deserto ao fixar nitrogĂȘnio no solo e oferecer sombra a dezenas de espĂ©cies. Suas sementes raramente germinavam sozinhas, atĂ© os asnos selvagens começarem a comer as vagens maduras. Os sucos gĂĄstricos do animal enfraquecem a casca dura sem destruir o embriĂŁo interno.
Um estudo publicado no European Journal of Wildlife Research testou o efeito das fezes de diferentes herbĂvoros reintroduzidos na germinação da acĂĄcia. Nesse levantamento, o onagro persa apareceu entre as trĂȘs espĂ©cies com maior taxa de germinação, atrĂĄs apenas do addax e do Ăłrix-arĂĄbico. O burro selvagem africano, tambĂ©m reintroduzido no NĂ©guev, teve desempenho mais baixo entre os cinco herbĂvoros avaliados. Sem esse processo natural, a população de acĂĄcias corre risco de colapsar em poucas dĂ©cadas.
Que outras espécies vivem graças aos poços escavados?
Gazelas, raposas e outros animais do deserto dependem dos poços cavados pelos asnos selvagens para sobreviver Ă seca. Esses buracos chegam a dois metros de profundidade e retĂȘm ĂĄgua por dias apĂłs as raras chuvas da regiĂŁo.
A lista de beneficiados Ă© longa e surpreendente. Veja alguns exemplos de quem depende dessas fontes:
- Gazelas e raposas: bebem diretamente nos poços durante os meses mais secos.
- Porcos-espinhos e répteis: usam a umidade do solo ao redor das cavidades.
- Morcegos e aves insetĂvoras: se alimentam dos insetos atraĂdos pela ĂĄgua.
Barragens de terra construĂdas por engenheiros israelenses retĂȘm as enchentes de inverno. Elas mantĂȘm o lençol freĂĄtico elevado e beneficiam toda a cadeia que vive no entorno da Cratera Ramon.
Por que esse sucesso pode inspirar novas açÔes de conservação?
O caso do NĂ©guev mostra que restaurar uma espĂ©cie pode recuperar todo um ecossistema, sem intervenção humana constante. Hoje, a Autoridade de Natureza e Parques de Israel estuda como aplicar o mesmo modelo em outras regiĂ”es ĂĄridas do planeta. Da prĂłxima vez que vocĂȘ imaginar um deserto vazio, lembre-se de que ele pode estar mais vivo do que parece.
