O relâmpago que nasce onde as nuvens terminam
Mais de cem duendes vermelhos iluminaram o céu do Rio Grande do Sul numa única madrugada. Os flashes avermelhados surgem acima das tempestades e duram milésimos de segundo. A equipe do Instituto Federal Farroupilha, em Santo Ângelo, só os viu ao revisar os arquivos do observatório. O equipamento passara quatro dias fora do ar por causa das tempestades.
O que são os duendes vermelhos que aparecem no céu?
Duendes vermelhos são descargas elétricas luminosas que surgem acima das nuvens de tempestade, a cerca de 80 km de altura. Pesquisadores também os chamam de sprites ou de Eventos Luminosos Transitórios, a sigla TLE. A cor avermelhada vem da reação entre a descarga e o nitrogênio do ar rarefeito.
Enquanto o raio comum corre da nuvem para o solo, esse fenômeno nasce acima dela, na mesosfera, e se projeta rumo à alta atmosfera. Os tentáculos, descritos pelo Observatório da Terra da NASA, lembram águas-vivas e chegam a se estender por 20 a 30 km na vertical.
Durante quase cem anos, pilotos relataram clarões acima das tempestades, e muitos pesquisadores descartavam esses relatos. Em 1989, uma foto tirada por acaso registrou o primeiro duende vermelho e mudou essa história. Hoje, astronautas da Estação Espacial Internacional também já fotografaram o fenômeno lá de cima.

Por que é tão difícil ver um duende vermelho?
Ele dura apenas alguns milissegundos, aparece atrás das nuvens e emite uma luz que o olho humano percebe mal. Por isso, até equipamentos sofisticados têm dificuldade para captar a cena.
Três fatores explicam essa raridade de registros. Cada um deles complica a vida de quem aponta uma câmera para o horizonte.
- Duração: o flash dura poucos milissegundos, menos que um piscar de olhos.
- Posição: a tempestade que gera o duende costuma bloquear a visão de quem está no chão.
- Cor: a luz vermelha cai numa faixa do espectro em que a visão humana é pouco sensível.
Como o duende vermelho se diferencia do raio comum?
O raio comum desce da nuvem até o solo, e o duende vermelho acontece bem acima dela, sem tocar o chão. Um fenômeno ocorre na baixa atmosfera, o outro na mesosfera, perto de 80 km de altitude. A NASA destaca que o mecanismo exato de formação ainda não é totalmente compreendido.
A diferença vai além da altitude. O quadro abaixo resume o contraste entre os dois fenômenos.
O que os observatórios gaúchos já registraram?
Os observatórios do estado já captaram duendes vermelhos em várias noites de tempestade, e a contagem mais recente passa de cem. Desde a foto casual de 1989, câmeras sensíveis multiplicaram os registros, inclusive no Sul do Brasil.
Os casos abaixo mostram como o fenômeno aparece em pontos diferentes da região. Cada observatório contribui com uma peça desse quebra-cabeça.
- Santo Ângelo: o observatório do Clube de Astronomia do IFFar registrou cerca de 110 sprites e um meteoro na madrugada de 27 de setembro, quando costuma captar só alguns por noite.
- Passo Fundo: câmeras do Observatório Astronômico Araucária captaram dezenas de duendes ao longo de duas noites.
- Santa Maria e Guarujá do Sul (SC): duas estações, a mais de 500 km uma da outra, flagraram o fenômeno ao mesmo tempo, às 21h50.
- Litoral Norte gaúcho: no fim de dezembro de 2025, apareceram sprites do tipo cenoura.
O que o céu gaúcho ainda pode nos mostrar?
O céu gaúcho mostra que a atmosfera ainda guarda fenômenos que desafiam os pesquisadores. Cada registro novo ajuda a entender como as tempestades se conectam às camadas mais altas do ar.
Que tal, numa noite de tempestade distante, observar o horizonte de um lugar seguro e deixar uma câmera gravando?