Pesquisa brasileira encontra primeiro anfíbio com mordida venenosa

Cobras-cegas, ou cecílias, possuem glândulas associadas aos dentes que, quando comprimidas, liberam uma secreção contendo uma enzima comum ao veneno de abelhas, vespas e serpentes

Renato Mota, editado por Liliane Nakagawa 03/07/2020 17h07
Siphonops annulatus
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Pesquisadores do Instituto Butantan e da Universidade de Utah (USU), nos Estados Unidos, encontraram a primeira evidência conhecida de glândulas de veneno oral em anfíbios. O estudo que descreve a descoberta foi publicado na iScience e recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).


O animal em questão, chamado cientificamente de Siphonops annulatus, também conhecido cecília ou cobra-cega, possui glândulas associadas aos dentes que, quando comprimidas durante a mordida, liberam uma secreção que penetra nos ferimentos causados nas presas.

"Pensamos em anfíbios - rãs, sapos e similares - como basicamente inofensivos", afirma o, professor emérito do Departamento de Biologia da USU, Edmund Brodie. "Sabemos que vários anfíbios armazenam secreções venenosas e desagradáveis na pele para impedir predadores. Mas encontrar pelo menos um pode causar envenenamento pela mordida é extraordinário", completa.

As cobras-cegas vivem em ambientes subterrâneos, e comem minhocas, larvas de insetos, pequenos anfíbios, serpentes e filhotes de roedores. "Estávamos analisando as glândulas de muco que o animal tem na pele da cabeça, para abrir caminho debaixo da terra, quando nos deparamos com essas estruturas. Elas se posicionam na base dos dentes e se desenvolvem a partir do mesmo tecido que lhes dá origem, a lâmina dental, assim como ocorre com as glândulas de peçonha das serpentes", conta Pedro Luiz Mailho-Fontana, coautor do estudo.

Nem cobras, nem vermes, esses animais são parentes dos sapos e das salamandras, e são encontrados em climas tropicais da África, Ásia e Américas. Alguns são aquáticos e outros, como o estudado pelos pesquisadores, vivem em tocas. Em 2018, a equipe relatou que a espécie secretava substâncias venenosas das glândulas da pele nas duas extremidades do corpo.

A partir da cabeça e estendendo-se pelo comprimento do corpo, a criatura emite um lubrificante mucoso que permite mergulhar rapidamente no subsolo para escapar dos predadores. Na cauda,  cobras-cegas possuem glândulas com toxina, que atua como uma última linha de defesa, bloqueando o túnel contra predadores.

Carlos Jared/Agência Fapesp

Maxilar de uma cobra-cega mostra glândulas que expelem secreção provavelmente peçonhenta. Imagem: Carlos Jared/Agência Fapesp

"O que não sabíamos é que esses animais têm pequenas glândulas cheias de líquido venenoso na mandíbula superior e inferior, com longos dutos que se abrem na base de cada dente ", afirma Brodie. O cientista brasileiro descobriu que a origem das toxinas é diferente. "As glândulas venenosas da pele se formam a partir da epiderme, mas essas glândulas orais se desenvolvem a partir do tecido dental - e essa é a mesma origem de desenvolvimento que encontramos nas glândulas venenosas dos répteis", afirma Pedro Luiz Mailho-Fontana.

Análises iniciais indicam que secreção liberada durante a mordida contém fosfolipase A2, uma enzima bastante comum no veneno de animais como abelhas, vespas e serpentes. "Se pudermos verificar se as secreções são tóxicas, essas glândulas podem indicar um projeto evolutivo precoce dos órgãos de veneno oral", avalia Brodie. "Eles podem ter evoluído nesses animais mais cedo do que em cobras".

Via: EurekAlert/Agência Fapesp

Ciência biologia fapesp
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