A China apresentou novos detalhes de seu plano para realizar uma missão tripulada à Lua antes de 2030. A estratégia prevê o lançamento de dois foguetes, o encontro de duas espaçonaves na órbita lunar e uma equipe de três astronautas. Desse grupo, dois descerão à superfície do satélite natural para realizar atividades científicas.
O planejamento foi detalhado por Wang Xiang, vice-projetista-chefe do programa espacial tripulado chinês e responsável pelo projeto de exploração lunar, durante o 7º Simpósio de Voos Espaciais Tripulados, realizado em Pequim (China) entre 31 de outubro e 1º de novembro de 2026.
A arquitetura prevê o uso de dois foguetes Longa Marcha 10: um transportará a espaçonave tripulada Mengzhou, enquanto o outro levará o módulo de pouso lunar Lanyue. Depois de alcançarem a órbita da Lua, os dois veículos deverão se encontrar e acoplar. Os astronautas então passarão da Mengzhou para a Lanyue, que fará a descida até o solo lunar.
Dois foguetes e duas espaçonaves para chegar à Lua
A escolha por dois lançamentos separados está relacionada às capacidades dos foguetes chineses. Em vez de transportar todos os componentes da missão em um único veículo, o país pretende enviar a nave tripulada e o módulo de pouso separadamente.
A estratégia é conhecida como encontro em órbita lunar. Depois que os dois equipamentos chegarem ao entorno da Lua, será necessário realizar uma manobra de aproximação e acoplamento. Com a operação concluída, dois dos três integrantes da tripulação entrarão no módulo Lanyue para iniciar a descida.
O terceiro astronauta permanecerá na Mengzhou, que funcionará como veículo de transporte e retorno à Terra.
A arquitetura lembra a utilizada pelo programa Apollo, da NASA, nas décadas de 1960 e 1970. Naquela época, o módulo lunar também se separava da nave principal para levar astronautas até a superfície e depois retornava à órbita para o reencontro com a espaçonave.
Longa Marcha 10, Mengzhou e Lanyue: os equipamentos da missão
Três equipamentos serão fundamentais para a tentativa chinesa de chegar à Lua:
- Longa Marcha 10: foguete de grande porte que fará os dois lançamentos. A versão destinada à missão lunar terá três estágios e propulsores adicionais, com capacidade de transportar até 27 toneladas para a órbita de transferência lunar;
- Mengzhou: espaçonave tripulada que levará os astronautas até a órbita da Lua e será utilizada no retorno à Terra;
- Lanyue: módulo responsável por transportar dois integrantes da tripulação até a superfície lunar e depois levá-los de volta à órbita.
O nome Lanyue pode ser traduzido como algo próximo de “abraçar a Lua”. O projeto do módulo foi apresentado em 2023 e recebeu oficialmente essa denominação no ano seguinte.

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China planeja sequência de testes antes do pouso
A missão tripulada não será realizada sem uma série de verificações anteriores. Wang Xiang explicou que o programa seguirá uma estratégia gradual: primeiro, validar os equipamentos em missões próximas da Terra e, depois, avançar para operações no ambiente lunar.
O cronograma divulgado prevê diferentes etapas:
- Início de 2027: lançamento não tripulado do foguete Longa Marcha 10A com a espaçonave Mengzhou para testes em órbita baixa da Terra;
- 2028: teste não tripulado do Longa Marcha 10 em sua configuração lunar, acompanhado do módulo Lanyue. A demonstração deverá incluir operações de descida e decolagem da superfície;
- 2029: lançamento de duas espaçonaves não tripuladas, uma Mengzhou e uma Lanyue, para testar o encontro e o acoplamento na órbita lunar;
- Antes de 2030: realização da missão tripulada, com a descida de dois astronautas à superfície da Lua.
As datas representam o planejamento divulgado, não garantias de execução. A sequência foi apresentada em detalhes por autoridades chinesas.
Parte da preparação já avançou. A China realizou testes de escape da espaçonave Mengzhou em situações de emergência, uma demonstração de pouso e decolagem do módulo Lanyue e um teste de baixa altitude do foguete Longa Marcha 10.
A estratégia também prevê utilizar a estação espacial Tiangong, que fica na órbita baixa da Terra, para validar tecnologias e procedimentos antes de enviá-los à Lua.
China quer chegar à Lua antes de 2030
O cronograma coloca a China em disputa tecnológica e estratégica com os Estados Unidos, que também trabalham para levar astronautas novamente à superfície lunar.
O objetivo chinês é alcançar o satélite antes de 2030. A NASA, por sua vez, trabalha com arquitetura própria, baseada na espaçonave Orion e em módulos de pouso desenvolvidos por empresas privadas.
A competição vai além de repetir as missões Apollo. Os dois países também têm planos de estabelecer presença humana mais duradoura na região lunar.
No caso chinês, o projeto de longo prazo inclui a construção da Estação Internacional de Pesquisa Lunar, iniciativa que prevê a participação de parceiros internacionais. O início da construção está planejado para 2031, com a utilização futura do foguete superpesado Longa Marcha 9.
Por enquanto, a prioridade é demonstrar que todos os componentes da missão tripulada funcionam em conjunto. O encontro entre as espaçonaves, a descida do módulo lunar e o retorno dos astronautas à órbita estão entre as etapas mais complexas do projeto.
Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.