E se o sangue de um dinossauro resistisse ao tempo?
Um osso de 115 milhões de anos pode ter guardado algo que ninguém esperava reencontrar: sangue. Pesquisadores da Universidade Curtin, na Austrália, identificaram estruturas parecidas com glóbulos vermelhos, junto de vestígios químicos do sangue, dentro de um fóssil encontrado no Ceará. O estudo, divulgado em 2 de novembro de 2026, desafia o que se sabia sobre quanto tempo material biológico consegue sobreviver.
Que dinossauro é esse e onde ele foi encontrado?
É o Aratasaurus museunacionali, um terópode carnívoro que viveu no atual Nordeste brasileiro há cerca de 115 milhões de anos. O fóssil foi achado em 2008 na Mina Pedra Branca, uma mina de gesso perto de Santana do Cariri, no Ceará. Um morador local doou o material ao Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, na mesma cidade.
Depois, o material seguiu para o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, para estudos. O nome científico significa “nascido do fogo” e homenageia a instituição, atingida por um incêndio em 2018. Descrito em 2020, o animal media pouco mais de 3 metros e ainda crescia quando morreu.

Como os cientistas chegaram aos glóbulos vermelhos?
A equipe combinou microscopia, análises mineralógicas e geoquímica molecular em ossos da perna do dinossauro. O trabalho, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, a PNAS, reuniu quatro evidências principais:
- Microestruturas ovais nos canais vasculares do osso, que, segundo a equipe, combinam em forma, tamanho e posição com glóbulos vermelhos.
- Heme B, a molécula com ferro que compõe a hemoglobina, detectada de forma intacta dentro dessas estruturas.
- Aminoácidos de colágeno, uma proteína estrutural, também preservados no material.
- Testes na rocha ao redor, feitos para confirmar que o heme veio do osso e não de outra fonte.
A hemoglobina é a proteína que leva oxigênio pelo corpo, por isso o heme funciona como pista direta sobre o sangue. Segundo a Curtin, este é o primeiro estudo a provar quimicamente a presença de moléculas derivadas da hemoglobina dentro dessas células.
O grupo internacional incluiu cientistas do Museu Nacional, da Universidade Regional do Cariri, da agência japonesa JAMSTEC e da Universidade Johns Hopkins.

Por que o material resistiu por 115 milhões de anos?
Para os autores do estudo publicado na PNAS, o terópode foi soterrado logo após a morte em um ambiente com pouco oxigênio e rico em micro-organismos. As células também foram mineralizadas por hausmannita, um óxido de manganês que estabilizou as estruturas e as moléculas, como uma cápsula do tempo natural.
Três fatores, segundo os pesquisadores, explicam essa preservação excepcional. A sequência abaixo resume o caminho, da morte do animal à fossilização.
Para Martin Van Kranendonk, chefe da Escola de Ciências da Terra e Planetárias da Curtin, o estudo redefine a preservação de estruturas moleculares. A conclusão pode ter implicações para a astrobiologia e a busca por vida antiga no cosmos.
Todos os especialistas concordam com a descoberta?
Não, a comunidade científica ainda debate a interpretação das imagens. A pesquisadora Mary Schweitzer, ouvida pela Live Science, não está convencida de que as imagens mostrem glóbulos e cita, entre outros motivos, estes dois:
- A forma não combina de modo convincente com a esperada para glóbulos de animais não mamíferos.
- As estruturas são menores que a maioria dos glóbulos vermelhos desses animais.
O material analisado também não contém DNA, apenas células fossilizadas e moléculas associadas. A descoberta não permite, portanto, recuperar o código genético do dinossauro cearense.
O que essa descoberta muda daqui para frente?
Se as conclusões resistirem a novos testes, a abordagem permite estudar transporte de oxigênio, metabolismo e até nível de atividade de animais extintos. Para os autores, o achado mostra que moléculas como a hemoglobina podem durar muito mais do que se imaginava.
E você, acredita que o sangue de um dinossauro cearense ficou guardado por 115 milhões de anos? Me conta nos comentários.
