No Serrote do Letreiro, no sertão da Paraíba, desenhos feitos por antigos habitantes aparecem próximos de pegadas fossilizadas de dinossauros. Em alguns pontos, a distância entre as marcas chega a apenas dez centímetros. Essa vizinhança, separada por milhões de anos, levantou uma pergunta importante: o que aquelas pessoas perceberam nas marcas antes de gravar a rocha?
Onde ficam as pegadas de dinossauros e gravuras do Serrote do Letreiro?
O Serrote do Letreiro fica na zona rural de Sousa, aproximadamente onze quilômetros distante do centro urbano, entre afloramentos rochosos da Caatinga. Ali, três grandes superfícies de pedra somam mais de quinze mil metros quadrados e preservam registros produzidos em épocas profundamente diferentes. Por isso, o lugar reúne duas linhas de investigação, uma sobre animais extintos e outra sobre antigas comunidades humanas daquela região nordestina.
As pegadas de dinossauros pertencem ao Cretáceo Inferior, enquanto as gravuras surgiram muitos milhões de anos depois, quando grupos humanos ocupavam aquele território. Os pesquisadores identificaram rastros associados a terópodes, saurópodes e ornitópodes, animais com características corporais e formas de locomoção diferentes entre si. Em 2024, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) atualizou o cadastro do sítio para orientar iniciativas futuras de preservação.
Por que a posição das gravuras chamou atenção dos arqueólogos?

A proximidade não envolve apenas desenhos espalhados pelo terreno, pois alguns aparecem a dez centímetros das impressões deixadas pelos animais na pedra do sertão. No afloramento situado mais ao norte, os pesquisadores observaram sobretudo círculos divididos por linhas, além de outras formas que lembram grades. Entretanto, o levantamento não encontrou gravuras atravessando as pegadas fossilizadas, nem sinais de que os autores dos desenhos tenham danificado aqueles rastros.
Essa distribuição sustenta a hipótese de que as pessoas perceberam as marcas antigas e escolheram intencionalmente lugares próximos para realizar suas próprias intervenções. Os desenhos resultaram de técnicas como raspagem e picoteamento, processos que produzem sulcos e pequenos impactos sucessivos na superfície rochosa. Assim, a análise combina distância, posição e características físicas das inscrições, em vez de transformar uma semelhança visual isolada em explicação definitiva sobre seus autores.
O que as marcas permitem investigar sobre os povos antigos?
A pesquisa sugere que os antigos habitantes reconheceram aquelas depressões como possíveis pegadas, embora não soubessem da existência de dinossauros como a ciência atual. Algumas marcas de três dedos lembram rastros de emas, aves presentes na região, e oferecem uma comparação plausível para a interpretação dos vestígios. Contudo, os cientistas não conseguem demonstrar que determinada gravura representa um dinossauro, uma ave ou qualquer personagem conhecido pelos responsáveis pelos desenhos.
Também não existe uma datação absoluta para a execução das gravuras do Serrote do Letreiro, portanto sua antiguidade precisa ser tratada com cautela. A equipe comparou os motivos com sítios da Paraíba e do Rio Grande do Norte, onde há tradições gráficas semelhantes e registros datados. Segundo o estudo original publicado na Scientific Reports em 2024, essas comparações ajudam a formular hipóteses, sem datar nem interpretar definitivamente as gravuras.
Como os cientistas estudaram o local e quais são os riscos à preservação?

Em 2023, a equipe percorreu os afloramentos, registrou marcas em fotografias e utilizou drone para documentar a distribuição dos vestígios. Os pesquisadores produziram imagens detalhadas e montagens digitais para comparar desenhos pouco visíveis com a posição das pegadas, sem realizar escavações subterrâneas na campanha. Desse modo, o estudo apresentou um registro de superfície que ajuda a examinar relações espaciais, mas não resolve sozinho perguntas sobre autoria e cronologia.
A preservação preocupa porque erosão, desprendimento de camadas rochosas, marcas de animais e resíduos de visitantes já afetam diferentes trechos do sítio arqueológico. Por isso, o estudo propôs sinalização, controle de circulação, drenagem e réplicas tridimensionais como possibilidades de proteção e documentação para pesquisas futuras. O Iphan também destacou a importância do cadastramento e do monitoramento, mas essas recomendações não significam que todas as intervenções propostas tenham ocorrido.
As marcas antigas ainda fazem perguntas ao presente
O Serrote do Letreiro mostra que comunidades humanas observaram uma paisagem marcada por seres que viveram muito antes delas. Entretanto, a proximidade entre os desenhos e as pegadas não revela automaticamente suas crenças, intenções ou explicações para aqueles vestígios. Ao conhecer essa história, observe como os pequenos detalhes de uma paisagem podem abrir novas perguntas sobre a experiência humana no passado.
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