Três placas ósseas de uma preguiça-gigante apareceram em um abrigo rochoso de Mato Grosso. Furos e superfícies polidas intrigaram pesquisadores, pois parecem resultado de trabalho humano. Um estudo de 2023 indicou que os ossos podem ter servido como adornos há cerca de 25 mil anos, embora sua função continue em debate.
O que o sítio de Santa Elina revelou sobre os ossos de preguiça-gigante?
O abrigo rochoso Santa Elina fica em Jangada, Mato Grosso, entre paredões calcários da serra das Araras, e conserva vestígios de diferentes ocupações. Escavações conduzidas na década de 1990 pelos arqueólogos Águeda Vilhena-Vialou e Denis Vialou revelaram ferramentas de pedra e muitos restos de animais extintos. Entre os materiais estavam milhares de osteodermes, pequenas placas ósseas resistentes presentes na pele de uma preguiça terrestre da espécie Glossotherium phoenesis.
Esses ossos não eram dentes nem partes do esqueleto interno, mas pequenas estruturas que ficavam na camada mais externa da pele do animal. Entre tantas placas, três chamaram atenção porque apresentavam furos, superfícies alisadas e outras características que exigiam investigação detalhada além da identificação paleontológica. Por isso, a equipe retomou peças antigas do acervo, como detalha a Pesquisa FAPESP, para investigar possíveis modificações humanas anteriores à fossilização.
Quais marcas indicam trabalho humano nos ossos de preguiça-gigante?

As três peças medem aproximadamente um centímetro, mas concentram pistas minúsculas, persistentes e bastante particulares, difíceis de explicar por desgaste casual provocado apenas pelo ambiente. Duas têm uma perfuração próxima de uma ponta; a terceira apresenta dois furos, embora suas bordas estejam danificadas, conforme a descrição arqueológica apresentada pela equipe. Além dos orifícios, os cientistas registraram polimento, estrias e áreas achatadas que ajudam a reconstruir como o material passou por diferentes modificações intencionais.
Para testar essa interpretação, o grupo combinou microscopia óptica, microscopia eletrônica, fotoluminescência e microtomografia com luz síncrotron, técnica que revela detalhes internos. Os pesquisadores também compararam marcas experimentais feitas em placas já fossilizadas e em ossos frescos de tatus-canastra, animais que possuem estruturas ósseas bastante semelhantes. Assim, concluíram que humanos alteraram intencionalmente os ossos antes da fossilização, conforme o estudo científico original; o uso como adorno permanece uma hipótese.
Como os cientistas calcularam a idade dos possíveis adornos?
Os 25 mil a 27 mil anos atribuídos ao contexto de Santa Elina não resultam de uma data gravada diretamente nos pequenos objetos encontrados. Essa estimativa depende da posição dos vestígios no solo e de diferentes análises laboratoriais realizadas em materiais associados às mesmas camadas arqueológicas da escavação. Assim, o estudo reconstruiu a sequência das antigas ocupações humanas e verificou como restos da megafauna extinta e ferramentas apareceram próximos uns dos outros.
Uma das técnicas foi a datação por urânio-tório em osso de preguiça-gigante, que apontou aproximadamente 27 mil anos para um exemplar efetivamente analisado. Pesquisadores também examinaram microcarvões e fragmentos de madeira por carbono 14, além de diferentes sedimentos por métodos de luminescência para comparar as idades estimadas. Entretanto, datas semelhantes não encerram a discussão sobre a associação entre cada peça e sua camada, pois possíveis misturas de sedimentos exigem avaliação cuidadosa.
Esses ossos provam que humanos caçavam preguiças-gigantes?

As marcas não demonstram que humanos tenham caçado preguiças-gigantes, embora indiquem contato direto com material ósseo ainda fresco antes de sua fossilização. Os antigos habitantes poderiam ter retirado as placas de uma carcaça recente, sem participar da morte do animal que forneceu aquele material. Portanto, os ossos permitem discutir uma interação antiga, mas não reconstruir uma cena de caça nem atribuir qualquer significado ritual aos possíveis pingentes.
Outra questão envolve o momento em que pessoas chegaram ao interior da América do Sul, tema amplamente debatido entre diferentes equipes de pesquisa. Os resultados de Santa Elina reforçam uma ocupação antiga, destacada pelo Smithsonian, mas persistem dúvidas sobre a deposição dos materiais arqueológicos. Por isso, novas análises de ossos, ferramentas e sedimentos podem testar a antiguidade proposta e esclarecer melhor essas atividades humanas no território brasileiro.
Pequenos vestígios ampliam a história humana
Os sinais nas placas indicam que pessoas trabalharam ossos de um animal extinto e talvez os tenham usado junto ao corpo. Mesmo com incertezas sobre a idade exata e a função, essas peças ajudam a investigar escolhas materiais e expressões humanas muito antigas. Elas mostram como o passado humano depende de observações minuciosas, comparações científicas e cuidado para não transformar possibilidades em certezas. Quando encontrar um pequeno artefato arqueológico, observe seus detalhes com atenção e pense nas perguntas que ainda cercam sua longa história.
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