Um presente caro pode parecer uma demonstração maior de carinho para quem paga, mas não necessariamente para quem abre a embalagem. Em 2009, pesquisadores identificaram uma diferença entre a gratidão esperada por quem compra e a gratidão relatada por quem recebe. A explicação envolve expectativas, atenção e um detalhe que o preço não consegue revelar sozinho.
Por que quem compra um presente acredita que gastar mais aumenta a gratidão?
Quem compra vê o preço do presente como sinal de cuidado, conforme pesquisa de Francis J. Flynn e Gabrielle S. Adams. Os autores publicaram o trabalho em 2009, no Journal of Experimental Social Psychology, após investigar expectativas e avaliações em três estudos diferentes. Assim, encontraram uma diferença consistente: compradores associavam valores maiores a mais reconhecimento, enquanto os destinatários não relatavam a mesma relação entre custo e gratidão.
O estudo, disponível na publicação científica apresentada pela Universidade Stanford, examinou situações que incluíam anéis de noivado, aniversários e presentes hipotéticos. Nas experiências com compras reais, os participantes recordavam presentes comprados ou recebidos, permitindo comparar expectativas e sentimentos ligados às mesmas práticas sociais. Portanto, o resultado não afirma que gastar mais seja inútil, mas questiona a suposição de que cada aumento no preço produza mais gratidão.
O que as pessoas que recebem presentes realmente valorizam?

Os destinatários avaliados em três estudos não demonstraram a associação positiva entre preço e gratidão que os compradores esperavam encontrar. Essa diferença sugere que o significado de um presente não se resume ao dinheiro investido, embora cada relação tenha suas circunstâncias particulares. Por exemplo, um objeto escolhido após uma conversa atenta pode atender a uma preferência concreta sem representar a maior despesa possível.
Em 2011, Francesca Gino e Flynn examinaram outra diferença entre a perspectiva de quem oferece e a de quem recebe presentes. Segundo o estudo de Stanford sobre pedidos explícitos de presentes, cinco investigações encontraram maior apreciação por itens que os destinatários haviam solicitado diretamente. Entretanto, compradores imaginavam que presentes pedidos e não pedidos despertariam gratidão semelhante, mesmo quando os destinatários demonstravam preferência pelo item solicitado.
Por que ouvir o pedido pode valer mais que uma surpresa cara?
Um presente pedido diretamente pode demonstrar atenção às preferências, enquanto quem compra às vezes espera que uma surpresa transmita consideração superior. Nos experimentos de 2011, os destinatários valorizaram mais os itens solicitados, contrariando a previsão dos compradores sobre o efeito de surpreender. Assim, a diferença não surgiu apenas do objeto escolhido, mas da interpretação sobre o cuidado envolvido na decisão de presentear.
A pesquisa também encontrou condições específicas que modificaram as escolhas, incluindo a indicação de um único presente e a possibilidade de oferecer dinheiro. Quando alguém apontava exatamente o item desejado, os compradores mostravam maior disposição para atender ao pedido do que diante de listas alternativas. Já no experimento sobre dinheiro, os destinatários apreciaram essa opção mais do que os compradores esperavam, resultado restrito às situações investigadas pelos pesquisadores.
Um presente muito caro também pode provocar desconforto?

Sim, porque o valor pode ultrapassar as expectativas de quem recebe e criar uma sensação de obrigação, conforme resultados de uma pesquisa posterior. O trabalho de Jooyoung Park, Mengshu Chen e Jungkeun Kim reuniu cinco estudos sobre preços e gratidão em diferentes situações. Em vez de confirmar que qualquer aumento no gasto favorece a relação, os pesquisadores observaram melhores respostas quando o valor correspondia às expectativas.
O artigo científico publicado no Australasian Marketing Journal apareceu online em 2022 e integrou a edição de 2024. Segundo os autores, presentes abaixo do esperado podiam sugerir pouca consideração, enquanto valores acima do esperado podiam despertar sensação de dívida. Contudo, o padrão variou conforme o grupo cultural e a proximidade entre as pessoas, impedindo conclusões universais sobre o preço ideal.
O que um presente revela sobre a relação
O preço pode comunicar esforço para quem compra, mas a gratidão de quem recebe depende de uma experiência que envolve expectativas e preferências. Por isso, os estudos convidam a observar o presente pela perspectiva de seu destinatário, sem transformar uma tendência experimental em regra para todas as pessoas. Na próxima ocasião, considere o que a pessoa realmente pediu ou demonstrou apreciar. Talvez essa atenção diga mais do que aumentar automaticamente o orçamento.
Leia mais:
- Ele comprou uma árvore de Natal “inteligente” com app e Wi-Fi e, no segundo ano, descobriu que o fabricante desligou o servidor
- A cidade que monta a maior árvore de Natal do Brasil e muda a paisagem do centro durante dezembro
- Fazenda compra uma abóbora inflável gigante por US$ 1.500, usa a peça para atrair clientes e descobre que ela foi roubada dias antes do Halloween
