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Um município a menos de 50 quilômetros de uma capital guarda cavernas onde um dos pioneiros da arqueologia brasileira encontrou restos de animais extintos em 1837, e em 2026 moradores passaram a fazer visitas guiadas por esse cenário pré-histórico

Davy Emanuel Silva dos Santos Davy Emanuel Silva dos Santos
25/08/2026 09:07
Um município a menos de 50 quilômetros de uma capital guarda cavernas onde um dos pioneiros da arqueologia brasileira encontrou restos de animais extintos em 1837, e em 2026 moradores passaram a fazer visitas guiadas por esse cenário pré-histórico

Matozinhos reúne fósseis pré-históricos e pinturas rupestres em paredões de calcário - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

A menos de 50 km de Belo Horizonte, paredões de calcário de Matozinhos escondem registros de dois tempos muito diferentes: fósseis do Pleistoceno e marcas deixadas por grupos humanos pré-coloniais. No século XIX, esse cenário chamou a atenção de Peter Lund. Em 2026, uma iniciativa local aproximou moradores desse patrimônio por meio de caminhadas acompanhadas pelo IEF.

Por que Matozinhos entrou cedo na história da arqueologia brasileira?

🦴 1837: Lund encontra restos de animais extintos do Pleistoceno na Lapa da Cerca Grande.
🏛️ 1962: A Lapa da Cerca Grande recebe tombamento federal pelo Iphan.
🥾 2026: Moradores participam de visitas guiadas pelo projeto Comunidade no Parque.

O vínculo começou nas pesquisas de Lund na região de Lagoa Santa e Matozinhos, apontadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como parte dos primeiros passos da arqueologia no país. O órgão considera o naturalista dinamarquês o “Pai da Arqueologia” no Brasil. Na Lapa da Cerca Grande, o Iphan registra uma visita em 1837, quando Lund encontrou restos de muitos animais extintos do período Pleistoceno.

Esse detalhe coloca o município mineiro dentro de uma história científica iniciada muito antes da arqueologia se consolidar como disciplina acadêmica no Brasil. As formações calcárias conservaram evidências que permitem observar, no mesmo território, mudanças ambientais, fauna desaparecida e presença humana antiga. O próprio IEF apresenta essa região cárstica como um dos berços brasileiros da arqueologia, paleontologia e espeleologia, três campos que ajudam a interpretar camadas diferentes do passado preservado nas rochas e nos abrigos.

Cerca Grande reúne fósseis e cerca de 100 desenhos rupestres

O maciço calcário não guarda somente fósseis. Segundo o Iphan, uma das grutas possui cerca de 100 desenhos rupestres, com representações de cenas de caça e animais da região. O conjunto aproxima dois registros distintos do passado, os vestígios paleontológicos associados à fauna do Pleistoceno e as expressões produzidas por grupos humanos que ocuparam a paisagem em períodos posteriores.

O Instituto Estadual de Florestas (IEF) destaca o Rochedo dos Índios como o sítio arqueológico com o maior painel de pinturas rupestres do circuito educativo do parque. Desde 2017, a unidade desenvolve o projeto “Uma viagem à pré-história” com estudantes, combinando atividades escolares e campo. A proposta usa os sítios para explicar antigas ocupações humanas, alimentação, instrumentos e formas de expressão registradas nas paredes rochosas.

Um município a menos de 50 quilômetros de uma capital guarda cavernas onde um dos pioneiros da arqueologia brasileira encontrou restos de animais extintos em 1837, e em 2026 moradores passaram a fazer visitas guiadas por esse cenário pré-histórico
Grutas calcárias preservam vestígios paleontológicos e dezenas de pinturas rupestres pré-coloniais – Créditos: Wikimedia Commons

O que torna esse sítio raro em Matozinhos?

A singularidade está também na proteção oficial. A Lapa da Cerca Grande foi inscrita pelo Iphan, em 1962, no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. O IEF informa que o parque abriga o único sítio arqueológico de Minas Gerais tombado pelo órgão federal em nível nacional. Essa condição ganha destaque em um estado que reúne numerosos registros arqueológicos pré-coloniais e uma longa tradição de pesquisas em cavernas.

O Parque Estadual Cerca Grande foi criado pelo Decreto Estadual nº 45.398, de 14 de junho de 2010, e possui 134,1915 hectares, conforme o IEF. Em 2020, o plano de manejo da unidade recebeu aprovação, estabelecendo diretrizes para proteção, gestão e usos compatíveis com seus valores naturais e histórico-culturais. A área integra a APA Carste de Lagoa Santa, onde afloramentos calcários, vegetação associada às rochas e sítios arqueológicos aparecem próximos uns dos outros.

Em 2026 moradores passaram a conhecer a área em visitas guiadas

TipoFoco
ArqueológicoPinturas rupestres, abrigos e vestígios de ocupações humanas antigas.
PaleontológicoRestos de animais extintos do Pleistoceno pesquisados desde o século XIX.

Em junho de 2026, a Prefeitura registrou visitas destinadas à comunidade no Parque Estadual Cerca Grande. As primeiras datas anunciadas foram 10 e 17 de junho, e a chamada municipal informou 22 vagas. Durante a atividade, os participantes percorreram aproximadamente 3 km em uma caminhada conduzida por representantes do IEF. O trajeto abordou fauna, flora, conservação ambiental e patrimônio arqueológico, aproximando moradores de um espaço com acesso controlado.

A Prefeitura de Matozinhos informa que o parque fica em área privada e exige autorização e acompanhamento da equipe do IEF. A comunidade pode participar do projeto Comunidade no Parque mediante agendamento, enquanto escolas, instituições de ensino e pesquisadores podem solicitar atividades educativas diretamente à equipe responsável. Portanto, a iniciativa não representa abertura irrestrita ao turismo, mas uma forma organizada de contato com o patrimônio protegido.

Uma pré-história ao lado da capital

Matozinhos mostra como uma paisagem aparentemente próxima da vida metropolitana pode guardar capítulos profundos da história natural e humana. A apenas 47 km da capital mineira, segundo a Prefeitura, o município reúne cavernas estudadas por Peter Lund, fósseis de fauna extinta, arte rupestre e um sítio protegido nacionalmente. A visita controlada ajuda a preservar justamente aquilo que torna esse conjunto raro. Para quem gosta de arqueologia, é daqueles lugares que mudam a escala do tempo e merecem ser conhecidos com respeito às regras de conservação.

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Tags: arqueologiacidadesturismo
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