Muita gente imagina que Frida Kahlo perdeu a perna inteira, ou que a frase sobre asas é um verso otimista escrito num dia bom. O registro biográfico do Museo Frida Kahlo conta outra história: em agosto de 1953, uma gangrena levou à amputação da perna direita abaixo do joelho. Foi nesse contexto que a pintora anotou no diário “Pies para qué los quiero si tengo alas pa´ volar”, algo como “Pés, para que os quero, se tenho asas para voar?”.
A perna direita de Frida Kahlo e a cirurgia de 1953
A amputação foi o capítulo final de uma longa convivência com a dor física. Segundo o museu, Frida teve poliomielite aos seis anos, em 1913, e a doença deixou a perna direita mais curta e mais fina. O pai a incentivou a praticar esportes para fortalecer o membro.
Em 17 de setembro de 1925, veio o acidente que marcou sua vida: o ônibus em que ela estava foi atingido por um bonde. Depois de cerca de um mês no hospital da Cruz Vermelha, passou meses de cama. Ali pintou o primeiro autorretrato, com a ajuda de um espelho colocado acima do leito.
Quase três décadas depois, a gangrena levou à cirurgia, e a resposta da artista apareceu por escrito, em espanhol coloquial. O “pa´ volar” é a forma popular de “para volar”. Quem quiser entender como ela transformou a cama em ateliê encontra mais detalhes na matéria abaixo.
O que o Diário de Frida Kahlo revela sobre seus últimos anos?
O caderno revela uma artista que escrevia, desenhava e pintava para lidar com a dor, o amor e a política. Frida começou o Diário de Frida Kahlo em 1944, e ele cobre os últimos dez anos de sua vida, com pensamentos, reflexões, poemas e anotações, conforme o museu.
Uma exposição virtual do Museo Dolores Olmedo mostra que as cores tinham sentido próprio para ela. O azul era “eletricidade e pureza”, e o amarelo, “loucura, doença, medo, parte do sol e felicidade”. As páginas falam ainda de Diego, dos animais de estimação e do México pré-hispânico. A instituição situa a frase sobre pés e asas em 1953, um ano antes da morte da pintora.

Casa Azul, Diego Rivera e a única mostra individual no México
No mesmo ano de 1953, Lola Álvarez Bravo organizou em sua Galería de Arte Contemporáneo a única exposição individual de Frida no México em vida. Por causa da saúde frágil, a abertura foi antecipada. A pintora chegou de ambulância e acompanhou a noite deitada numa cama de hospital, num dos episódios mais lembrados da pintura mexicana.
A Casa Azul, em Coyoacán, foi o cenário de boa parte dessa trajetória. O pai de Frida construiu a casa em 1904, e em 1930 Diego Rivera quitou a hipoteca e registrou o imóvel no nome dela. Segundo o Museo Frida Kahlo, o casal quis que o lugar virasse museu. Rivera criou em 1957 o fideicomisso que o administra, e as portas abriram ao público em julho de 1958.

Por que a frase sobre asas ainda fala tanto sobre a dor?
A frase fala sobre a dor porque não a nega: parte de uma perda concreta e escolhe outro ponto de apoio. Os pés perdidos são reais, e as asas são a imaginação, o trabalho e a vontade de seguir pintando. Foi essa vontade que fez de Frida um nome central da pintura mexicana, sem nenhum tom de manual de superação.
Os meses seguintes confirmam essa leitura. Em 1954, muito doente, Frida pintou “El marxismo dará salud a los enfermos”, obra que ficou inacabada. Contrariando o médico, foi a um protesto contra a intervenção dos Estados Unidos na Guatemala. Em 2 de julho, foi fotografada em cadeira de rodas ao lado de Diego Rivera, de punho esquerdo erguido. Morreu em 13 de julho, aos 47 anos, dias depois de escrever “Viva la Vida” numa tela de melancias.
Lida hoje, a anotação do Diário de Frida Kahlo soa menos como consolo e mais como decisão: o corpo impõe limites, e a obra é o lugar onde eles deixam de mandar. Se um dia você visitar a Casa Azul ou folhear uma edição do diário, procure essa página com calma e repare como poucas palavras carregam tanto.
Para continuar no universo da arte, conheça a história de um quadro comprado por quase nada que estava longe do público havia décadas.
