Facebook falhou em proteger direitos civis, afirma auditoria interna

Um documento com quase 100 páginas, resultado de dois anos de análise das atividades na rede social, constatou que o Facebook não fez o suficiente para combater a descriminação na plataforma

Renato Mota 08/07/2020 13h07
Facebook
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Uma consultoria independente, contratada pelo próprio Facebook, constatou que a rede social não fez o suficiente para combater a discriminação em sua plataforma, além de ter feito escolhas que se tornaram "reveses significativos para os direitos civis". O relatório de 89 páginas foi divulgado pela empresa nesta quarta-feira (8).


"Muitos na comunidade de direitos civis ficaram desanimados, frustrados e irritados após anos implorando à empresa que fizesse mais para promover a igualdade e combater a discriminação, além de proteger a liberdade de expressão", escreveram as advogadas especialistas em direitos civis Laura W. Murphy e Megan Cacace, autoras do relatório.

Entre os problemas apontados está a escolha do Facebook em liberar várias postagens do presidente Donald Trump, incluindo três em maio que as auditoras disseram "violar claramente" as políticas da empresa que proíbem discursos de ódio e incitação à violência. Em algumas decisões, a empresa não procurou especialistas em direitos civis, disseram as auditoras após analisar atividades por dois anos, potencialmente estabelecendo um precedente "terrível" que poderia afetar as eleições gerais de novembro e outros problemas de discurso.

De uma maneira geral, o relatório afirma que o Facebook está muito disposto a isentar os políticos de cumprirem suas regras, permitindo que eles espalhem informações erradas e uma retórica divisória. "Elevar a liberdade de expressão é uma coisa boa, mas deve ser aplicada a todos", escreveram as auditoras. "Quando isso significa que políticos poderosos não precisam obedecer às mesmas regras que todos os outros, é criada uma hierarquia de discurso que privilegia certas vozes em detrimento de vozes menos poderosas".

O Facebook está sendo muito pressionado por permitir que discursos de ódio, informações erradas e outros conteúdos que possam ir contra os direitos civis. Mais de mil marcas concordaram em interromper seus gastos na plataforma como resposta à inação da empresa, que diferente dos rivais Twitter, Snapchat e Reddit, reforça que não tomará medidas porque acredita na liberdade de expressão.

Os executivos do Facebook já haviam apontado essa auditoria como um sinal de que a empresa estava levando à sério as críticas. A diretora de operações, Sheryl Sandberg, afirmou em uma postagem no blog da empresa, em resposta ao relatório, que o documento era "o começo da jornada", não o fim. "O que ficou cada vez mais claro é que temos um longo caminho a percorrer. Por mais difícil que tenha sido expor nossas deficiências por especialistas, sem dúvida foi um processo realmente importante para nossa empresa", afirmou a executiva.

"Ser uma plataforma em que todos possam fazer ouvir a sua voz é essencial para a nossa missão, mas isso não significa que é aceitável que as pessoas espalhem ódio. Não é ”, escreveu Sandberg. "Temos políticas claras contra o ódio - e nos esforçamos constantemente para melhorar e acelerar a aplicação delas", completou.

Nem tudo são críticas. As auditoras comentam que o Facebook avançou em algumas questões, incluindo o aumento da contratação de especialistas internos em direitos civis nos últimos dois anos. O CEO Mark Zuckerberg também se comprometeu pessoalmente a criar produtos que "promovam a justiça racial", afirmou o relatório.

Em uma série de recomendações, o relatório pede que a empresa monte uma infraestrutura de direitos civis mais robusta e reveja a aplicação das suas políticas, incluindo "ações mais concretas e compromissos específicos para lidar com questões de viés ou discriminação algorítmica".

Via: New York Times/Washington Post

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