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Home Casa e Construção

Uma cidade do Saara foi construída em três camadas, com depósitos embaixo, ruas cobertas no meio e caminhos das mulheres lá em cima

Davy Emanuel Silva dos Santos Davy Emanuel Silva dos Santos
18/09/2026 15:17
Uma cidade do Saara foi construída em três camadas, com depósitos embaixo, ruas cobertas no meio e caminhos das mulheres lá em cima

Ghadamés organiza casas e circulação em diferentes níveis no Saara - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

No Saara da Líbia, paredes claras escondem um desenho urbano que parece empilhar a cidade. Em Ghadamés, depósitos ocupam o nível inferior, a vida familiar sobe sobre passagens cobertas e terraços conectados formam caminhos no alto. A solução nasceu da relação entre clima, água, privacidade e convivência dentro de uma antiga cidade-oásis.

Por que Ghadamés cresceu em camadas?

🏛️ Há pelo menos 2.000 anos: Ghadamés participa da rede de comércio transaariana.
🌿 1986: A cidade velha entra na Lista do Patrimônio Mundial.
🚀 2025: O sítio deixa a Lista do Patrimônio Mundial em Perigo.

Ghadamés cresceu assim porque sua forma urbana responde diretamente ao ambiente árido. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) a considera exemplo excepcional de assentamento no deserto. Segundo a instituição, clima e gestão da água moldaram sua forma urbana. Essa lógica também organiza a circulação entre casas e espaços coletivos.

O conjunto foi construído ao redor da nascente Ain al-Faras e se relaciona com os palmeirais próximos. A forma circular, as casas compactas e as ruas protegidas reduzem a exposição aos ventos e às oscilações térmicas do deserto. Assim, a arquitetura funciona como resposta prática às condições do Saara e às necessidades sociais de seus moradores.

Como funcionam as três camadas da cidade?

Ghadamés preserva construções adaptadas ao calor intenso do Saara // Créditos: depositphotos.com / akimbohr

A divisão vertical distribui funções diferentes em poucos metros de altura. No térreo, as casas tradicionais guardavam provisões, enquanto o pavimento familiar ficava acima das passagens cobertas. No topo, terraços a céu aberto eram reservados às mulheres e criavam uma circulação própria sobre os telhados.

Essa organização faz a cidade parecer duplicada. Abaixo, corredores sombreados formam uma rede quase subterrânea para circulação e encontro. Acima, os terraços conectados permitem deslocamentos por outro nível urbano, preservando privacidade e comunicação entre casas. A UNESCO considera essa combinação de forma e função uma característica central do valor universal do sítio. Desse modo, espaço doméstico e espaço urbano se encaixam verticalmente. Essa sobreposição cria uma experiência urbana incomum, porque circulação e moradia ocupam níveis diferentes do mesmo tecido construído.

As ruas cobertas também ajudam contra o calor?

Sim. Os pavimentos superiores avançam sobre becos e passagens, criando trechos protegidos da radiação direta. A organização compacta limita a exposição das superfícies e ajuda a suavizar as variações térmicas comuns do deserto. A lógica urbana, portanto, combina circulação, sombra e uso social do espaço.

Os materiais também participam dessa adaptação. A cidade preserva técnicas com tijolos de barro, troncos de palmeira e outros materiais tradicionais, usados inclusive na manutenção atual. Paredes caiadas iluminam áreas internas e externas, enquanto aberturas nos telhados levam luz aos corredores cobertos. O resultado conecta clima, construção e vida cotidiana, sem separar arquitetura e ambiente.

O que observar na cidade velha de Ghadamés hoje?

O principal é perceber como cada elemento trabalha em conjunto. A cidade velha mantém ruas cobertas, praças, mesquitas, espaços abertos, pomares e casas com coberturas compactas. A UNESCO também registra parapeitos altos e aberturas regulares nos telhados, responsáveis por iluminar partes da circulação interna.

Hoje, ninguém mora permanentemente no núcleo histórico, segundo a UNESCO. Mesmo assim, moradores continuam usando casas e espaços da antiga cidade em encontros e práticas locais. Para compreender o conjunto, observe a ligação entre água, palmeirais, passagens sombreadas, terraços e técnicas tradicionais. A documentação oficial do sítio reúne mapas e decisões de conservação.

ElementoFunção no conjunto
Passagens cobertasCriam circulação sombreada e quase subterrânea.
Terraços superioresFormam a rede tradicional de circulação reservada às mulheres.
Água e palmeiraisIntegram o sistema ambiental que moldou a forma urbana.

Por que a preservação de Ghadamés ganhou novo capítulo em 2025?

A cidade velha saiu da Lista do Patrimônio Mundial em Perigo em 2025. O Comitê do Patrimônio Mundial tomou a decisão após reconhecer avanços substanciais nas medidas corretivas definidas para o sítio. Ghadamés havia permanecido nessa lista desde 2016, quando os cinco bens líbios foram incluídos por causa das ameaças à conservação.

O trabalho de conservação continua necessário. A UNESCO aponta riscos ligados a chuvas intensas, incêndios, abastecimento de água, umidade, temperatura e transformações no ambiente construído. Por isso, manutenção regular, técnicas tradicionais e acompanhamento institucional seguem essenciais para conservar a relação entre arquitetura, água e paisagem. A retirada da lista de perigo não encerra esse cuidado.

Ghadamés ainda ensina

Ghadamés mostra como uma cidade pode transformar clima e costumes em forma urbana. Suas camadas revelam que sombra, privacidade, água e circulação foram pensadas como partes do mesmo sistema. A cidade também mostra como arquitetura e cotidiano podem responder juntos a um ambiente difícil, sem depender de soluções isoladas. O conjunto lembra que preservar patrimônio exige conservar técnicas, usos, paisagem e infraestrutura tradicional. Ao acompanhar imagens, estudos ou uma futura visita, repare em como cada nível organiza a vida antes de olhar apenas para as fachadas.

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Tags: construçãocuriosidadeturismo
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