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Home Cidades

Tradição de um povoado europeu que já celebrava a “noite das almas” séculos antes do Halloween virar moda

Davy Emanuel Silva dos Santos Davy Emanuel Silva dos Santos
29/10/2026 19:07
Abóbora iluminada evoca a Noite das Almas de Aragão - Imagem criada por inteligência artificial (Google Flow / Olhar Digital)

Abóbora iluminada evoca a Noite das Almas de Aragão - Imagem criada por inteligência artificial (Google Flow / Olhar Digital)

O toque dos sinos atravessa ruas antigas enquanto velas iluminam abóboras esculpidas. Em Radiquero, no nordeste da Espanha, a noite dedicada aos mortos não nasceu de uma fantasia importada. Ela reúne histórias de espíritos, orações e famílias que preservam uma celebração aragonesa muito anterior à popularização comercial do Halloween.

Por que Radiquero celebra uma noite diferente do Halloween?

A Noite das Almas preserva a memória dos falecidos na região espanhola de Aragão, onde famílias transmitiram histórias e rituais entre gerações. Diferentemente das festas de fantasia, a celebração reúne orações, luzes e narrativas populares ligadas ao calendário cristão de Todos os Santos. Por isso, moradores associam a noite ao respeito pelos antepassados, embora as histórias também contem encontros assustadores com espíritos errantes.

O povoado fica na região de Somontano de Barbastro, perto da serra de Guara e da bacia do rio Vero. Segundo o portal oficial de turismo de Somontano, as famílias combinavam sinos, preces e alimentos para acompanhar simbolicamente as almas. Contudo, os registros consultados não determinam o século exato de origem dessa prática, apesar de documentarem sua transmissão ancestral.

🏛️ Tradição ancestral: Famílias preservam orações, relatos e lanternas de abóbora.
🌿 Há mais de 20 anos: A associação O Coronazo retoma a celebração comunitária.
🚀 2025: Aragão reconhece a festa como celebração de interesse turístico.

As abóboras iluminadas tinham uma função muito diferente

Lanterna artesanal feita com abóbora e vela – Imagem criada por inteligência artificial (Google Flow / Olhar Digital)

As crianças esvaziavam abóboras cultivadas originalmente para alimentar porcos, abriam olhos e bocas e colocavam velas no interior. Assim, transformavam um produto comum das hortas em lanternas que, segundo a crença local, afastavam almas perdidas das casas. Enquanto isso, adultos visitavam túmulos, rezavam o rosário e ouviam os sinos que marcavam repetidamente a noite dos mortos.

O ritual não nasceu como uma reprodução das abóboras norte-americanas, mas integrava os costumes antigos dos povoados próximos ao rio Vero. Além disso, as famílias contavam histórias de bruxas, cemitérios e aparições ao redor do fogo, acompanhadas por doces tradicionais. O costume reunia gestos diferentes, cada um com um significado na memória coletiva:

  • Flores nos túmulos: homenageavam parentes falecidos durante o Dia de Todos os Santos e mantinham vivos os vínculos afetivos entre gerações.
  • Sinos de finados: interrompiam o silêncio para recordar os mortos.
  • Abóboras com velas: representavam proteção contra espíritos errantes.
  • Histórias junto ao fogo: transmitiam medos e crenças às crianças.

Quem são as almetas e os totones das histórias locais?

As almetas representam almas que, no imaginário popular, permanecem próximas ao cemitério e circulam vestidas de branco com duas velas. Já os totones surgem como guardiões do campo-santo e carregam apenas uma vela, diferença que permite reconhecê-los nas narrativas. Segundo a tradição, encontrar essa procissão à noite poderia trazer perigo, sobretudo quando um espírito pedisse ajuda para segurar sua chama.

Porém, essas figuras pertencem ao folclore do Alto Aragão, não a relatos de aparições comprovadas ou a acontecimentos sobrenaturais. As histórias também atribuem às almas sinais domésticos inesperados, como marcas na massa do pão e feijões separados sobre uma mesa. Esses exemplos ajudam a entender três crenças que circulavam entre moradores:

  • Espelhos cobertos: impediriam uma alma de ficar presa à própria imagem.
  • Pedras junto ao cemitério: protegeriam quem passasse diante das sepulturas.
  • Pão virado para baixo: evitaria o sofrimento das almas, conforme a crença.

Radiquero preserva a festa sem fantasias e ganha reconhecimento oficial

Cena ilustrativa da procissão noturna aragonesa – Imagem criada por inteligência artificial (Google Flow / Olhar Digital)

Em 11 de abril de 2025, o governo regional reconheceu a comemoração como Festa de Interesse Turístico de Aragão. A decisão, publicada em maio no Boletim Oficial de Aragão, destacou a participação comunitária e a conservação da tradição oral. Portanto, o reconhecimento não transformou a cerimônia em Halloween, mas valorizou sua identidade própria e a memória dos antigos moradores.

Para 31 de outubro de 2026, a Prefeitura de Alquézar confirmou oficinas às 16h30 e a procissão silenciosa ao cemitério às 19h30. Antes da caminhada, as mulheres mais velhas explicarão por que a celebração não corresponde à festa comercial de fantasias. Dois elementos ajudam a compreender o contraste. A comparação mostra como uma tradição pode compartilhar objetos com outra festa sem perder seu significado:

ElementoSentido em Radiquero
AbóborasLuzes para afastar ou conduzir simbolicamente as almas.
CaminhadaProcissão respeitosa ao cemitério, sem fantasias.

Uma memória que continua acesa

O pequeno povoado espanhol preserva um encontro entre memória familiar, folclore e respeito pelos mortos, mesmo quando o Halloween domina vitrines e festas. Ainda hoje, as lanternas e as histórias mostram como gestos simples atravessam gerações e adquirem novos significados sem apagar suas raízes. Se você gosta de tradições que revelam a identidade de um lugar, acompanhe a festa pelo olhar dos moradores e escute suas histórias. Afinal, conhecer Radiquero nessa noite significa observar uma comunidade que transforma lembranças antigas em uma experiência compartilhada por crianças e adultos.

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Tags: curiosidadehistóriaturismo
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