🐋 Do quase fim ao espetáculo no mar
Há três décadas, ver uma baleia-jubarte saltando diante do litoral era uma raridade, porque a caça tinha empurrado a espécie para a beira do fim. Hoje, o Instituto Baleia Jubarte registra mais de 35 mil gigantes visitando a costa na estimativa recorde de 2022. O desafio agora é sustentar esse resultado num oceano cheio de lixo e sob o peso das mudanças climáticas.
Como as baleias-jubarte chegaram tão perto da extinção?
Por causa da caça comercial, que atravessou séculos e só foi proibida no Brasil em 1987. Desde o período colonial, os animais eram arpoados principalmente pela gordura, transformada em óleo para iluminação.
Um ano depois da proibição, pesquisadores que preparavam o Parque Marinho de Abrolhos encontraram uma pequena população sobrevivente no arquipélago, na Bahia. O fotógrafo Enrico Marcovaldi e a bióloga Márcia Engel decidiram então criar o Projeto Baleia Jubarte, que virou instituto em 1996.

Quanto a população de jubartes cresceu em 30 anos?
A estimativa saiu de 1,5 mil a 2 mil animais, na primeira contagem do início dos anos 1990, para mais de 35 mil no levantamento de 2022. A espécie se multiplicou por pelo menos 17 vezes.
Segundo a Agência Brasil, a principal estimativa vem de sobrevoos do litoral entre São Paulo e Rio Grande do Norte. Ou seja, o número retrata as jubartes que visitam a costa brasileira para acasalar e parir, e não toda a espécie no planeta. Abrolhos concentra cerca de 90% desses animais, que ficam por aqui de junho a novembro.
A contagem de 2026 ainda está em andamento e deve ficar um pouco abaixo da anterior. Os pesquisadores atribuem isso a ciclos naturais.
Essa trajetória pode ser resumida em poucos marcos. Eles mostram como número e proteção avançaram juntos.
Como os cientistas acompanham as jubartes no mar?
Os pesquisadores combinam sobrevoos, fotoidentificação, biópsias e imagens de drone para acompanhar cada temporada. Cada técnica revela uma parte da rotina deles.
- Sobrevoos: os voos sobre o litoral geram a principal estimativa populacional do instituto.
- Fotoidentificação: o desenho da parte de trás da cauda é único em cada baleia, como uma impressão digital, e os registros já identificaram mais de 10 mil animais.
- Biópsia: pequenas amostras de pele e gordura são coletadas com uma flecha lançada por balestra, algo próximo de uma picada de lanceta para um animal de 30 toneladas.
- Drones: imagens captadas desde 2018 ajudam a medir comprimento, peso e estado de saúde das baleias.
Esse trabalho também resolveu uma dúvida antiga. Em 2006, a comparação de caudas fotografadas no Brasil e nas ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, na Antártica, mostrou que as jubartes se reproduzem aqui e se alimentam lá.
Quais ameaças ainda pesam sobre as baleias-jubarte?
Poluição e alterações no clima estão entre as principais preocupações do instituto. Cada uma atinge os animais por um caminho diferente.
- Lixo no oceano: segundo o diretor-executivo Eduardo Camargo, o problema alcança o mar inteiro, hoje coberto de microplástico.
- Comida em jogo: o clima afeta a disponibilidade de alimento, e isso comanda todo o ciclo de vida das jubartes. A mestranda Bruna Baleeiro, ainda sem cálculos finais, já notou que a temperatura da superfície na Antártica pode influenciar a abundância e a sobrevivência dos animais, por afetar o krill.
- Convivência com o ser humano: estudos investigam se sísmica, navegação, usinas eólicas e turismo alteram o comportamento das baleias.
Já existem exemplos de conciliação. A rota dos navios do Terminal Aquaviário de São Sebastião, em São Paulo, foi redesenhada para evitar o caminho migratório das jubartes, conforme a Petrobras, que financia o instituto.
O que a volta das jubartes ensina sobre proteger o mar?
A recuperação prova que proteção legal, ciência de longo prazo e paciência conseguem reverter um quase desaparecimento. O próximo capítulo depende do que o país fizer com o lixo no oceano e diante da crise do clima.
Que tal marcar uma viagem entre junho e novembro e procurar o borrifo no horizonte? Ele é o primeiro sinal de que uma jubarte está por perto.
