Entre manguezais, canais e ilhas do litoral sul paulista, Cananéia guarda uma paisagem que também funciona como arquivo humano. Registros oficiais apontam 100 sítios arqueológicos no município. Pesquisas identificam sambaquis com vestígios que recuam a quase 8 mil anos, muito antes da formação da cidade colonial.
Por que Cananéia concentra tantos sítios arqueológicos?
A resposta começa na própria geografia costeira. Manguezais, ilhas, rios e ambientes protegidos ofereceram recursos abundantes a grupos que viveram junto à água durante milênios. Um levantamento estadual baseado no cadastro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) contabiliza 100 sítios no município. Grande parte corresponde a sambaquis, berbigueiras e concheiros.
O quadro aparece em documento do Governo do Estado de São Paulo. O levantamento coloca Cananéia entre os municípios paulistas com maior número de registros arqueológicos. A tabulação estadual de 2020 classificou 97 registros conjuntamente como sambaqui, berbigueiro e concheiro, além de outro identificado apenas como sambaqui. Esses montes não são simples depósitos naturais. Eles preservam restos de alimentação, carapaças, carvão e outros vestígios capazes de reconstruir modos de vida antigos.
Montes de conchas guardam quase 8 mil anos de ocupação
Os sambaquis mostram que a presença humana nessa costa antecede em milhares de anos a chegada portuguesa. Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) identificou oito sambaquis com vestígios arqueológicos submersos nos manguezais de Cananéia. As datações analisadas remetem a ocupação sambaquieira local a uma antiguidade de quase 8 mil anos.
O mar também ajuda a explicar por que parte desse patrimônio ficou escondida. O estudo relaciona a distribuição e a preservação dos sítios às oscilações do nível marinho ao longo do Holoceno. Em alguns casos, estruturas ficaram submersas ou cobertas por sedimentos costeiros. A caracterização estadual também cita estimativa de que cerca de 25% dos sambaquis da região Cananéia-Iguape permaneciam intactos. O Iphan protege desde 1955 o Sambaqui da Barra do Rio Itapitangui. O sítio é formado por carapaças de moluscos e associado a antigos grupos de coletores e pescadores.

O que visitar entre patrimônio e Mata Atlântica?
O roteiro funciona melhor quando o visitante combina memória arqueológica, paisagem histórica e natureza protegida. A arqueologia não aparece como atração isolada, mas como parte de um território moldado por água, ocupações humanas e conservação ambiental.
Há experiências oficiais que ajudam a ler essas camadas sem transformar os sítios em cenário de exploração. O ideal é respeitar áreas protegidas, seguir orientações locais e priorizar percursos estruturados para visitação.
- Centro Histórico: o conjunto urbano foi protegido pelo estado em 1969, com revisão do tombamento em 2017. O casario ajuda a perceber a camada colonial e pós-colonial da cidade.
- Parque Estadual da Ilha do Cardoso: reúne Mata Atlântica, manguezais, praias, comunidades tradicionais e trilhas. Os núcleos de visitação dependem de transporte náutico.
- Núcleo Perequê: oferece trilhas monitoradas, uma passarela suspensa de 600 metros sobre manguezal, observação de fauna e roteiros de caiaque ou stand-up paddle.
- Núcleo Marujá: combina comunidade caiçara, praia, trilhas e roteiros náuticos. Há percurso monitorado de caiaque ou stand-up paddle entre 2 e 3 km.
- Sambaqui do Itapitangui: o bem tombado pelo Iphan permanece como referência central para compreender a antiguidade da ocupação costeira.
Como chegar e organizar o passeio?
De São Paulo, a distância informada pela Secretaria de Turismo estadual é de aproximadamente 272 km. O acesso regional usa a BR-116 e a SP-226, que liga a rodovia federal à região de Pariquera-Açu e Cananéia. Dentro do município, parte importante dos passeios muda de modal, porque canais e ilhas tornam o barco essencial.
Para o Parque Estadual da Ilha do Cardoso, a própria gestão informa que os núcleos de visitação dependem de transporte náutico. Grupos organizados e períodos de maior procura pedem planejamento prévio. Trilhas específicas podem exigir monitoria obrigatória, portanto convém confirmar horários, condições e regras antes do deslocamento.
Cananéia merece tempo
Cananéia permite enxergar o litoral como uma sequência de tempos sobrepostos, dos sambaquis milenares ao casario histórico e às áreas protegidas atuais. A viagem ganha mais sentido quando o visitante entende que conchas, manguezais e canais também são documentos. Se puder, reserve mais de um dia e combine história com natureza sem pressa, deixando a paisagem explicar cada mudança de tempo.
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