Pixel de lado

Testamos o Pixel: celular Android do jeito que o Google (e a gente) gosta

Gustavo Sumares 21/11/2016 17h11
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Em uma recente viagem a Londres, o Olhar Digital teve a oportunidade de adquirir um Pixel, o primeiro smartphone fabricado pelo Google. As expectativas em torno do dispositivo eram imensas, por conta dele marcar a entrada da gigante das buscas nesse mercado tão acirrado, e nós queríamos saber se o aparelho estava à altura do que se esperava dele.


Após passar um bom tempo com ele, pudemos concluir que, de fato, o Pixel é um smartphone excelente. O fato de ele ter sido fabricado pela mesma empresa que faz o Android torna ele super rápido e simples de se usar, e mostra que o Android pode fornecer uma experiência de uso tão interessante - ou mais - que o combo iPhone e iOS.

E não é esse o seu único mérito: o aparelho ainda tem alguns recursos, como o assistente do Google e uma câmera excelente, que elevam a barra para outros aparelhos Android que queiram competir com ele. Veja abaixo tudo que nós achamos do Pixel:

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Design

Vamos começar pela parte chata: o design do Pixel. O modelo que adquirimos era da cor “Quite Black” e, de fato ele era bem preto. Ele tem um peso suficiente para demonstrar que é feito de metal, e no geral tem um aspecto bem firme, bonito e resistente. Ele é agradável de se olhar, mas não tem aquele aspecto impressionante e chamativo que os novos iPhones ou o Galaxy S7 Edge têm.

Em contrapartida, ele tem três pontos negativos bem claros em seu design. O primeiro deles é um enorme “beiço” inferior: debaixo da tela, tem um espação de cerca de um dedo de comprimento que não serve para absolutamente nada. Nos Galaxys, esse é o espaço onde ficam os botões; aqui, não tem nada mesmo. Talvez ele seja necessário porque o alto-falante do aparelho fica do lado de baixo, o que nos leva ao segundo ponto negativo.

O Pixel só tem um alto-falante, na parte debaixo. É decepcionante que um dispositivo top de linha não tenha som estéreo - ainda mais porque dava pra aproveitar o alto-falante superior para isso também - mas o Pixel infelizmente não por aí. Esse alto-falante fica numa posição em que é muito fácil tapá-lo sem querer.

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Se você é destro, você com certeza vai tapar o alto-falante da primeira vez que você virar o Pixel de lado para ver um vídeo (e provavelmente vai fazer isso muitas outras vezes sem querer). Fora isso, o som dele não é grande coisa. Mas até aí, se você faz questão de ouvir som de boa qualidade, você provavelmente vai usar fones de ouvido ou uma caixinha de som bluetooth. Você só vai perceber a inconveniência desse alto-falante quando estiver sem nenhuma dessas duas opções.

Por último, há o fato de que a parte traseira do Pixel tem um painel de vidro em seu terço superior, em torno do leitor biométrico. Não parece haver muito motivo para esse vidro estar lá, e ele acaba sendo um ponto frágil a mais no aparelho. Mas ele pelo menos tem a vantagem de proteger a lente da câmera traseira e de facilitar que você sinta qual é o lado superior do dispositivo sem precisar olhar para ele, o que é útil quando você vai pescá-lo do bolso ou da bolsa.

Esses probleminhas fazem do Pixel um aparelho ruim? Não, de jeito nenhum. Mas para um dispositivo que pretende ser o melhor smartphone que o dinheiro (bastante dinheiro, aliás) pode comprar, elas ficam como pontos negativos. No mercado de smartphones Android, o Google concorre por exemplo com a Samsung, que já se destaca há algum tempo por oferecer aparelhos com design muito arrojado, e precisa se esforçar para se equiparar a esse nível.

Software

Se o Android tem uma desvantagem enorme em relação ao iOS, é o número de aparelhos que o utilizam. Enquanto o iOS é exclusivo dos iPhones e da Apple, o Android é usado por milhares de smartphones e tablets de dúzias de marcas diferentes. Por isso, o sistema operacional acaba tendo que nivelar por baixo os seus recursos.

Para o Pixel, no entanto, o Google resolveu deixar de lado essa preocupação e fez logo uma versão do Android otimizada para ele, que foi até mesmo disponibilizada na Play Store como Pixel Launcher. As diferenças são pequenas, mas notáveis.

Usabilidade

Uma característica muito boa que o Pixel herdou dos Nexus é o sensor biométrico na parte traseira. Ele funciona excepcionalmente bem, e consegue identificar seu dedo mesmo que você esteja suado ou tenha acabado de comer uma coxinha sem guardanapo (eu fiz isso apenas por motivos de teste e não recomendo que você repita a experiência). Assim, você consegue tirar o aparelho do bolso ou bolsa já com a tela destravada.

Em vez de uma barra de buscas do Google, a tela inicial tem em sua parte superior apenas um logo do Google no canto esquerdo. Basta cutucar o logo para que a barra de busca apareça. Para acessar a sua “gaveta de aplicativos”, não é mais necessário apertar um botão - basta deslizar para cima na tela inicial.

Além disso, o Pixel já tem o aplicativo Wallpapers embutido: com um toque longo na tela inicial, é possível acessá-lo. Ele contém uma série de papeis de parede exclusivos do Pixel chamados de Live Earth que são bem legais. Todos eles são imagens renderizadas em 3D a partir de fotos do Google Earth, incluindo um que mostra o seu local no planeta Terra - em tempo real.

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Esses detalhes, por menores que sejam, ajudam a destacar o Pixel dos demais dispositivos Android de uma maneira muito positiva. Graças a eles, a experiência de uso do Android no aparelho se torna extremamente fluida e intuitiva, comparável à experiência de uso do iOS em um iPhone. Esse é o principal ponto de reclamação de quem troca da Apple para o Google, então o fato de que o Pixel acerta nessa parte é muito positivo.

Google Assistant

Mas a principal diferença do Pixel para os outros aparelhos Android é a Google Assistant. Esse recurso é uma mistura dos comandos por voz “OK Google” com o assistente do Google que já aparecia no aplicativo Allo, mas é muito mais sofisticado que os dois. Basicamente, é a Siri ou a Cortana do Google, mas infelizmente por enquanto ela ainda não fala português. Por isso, ela só vai aparecer se você configurar o Android para inglês; em português, o comando para acioná-la (segurar o botão do meio) apenas ativa o Google Now on Tap.

Falando em inglês com ela, é possível fazer basicamente tudo que a Siri e que a Cortana fazem, desde contar piadas até marcar compromissos, alterar configurações do aparelho, abrir aplicativos e fazer buscas. O sistema de detecção de fala da Assistant é estarrecedor: mesmo que você assassine a pronúncia de algumas palavras e nomes em inglês, ela entende o que você quer dizer, e consegue realizar o que você pede.

Por outro lado, recursos que exigem palavras em português não funcionam direito. Se você pedir para ela achar a letra de “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana, ela acha; peça para ela achar a letra de “Sina” do Djavan, porém, e ela não vai entender nada do que você falou. Com filmes, é a mesma coisa: ela não vai ser capaz de te dizer onde assistir “Abdias, um Brasileiro do Mundo” porque ela não vai ter a menor ideia de que filme é esse.

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Mas em inglês, a assistente impressiona. Ela pode parecer apenas um recurso ilustrativo, mas não é: a Assistant tem o potencial de mudar a forma como você usa seu celular. Um exemplo: configuração de despertador. Como eu não acordo sempre no mesmo horário, eu configuro meu despertador toda noite antes de dormir. Esse processo envolve abrir o aplicativo mudar a hora. Em vez disso, eu posso simplesmente chamar a Assistant e dizer “wake me up at 7” e pronto.

Não dá pra usar ela para fazer tudo, especialmente por ela ainda não falar português. Mas nos casos em que dá pra usar ela, é mais rápido usar ela do que fazer qualquer outra coisa. Infelizmente, deve levar ainda um bom tempo até que a Assistant aprenda português, já que o Google não disse nada sobre trazer o Pixel para cá. Mas mesmo em inglês, ela já é muito interessante (e em último caso ela serve como incentivo para você treinar a língua).

Performance

No uso cotidiano, o Pixel funciona de forma extremamente fluida com qualquer aplicativo ou jogo que você instale nele. A título de comparação, no entanto, fizemos alguns testes de benchmark com ele para compará-lo com outros dispositivos. O resultado, como nosso período de uso levou a esperar, foi que o Pixel se saiu muito bem.

No Geekbench 4, por exemplo, ele consegue pontuações semelhantes às do Galaxy S7, S7 Edge e Note 7, que são alguns dos Androids mais rápidos do mundo. No Antutu, por sua vez, ele fica à frente do Galaxy S7 Edge e dos iPhones 6s e SE, embora perca para alguns Androids chineses e para os iPhones 7 e 7 Plus, atuais campeões do Antutu. No teste “Sling Shot” do 3DMark, finalmente, o Pixel obteve uma pontuação de 2240, o que é um resultado excelente.

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Essas pontuações são de interesse mais restrito aos entusiastas de performance. Para usuários comuns, no entanto, basta saber que o Snapdragon 821 e os 4GB de RAM do Pixel nunca nos deixaram na mão. Você pode abrir quantos aplicativos quiser que eles continuam funcionando bem, e eu mesmo, que costumo ter neurose contra deixar muitos aplicativos abertos ao mesmo tempo, me peguei deixando umas 15 coisas funcionando juntas sem perceber nenhuma piora na performance.

Display

Com 5 polegadas e resolução Full HD (1080 por 1920 píxels), a tela do Pixel não tem nada de incrivel em teoria. Na prática, ela também não tem nada de inacreditavelmente maravilhoso, mas ela é extremamente funcional e agradável de se olhar.

A tela do iPhone 6s, por exemplo, parece quase pular para fora do aparelho, e pode ser vista com perfeição de praticamente qualquer ângulo. A do Pixel não é tão chamativa assim, mas também não chega a ser daquelas telas chatas que você tem que colocar em um ângulo muito específico para ver com boa imagem.

Nem de longe, aliás. O display do aparelho reproduz cores com uma vivacidade impressionante. A tela AMOLED dele consegue mostrar uns pretos incrivelmente profundos, e cores mais quentes como rosa, vermelho e laranja ficam quase saturadas demais. A tela é boa o suficiente para te dar vontade de assistir de novo os vídeos que você já viu em outras telas, o que me parece o melhor indicador possível de sua qualidade.

E se o fato de ela não ter resolução 2K (como o Pixel XL) lhe parecer um fator negativo, não se preocupe: com uma densidade de 441 DPI (pixels por polegada), você pode enfiar a sua cara no meio da tela que nem assim você vai conseguir discernir os pixels de uma imagem Full HD.

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Câmera

O Google torrou a paciência de todo mundo quando anunciou o Pixel dizendo que a câmera dele era a melhor câmera já colocada em um smartphone (de acordo com as respeitáveis medições do DxOMark). É natural, portanto, que estivéssemos curiosos para saber se isso é verdade, e então saímos tirando um monte de fotos e concluímos que se ela não for a melhor, com certeza é uma das melhores.

A genialidade dessa câmera está em duas coisas: pixels enormes e um obturador incrivelmente rápido. Cada pixel do sensor de 12,3MP da câmera traseira do dispositivo mede 1,55 micrômetros; os da câmera do Galaxy S7 Edge, por comparação, medem 1,4 micrômetros. O tamanho maior de cada pixel significa que cada um deles consegue capturar mais luz, o que melhora o desempenho do aparelho em condições de pouca luminosidade e permite uma representação mais fiel das cores.

O obturador dela, por sua vez, é ainda mais impressionante: basta você pensar em cutuvar o botão da câmera que ele tira uma foto. Se você bobear e deixar o seu dedo em cima do botão um pouco mais que o necessário, ele tira logo 4 ou 5 fotos de uma vez. Uma das utilidades disso é fazer GIFs: segure por um segundo o botão da câmera em uma cena em movimento que ela tira umas 10 fotos da cena; em seguida, o Google Photos se encarrega de transformar essas 10 fotos sequenciais em uma animação.

Mas esse nem é o uso mais interessante do obturador-relâmpago. O principal uso dele é permitir o que o Google chama de HDR+. Normalmente, a técnica HDR faz com que a câmera tire várias fotos com níveis diferentes de exposição e combine as partes mais detalhadas de cada uma. Graças ao obturador rápido e ao Snapdragon 821, porém, o Pixel consegue tirar todas essas fotos praticamente ao mesmo tempo, e processá-las rapidamente.

Isso significa que mesmo que você esteja na situação de luz mais bizarra possível (por exemplo, tirando foto do seu amigo ao lado de um abajur em uma sala escura), a câmera do Pixel consegue dar um jeito de deixar aquela foto bonita. O software da câmera parece dar uma ressaltada nas cores em vez de tentar reproduzí-las da maneira mais fiel possível, mas isso me pareceu bom: até a pia da sua cozinha parece ficar mais bonita sob as lentes dessa câmera. Veja abaixo:

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Bateria

Em termos de bateria, o Pixel é competente, mas não impressiona como o Moto Z, por exemplo. Imagine um dia normal: você acorda, pega metrô/ônibus até o trabalho, trabalha até de tarde, dá aquela olhada nas redes sociais, volta ao trabalho, sai do trabalho e pega metrô/ônibus de volta para casa. Num dia como esse, você consegue tranquilamente chegar em casa com uns 30% de bateria sobrando, mesmo que você vá ouvindo música e jogando joguinhos na ida e na volta de transporte público.

Agora, se você pretende sair do trabalho e emendar algum rolê numa sexta-feira, por exemplo, poderá ser necessário economizar um pouco ou dar uma carga extra nele antes de sair do trabalho. Se não, pode não sobrar bateria para você chamar o Uber (ou conferir se o seu ônibus ainda está passando) no fim do seu rolê. O Pixel tem um modo de economia de bateria que ajuda bastante, mas não resolve de todo o problema.

Pra compensar, há o fato de que o Pixel carrega muito rápido quando está sem bateria. Você consegue carregar uns 40% da bateria dele em 15 minutos mais ou menos, Então se você estiver com o carregador, basta espetar ele em alguma tomada, esperar um pouquinho e pronto: você já tem mais algumas horas de uso do dispositivo.

Por outro lado, há o fato de que o Pixel tem conexão USB-C. USB-C pode até ser o padrão de USB do futuro, mas ele ainda não é o padrão do presente: você dificilmente encontra cabos ou carregadores desse tipo por aí. Por isso, se você não tiver o seu carregador com você, você dificilmente vai encontrar outro por aí. Por mais que ela não impressione, porém, a bateria do Pixel não é de forma alguma um problema.

A bateria do Pixel tem 2770 mAh de capacidade; a do Pixel XL, por sua vez, tem 3450 mAh. Então embora o XL tenha tela maior e com resolução maior, você até poderia imaginar que a bateria dele duraria um pouco mais. Não parece ser o caso, no entanto: ao menos um teste de bateria sugeriu que a duração da bateria dos dois é muito semelhante, com a do aparelho menor ganhando por muito pouco. Mas isso não foi algo que pudemos conferir.

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Conclusão

A diferença entre o Pixel e os dispositivos Nexus que vieram antes dele não é só o nome: enquanto os Nexus buscavam ter preços mais atraentes, o Google Pixel começa em US$ 649 - o mesmo preço que o iPhone 7 de entrada. Isso por si só já é suficiente para indicar que a empresa pretende bater de frente com a Apple nesse mercado, e com o Pixel, ela consegue.

Com exceção dos tropecinhos de design marcados no começo, não há absolutamente nada no Pixel que não seja no mínimo satisfatório. Mas não é só isso: há diversas coisas nele que ou competem com o que há de melhor no mercado (a câmera) ou estão além de qualquer coisa que esteja disponível no mercado atualmente (a Google Assistant).

Se há um problema enorme com o Pixel, por enquanto, é conseguir um. Ele ainda não é vendido no Brasil, então você terá que pedir que algum amigo que for viajar para fora traga um para você (ou ir você mesmo). E, é claro, nesse caso você ainda tem que estar disposto a desembolsar US$ 650 no mínimo (uns R$ 2.178 na cotação de hoje, mas quem sabe o que vai acontecer com o dólar no futuro?).

Considere, no entanto, que nos EUA esse aparelho tem o mesmo preço que um iPhone 7, custa US$ 20 a menos que o Galaxy S7 e US$ 130 a menos que o Galaxy S7 Edge. Nessa perspectiva e com os recursos que oferece, o Pixel se mostra competitivo mesmo no disputado mercado de ponta em que ele atua. Mais do que apenas um aparelho legal, o Pixel é a promessa de que mais uma gigante da tecnologia entra no mercado de smartphones, possivelmente para ocupar um posto de inovação que a Apple há muito deixou para trás.


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