O toque dos sinos atravessa ruas antigas enquanto velas iluminam abóboras esculpidas. Em Radiquero, no nordeste da Espanha, a noite dedicada aos mortos não nasceu de uma fantasia importada. Ela reúne histórias de espíritos, orações e famílias que preservam uma celebração aragonesa muito anterior à popularização comercial do Halloween.
Por que Radiquero celebra uma noite diferente do Halloween?
A Noite das Almas preserva a memória dos falecidos na região espanhola de Aragão, onde famílias transmitiram histórias e rituais entre gerações. Diferentemente das festas de fantasia, a celebração reúne orações, luzes e narrativas populares ligadas ao calendário cristão de Todos os Santos. Por isso, moradores associam a noite ao respeito pelos antepassados, embora as histórias também contem encontros assustadores com espíritos errantes.
O povoado fica na região de Somontano de Barbastro, perto da serra de Guara e da bacia do rio Vero. Segundo o portal oficial de turismo de Somontano, as famílias combinavam sinos, preces e alimentos para acompanhar simbolicamente as almas. Contudo, os registros consultados não determinam o século exato de origem dessa prática, apesar de documentarem sua transmissão ancestral.
As abóboras iluminadas tinham uma função muito diferente

As crianças esvaziavam abóboras cultivadas originalmente para alimentar porcos, abriam olhos e bocas e colocavam velas no interior. Assim, transformavam um produto comum das hortas em lanternas que, segundo a crença local, afastavam almas perdidas das casas. Enquanto isso, adultos visitavam túmulos, rezavam o rosário e ouviam os sinos que marcavam repetidamente a noite dos mortos.
O ritual não nasceu como uma reprodução das abóboras norte-americanas, mas integrava os costumes antigos dos povoados próximos ao rio Vero. Além disso, as famílias contavam histórias de bruxas, cemitérios e aparições ao redor do fogo, acompanhadas por doces tradicionais. O costume reunia gestos diferentes, cada um com um significado na memória coletiva:
- Flores nos túmulos: homenageavam parentes falecidos durante o Dia de Todos os Santos e mantinham vivos os vínculos afetivos entre gerações.
- Sinos de finados: interrompiam o silêncio para recordar os mortos.
- Abóboras com velas: representavam proteção contra espíritos errantes.
- Histórias junto ao fogo: transmitiam medos e crenças às crianças.
Quem são as almetas e os totones das histórias locais?
As almetas representam almas que, no imaginário popular, permanecem próximas ao cemitério e circulam vestidas de branco com duas velas. Já os totones surgem como guardiões do campo-santo e carregam apenas uma vela, diferença que permite reconhecê-los nas narrativas. Segundo a tradição, encontrar essa procissão à noite poderia trazer perigo, sobretudo quando um espírito pedisse ajuda para segurar sua chama.
Porém, essas figuras pertencem ao folclore do Alto Aragão, não a relatos de aparições comprovadas ou a acontecimentos sobrenaturais. As histórias também atribuem às almas sinais domésticos inesperados, como marcas na massa do pão e feijões separados sobre uma mesa. Esses exemplos ajudam a entender três crenças que circulavam entre moradores:
- Espelhos cobertos: impediriam uma alma de ficar presa à própria imagem.
- Pedras junto ao cemitério: protegeriam quem passasse diante das sepulturas.
- Pão virado para baixo: evitaria o sofrimento das almas, conforme a crença.
Radiquero preserva a festa sem fantasias e ganha reconhecimento oficial

Em 11 de abril de 2025, o governo regional reconheceu a comemoração como Festa de Interesse Turístico de Aragão. A decisão, publicada em maio no Boletim Oficial de Aragão, destacou a participação comunitária e a conservação da tradição oral. Portanto, o reconhecimento não transformou a cerimônia em Halloween, mas valorizou sua identidade própria e a memória dos antigos moradores.
Para 31 de outubro de 2026, a Prefeitura de Alquézar confirmou oficinas às 16h30 e a procissão silenciosa ao cemitério às 19h30. Antes da caminhada, as mulheres mais velhas explicarão por que a celebração não corresponde à festa comercial de fantasias. Dois elementos ajudam a compreender o contraste. A comparação mostra como uma tradição pode compartilhar objetos com outra festa sem perder seu significado:
Uma memória que continua acesa
O pequeno povoado espanhol preserva um encontro entre memória familiar, folclore e respeito pelos mortos, mesmo quando o Halloween domina vitrines e festas. Ainda hoje, as lanternas e as histórias mostram como gestos simples atravessam gerações e adquirem novos significados sem apagar suas raízes. Se você gosta de tradições que revelam a identidade de um lugar, acompanhe a festa pelo olhar dos moradores e escute suas histórias. Afinal, conhecer Radiquero nessa noite significa observar uma comunidade que transforma lembranças antigas em uma experiência compartilhada por crianças e adultos.
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