Um levantamento feito para estudar florestas no México acabou revelando milhares de vestígios da civilização maia. Ao revisar dados antigos de laser, pesquisadores reconheceram a cidade de Valeriana, que ainda não constava dos registros científicos como grande centro urbano. O resultado chamou atenção não apenas pelas construções, mas pelo que elas revelam sobre a ocupação daquela região.
Como um levantamento ambiental revelou milhares de estruturas maias
Em 2013, um projeto ambiental coletou informações do relevo no estado mexicano de Campeche, usando pulsos de laser emitidos por aeronaves. Anos depois, uma equipe liderada pelo arqueólogo Luke Auld-Thomas percebeu que aqueles registros também poderiam mostrar antigas construções sob a vegetação. Assim, a pesquisa aproveitou dados existentes, sem depender inicialmente de uma nova campanha aérea dedicada exclusivamente à busca de vestígios arqueológicos.
A técnica, chamada detecção e alcance por luz (LiDAR), calcula distâncias pelo retorno dos pulsos e permite construir modelos digitais da superfície terrestre. Os cientistas reprocessaram informações de aproximadamente 122 quilômetros quadrados, destacando diferenças sutis de altitude que poderiam indicar plataformas, casas e outras obras humanas. Em outubro de 2024, publicaram os resultados no estudo científico da revista Antiquity, após examinarem cuidadosamente os modelos e compararem possíveis estruturas.
O que os pesquisadores identificaram na cidade maia de Valeriana

Valeriana reúne dois grandes conjuntos de arquitetura monumental, separados por cerca de dois quilômetros e conectados por áreas de ocupação e intervenções na paisagem. No conjunto maior, os modelos mostram praças cercadas por construções, pirâmides de templos, uma via larga e um espaço associado ao jogo de bola. Também aparece um reservatório formado pelo represamento de um curso de água sazonal, detalhe importante para compreender a organização daquele assentamento.
Esses elementos lembram a configuração de centros políticos maias do período Clássico, geralmente situado entre os anos 250 e 900 da era cristã. Contudo, a aparência das estruturas não confirma sozinha a função de cada edifício nem a época exata de construção ou utilização. Segundo a Universidade de Tulane, os vestígios ficam próximos de uma estrada e de comunidades que já conviviam com ruínas na região.
Por que as 6.764 estruturas maias não pertencem apenas a Valeriana
O número de 6.764 estruturas corresponde à soma dos registros arqueológicos reconhecidos em toda a área examinada, e não à contagem exclusiva da cidade. A amostra abrangeu três faixas estreitas de levantamento e outros três blocos de terreno, distribuídos por diferentes regiões de Campeche. Por isso, os pesquisadores encontraram realidades distintas, desde áreas pouco ocupadas até conjuntos residenciais extensos e trechos com grandes obras monumentais.
Em um bloco de 16,6 quilômetros quadrados, os vestígios associados a Valeriana aparecem acompanhados de numerosas intervenções agrícolas e caminhos entre áreas construídas. Já outra parte do levantamento mostra residências mais dispersas, quase nenhuma arquitetura monumental e poucas estruturas relacionadas ao armazenamento de água. Essa diferença importa porque reforça uma interpretação mais variada do território maia, composto por cidades densas e comunidades rurais interligadas.
O que a descoberta a laser ainda não permite afirmar

O LiDAR identifica formas no terreno, mas não substitui escavações, análise de materiais nem verificação direta das construções apontadas pelos mapas. Os autores reconheceram que, na publicação de 2024, ainda faltava validar em campo a interpretação das estruturas identificadas nessa área. Há outra dificuldade: montes de pedras podem lembrar bases de moradias, enquanto construções pequenas podem escapar dos registros digitais.
Os documentos oficiais divergem: o artigo científico contabiliza 6.764 estruturas, enquanto o Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH) informa 6.479. Portanto, esses totais exigem identificação da fonte e não devem funcionar como contagem definitiva de edifícios ou de habitantes antigos. O comunicado oficial do INAH sobre Valeriana destaca a necessidade de novas pesquisas presenciais para ampliar o conhecimento e orientar a conservação.
O que a floresta ainda pode contar sobre os antigos maias
O caso de Valeriana mostra como informações coletadas para uma finalidade ambiental podem abrir novas perguntas sobre sociedades antigas. A descoberta amplia o retrato de um território maia com diferentes formas de ocupação, mas ainda exige pesquisas no próprio terreno. Quando você olhar uma floresta aparentemente intacta, lembre-se de que a vegetação também pode esconder capítulos inteiros da história humana.
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