Entre árvores antigas e lápides de outras épocas, um cemitério carioca reúne histórias que atravessam mais de dois séculos. Na Gamboa, o Cemitério dos Ingleses conserva sepulturas de crianças, militares e personalidades brasileiras. Entretanto, seu passado revela algo ainda maior: como a chegada de estrangeiros transformou os rituais de despedida no Rio de Janeiro.
Por que o Cemitério dos Ingleses nasceu em 1811?
A história do local começa com a chegada da corte portuguesa ao Brasil, em 1808, e o crescimento da presença britânica e seus costumes. Naquele período, muitos sepultamentos ocorriam nas igrejas católicas, enquanto estrangeiros protestantes encontravam obstáculos para enterrar seus mortos conforme a própria fé no país. Por isso, o Tratado de Comércio e Navegação de 1810, entre Portugal e Grã-Bretanha, garantiu aos súditos ingleses lugares específicos para sepultamento na então capital.
Na encosta da Gamboa, um antigo terreno voltado para o mar recebeu a necrópole, que começou a funcionar em 1811, próximo ao antigo porto. O Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro a identifica como o primeiro cemitério a céu aberto da cidade durante o período joanino. Embora algumas referências apontem um recorde nacional, a prefeitura o classifica prudentemente entre os cemitérios a céu aberto mais antigos do Brasil ainda ativos.
As primeiras lápides guardam histórias de famílias e crianças

Em 1812, as mortes de duas crianças deixaram alguns dos vestígios mais antigos que pesquisadores encontraram no terreno durante visitas de campo. As inscrições de Thomas Barker e Eliza Barker, datadas de fevereiro e novembro, aparecem nas paredes internas da capela, onde resistem ao desgaste do tempo. Curiosamente, o estudo histórico não encontrou a lápide associada ao primeiro sepultamento de 1811, embora apresente registros desse começo no terreno histórico examinado.
Décadas depois, o mesmo cemitério recebeu Cynthia H. Russel, esposa do missionário metodista Daniel P. Kidder, falecida em 1840, ainda durante o Império. Em 1864, ali ocorreu o enterro de Helen Murdoch, jovem mulher do pastor Ashbel Green Simonton, ligado à expansão presbiteriana brasileira no século XIX. Esses episódios, documentados pela Igreja Presbiteriana do Brasil, mostram que a necrópole também registra perdas familiares e trajetórias religiosas, não apenas figuras públicas conhecidas.
Quais personalidades estão enterradas no Cemitério dos Ingleses?
Em 1834, o funeral do contra-almirante britânico Michael Seymour transformou o cemitério em cenário de uma expressiva cerimônia diplomática e militar na então capital imperial. Embarcações com bandeiras estrangeiras acompanharam o cortejo, enquanto oficiais conduziram insígnias e condecorações diante dos presentes, com autoridades e familiares dos tripulantes. Segundo pesquisa histórica, a movimentação cresceu tanto que os responsáveis precisaram fechar temporariamente os portões para organizar a entrada nos momentos de maior aglomeração.
Anteriormente, em 1827, o enterro de Thomaz Bedwell também mobilizara a cidade, com aproximadamente 300 pessoas mencionadas nos registros examinados daquela época. Muito depois, o dramaturgo Mauro Rasi, conhecido por sua produção teatral, encontrou ali seu lugar de sepultamento, em 2003, após longa atuação teatral. Assim, uma necrópole inicialmente destinada aos britânicos passou a reunir histórias de diferentes nacionalidades e profissões, aproximando personagens separados por gerações ao longo dos séculos.
Como o crescimento do Rio transformou a paisagem do cemitério?

No começo do século XIX, o Cemitério dos Ingleses ficava numa encosta com vista direta para as águas da antiga praia da Gamboa na época. Ao visitar a área em 1823, a viajante britânica Maria Graham descreveu a paisagem, a vegetação e os monumentos funerários em seu diário. Entretanto, os aterros da região portuária afastaram o terreno do mar e alteraram a vista que impressionara seus primeiros visitantes durante o século seguinte.
Apesar dessas mudanças, a capela, as árvores e os túmulos mantêm referências de uma fase pouco conhecida da história urbana carioca ainda presentes. O poder público reconheceu o valor do conjunto em 1988, e a Rio Film Commission descreve cerca de 11 mil m² de área na Gamboa. Atualmente, suas dez quadras de jazigos ativas, além de uma inativa, ajudam a explicar como o espaço combina memória histórica e continuidade funerária até hoje.
Um lugar onde a memória continua
Entre lápides infantis, histórias religiosas e cerimônias militares, o Cemitério dos Ingleses guarda muito mais que datas de nascimento e morte. Sua trajetória revela como a imigração e a liberdade religiosa influenciaram a cidade, desde a corte portuguesa até os sepultamentos contemporâneos. Por isso, conhecer esse passado também significa perceber a vida de pessoas comuns, para além dos túmulos monumentais e dos nomes conhecidos. Se você gosta de histórias discretas do Rio de Janeiro, aproxime-se dessa memória com respeito e atenção às inscrições que sobreviveram.
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