E se aquele galho seco no muro estivesse vivo?
Em Alegre, moradores encontraram uma ave que se passa por madeira o dia inteiro. Saiba como ela engana quem passa ao lado. ⬇️
Um galho seco no muro de uma casa em Alegre, no Sul do Espírito Santo, chamou a atenção de moradores na segunda-feira (2). Tratava-se de um urutau, ave que fica parada durante o dia e só sai para caçar quando escurece. O biólogo Vinícius Cavati registrou o encontro no bairro Campo de Aviação, e as imagens viralizaram nas redes.
Como o urutau consegue parecer um galho seco?
O urutau engana o olhar porque as penas lembram galhos e troncos de árvores, onde a ave costuma pousar. Essa camuflagem rendeu o apelido de ave-fantasma, segundo o biólogo. A espécie, também chamada de mãe-da-lua, tem o nome científico Nyctibius griseus, apresenta metabolismo lento durante o dia e não mostra agressividade.
O disfarce protege a ave adulta e também os ovos. Confira os hábitos que sustentam essa estratégia.
- De dia, fica parada no poleiro e confia na camuflagem para passar despercebida.
- À noite, ganha agilidade e caça pequenos insetos apenas em pleno voo.
- Usa o bico grande como uma espécie de rede para capturar as presas.
- Não constrói ninho elaborado: põe os ovos sobre um toco, cerca ou árvore caída, e a cor deles imita o apoio.

Por que o canto da mãe-da-lua virou lenda?
O canto da mãe-da-lua é longo e melancólico, parecido com um choro triste, e inspirou superstições e contos populares. Para alguns, a ave anuncia mau agouro. Para outros, ela guarda histórias de amor. Camuflagem, hábitos noturnos e esse lamento explicam o apelido de ave-fantasma.
Entre as histórias herdadas dos povos originários, uma fala de um bebê abandonado na floresta que chora pela mãe. Outra narrativa indígena conta de uma jovem impedida de viver um romance com um guerreiro de povo rival. Após a morte do amado, ela teria fugido para a mata e virado uma ave que chora a perda todos os dias.

Onde o urutau vive e por que quase ninguém o vê?
O urutau vive em praticamente todo o território brasileiro, mas passa despercebido porque se confunde com troncos e age à noite. Cavati explica que a espécie ocorre em toda a Mata Atlântica e no Cerrado. Com a fragilidade desses ecossistemas, mais animais buscam abrigo em áreas urbanas, segundo ele.
Um trabalho de conclusão de curso da Unesp, feito com registros da plataforma eBird, confirma essa presença ampla, inclusive em ambientes urbanizados. Mesmo assim, a ave foi detectada em apenas 2 de cada 10 áreas visitadas. O texto lembra que coloração críptica, hábitos noturnos e baixa atividade vocal tornam o urutau fácil de ignorar.
Os números do levantamento explicam por que um urutau no muro vira notícia. Confira os destaques.
Apesar da ampla distribuição, a espécie é considerada de menor preocupação pela IUCN. O mesmo trabalho aponta que desmatamento e urbanização ameaçam o urutau por causa da perda de habitat.
O que fazer ao encontrar um urutau em casa?
Observe de longe e deixe a ave em paz. No muro de Alegre, o biólogo constatou que o urutau não estava ferido nem corria riscos.
Os cuidados são simples e valem para qualquer animal silvestre. Confira o que fazer no Espírito Santo.
- Mantenha distância, não toque na ave e não tente capturá-la nem alimentá-la.
- Se ela estiver sem ferimentos, deixe que siga o próprio caminho.
- Se estiver ferida, debilitada ou em risco, acione a Polícia Militar Ambiental, o Iema ou o serviço municipal responsável pela fauna.
O que o urutau do muro ensina a quem passa por ele?
O galho que respirava no muro de Alegre mostra que o Espírito Santo guarda visitantes discretos bem perto de casa. Com um olhar atento no fim da tarde, qualquer pessoa aprende a reconhecer um urutau imóvel no poleiro. Já cruzou com um por aí? Conte nos comentários onde foi, vou adorar saber.
