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Em junho de 1908, uma grande explosão na Sibéria, região russa localizada na Ásia Setentrional, provocou um impacto tão poderoso ao ponto de devastar uma área florestal de 2.150 quilômetros quadrados. Na época, testemunhas oculares disseram ter visto uma bola brilhante percorrendo o céu e relataram ter presenciado um ruído ensurdecedor.

Conhecido como “Evento de Tunguska“, o episódio foi associado à atividade de um bólido, isto é, um meteorito brilhante na forma de bola de fogo que atravessa a atmosfera terrestre e pode provocar ruídos e rastros luminosos. Embora não tenha resultado em crateras no solo, o fenômeno é reconhecido popularmente como o “maior impacto de meteoro já registrado”. 

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No entanto, mais de 100 anos depois, o evento ainda intriga cientistas. De acordo com o Science Alert, um novo trabalho de pesquisadores da Universidade da Sibéria afirma que o episódio misterioso pode ter sido provocado por um grande asteroide de ferro, que entrou na atmosfera terrestre e percorreu o planeta a uma altitude relativamente baixa, de forma que ele teria produzido uma onda de choque, responsável por devastar a superfície.

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Imagem de um bolide captada na Austrália em 24 de abril de 2011 (Foto: Wikicommons)

 

De acordo com os pesquisadores o fenômeno de Tunguska não “recebeu interpretações razoáveis e abrangentes até o momento” e os resultados obtidos pelo estudo ajudam a discutir este mistério de longa data na astronomia. “Argumentamos que o evento de Tunguska foi causado por um corpo de asteroide de ferro, que passou pela atmosfera da Terra e continuou até a órbita quase solar”, escreveu o grupo de cientistas liderados pelo astrônomo Daniil Khrennikov, da Universidade Federal da Sibéria, no artigo.

Metodologia

Para chegar a esta conclusão, o grupo usou modelos matemáticos para estudar as condições de asteroides de diferentes características no contexto do evento de Tunguska. “Nós estudamos as condições da passagem de asteroides na atmosfera terrestre com diâmetros de 200, 100 e 50 metros, compostos por três tipos de materiais – ferro, rocha e gelo -, considerando uma altitude de trajetória mínima na faixa de 10 a 15 quilômetros”, dizem os pesquisadores.

Segundo eles, a possibilidade do asteroide ser composto por gelo – uma hipótese defendida por cientistas russos em 1970 – é improcedente, uma vez que o calor gerado pela velocidade necessária para o asteroide percorrer a trajetória estimada pelos pesquisadores provocaria o derretimento total do corpo do meteoro, antes mesmo de ele atingir a distância sugerida por dados observacionais.

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Árvores caídas em decorrência do “Evento de Tunguska”. Imagem foi captada em 1929 (Foto: Domínio Público)

Quanto ao asteroide de corpo rochoso, o estudo aponta que o ar seria capaz de entrar no interior do meteoro por meio de pequenas fissuras. Isso levaria a um aumento de pressão durante a viagem em alta velocidade e, consequentemente, provocaria a explosão do meteorito.

Já corpos celestes de ferro apresentam resistências muito maiores à fragmentação, segundo os pesquisadores. Os cálculos da equipe estimam que o meteorito de ferro continha entre 100 e 200 metros de diâmetro e percorreu uma distância de três mil quilômetros pela atmosfera. O asteroide, além disso, não poderia viajar a uma velocidade abaixo de 11,2 km/s ou abaixo de 11 quilômetros de altitude.

Explicações

De acordo com pesquisadores, esse modelo explica algumas particularidade do evento de Tunguska. Por exemplo, a não ocorrência de uma cratera de impacto, uma vez que o meteorito passou rapidamente pelo epicentro da explosão sem cair em diretamente na crosta terrestre.

A ausência de abundância de ferro na região atingida é explicada pela velocidade elevada do meteorito. A teoria dos cientistas é que o objeto se movia em velocidades e temperaturas tão altas que não foi possível ejetar detritos.

Eles ainda argumentam que qualquer perda de massa do asteroide foi provocada pela sublimação – transformação do estado sólido para gasoso – de átomos de ferro individuais. “Com essa hipótese, podemos explicar efeitos ópticos associados ao grande volume de pó em camadas elevadas da atmosfera sobre a Europa, que causam um certo brilho no céu à noite”, disseram os pesquisadores.

Apesar dos argumentos, os próprios cientistas reconhecem que o trabalho apresenta certas fragilidades e são necessárias pesquisas futuras para confirmar suas evidências sobre o evento de Tunguska. Eles afirmam que o estudo ainda não abordou a formação da onda de choque a qual teria devastado até 80 milhões de árvores da floresta siberiana.

Fonte: Science Alert