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Leonardo de Carvalho Leal e Mayara Stelle, ambos estudantes de direito de 22 anos. Estas são as verdadeiras identidades do casal criador da conta Sleeping Giants Brasil — conhecida por combater “discursos de ódio e notícias falsas” reproduzidas em sites brasileiros —, no Twitter.

Ameaçados com diversas mensagens como “Vou matar você” ou “Estou oferecendo R$ 100 mil reais pelo chefe do dono do perfil”, o casal decidiu divulgar suas identidades à Associated Press e à Folha de São Paulo, no último domingo (13), para proteger a integridade deles e de suas famílias.

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“Esta é uma decisão para proteger nossas famílias e controlar a exposição para mostrar que somos pessoas comuns, como qualquer pessoa que pode ter uma ideia. E essa ideia pode ser brilhante, pode mudar as coisas”, afirmou Stelle.

Criado em maio deste ano, o perfil do Sleeping Giants Brasil popularizou-se rapidamente nas redes, alcançando pouco mais de 400 mil seguidores em cerca de sete meses de existência. Seu objetivo? Denunciar fake news e discursos racistas, xenofóbicos e sexistas de empresas, minando as receitas publicitárias destes sites.

Leonardo de Carvalho Leal e Mayara Stelle
Criadores do Sleeping Giant Brasil decidem revelar suas identidades. Foto: Divulgação

Um de seus principais alvos foi o Jornal da Cidade Online, do sul do país. O site foi constantemente desmascarado por checagens de fatos e um relatório técnico apontou o veículo como um dos grandes propagadores de fake news do Brasil. Isso fez com que diversos anunciantes como Dell, McDonald’s, Facebook e Domino’s Pizza retirassem suas publicidades do jornal.

O veículo negou a divulgação de informações incorretas e no dia 4 de dezembro, publicou um editorial em resposta às acusações.

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“Os ataques covardes contra o Jornal da Cidade Online escondem pessoas, empresas e entidades que por certo agem na tentativa de querer instalar o radicalismo de esquerda no Brasil ou outros interesses ainda mais sórdidos”, disse o jornal.

Divulguem suas identidades!

Em agosto de 2020, uma juíza do Rio Grande do Sul determinou que o Twitter divulgasse os IPs e outros dados que permitissem a identificação dos responsáveis pela conta Sleeping Giants Brasil. Na época, o processo não caminhou, pelo fato de não serem apontadas quaisquer irregularidades.

Mas na última segunda-feira (14), o perfil do Sleeping Giants Brasil, no Facebook, afirmou que seus dados foram repassados pelo Twitter. Isso motivou-os a se exporem ao público “oficialmente”.

De acordo com Danilo Doneda, advogado especialista em proteção de dados, a liberdade de expressão é garantida aos brasileiros, mas a constituição proíbe o anonimato. Contudo, “o Twitter pode reunir os elementos, tecnicamente, para alcançar essas pessoas, então é um pseudônimo, não anonimato”, afirmou Doneda.

Mas divulgar suas identidades não é sinônimo de estar livre de ações judiciais.

O escritor J.P Cuenca teve sua conta banida após citar a frase “o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre” em um de seus tuítes.

Outros personagens como o cartunista Renato Aroeira e a jogadora de vôlei de praia Carol Solberg também foram repreendidos após exposições de desafeto ao atual presidente brasileiro.

Batalha intensificada desde 2018

O combate às fake news foi intensificado desde 2018, quando o então candidato à presidência, Jair Bolsonaro, foi acusado de esquematizar envios em massa de mensagens com notícias falsas. O WhatsApp chegou a admitir o disparo de mensagens ilegais naquele ano, mas nada foi feito.

Desde que assumiu como presidente, Bolsonaro trava uma batalha intensa contra a imprensa nacional, acusando-a de desinformar a população e propagar notícias falsas.

Curiosamente, foi o próprio presidente que se envolveu em polêmicas de fake news, como a divulgação do uso da cloroquina, o fim da corrupção no Brasil e a preservação da floresta amazônica, por exemplo.

Jair Bolsonaro recomendando cloroquina no combate ao coronavírus
Presidente recomendou diversas vezes o uso da cloroquina, mesmo sem estudos que comprovassem sua eficácia no combate ao coronavírus. Foto: Carolina Antunes/PR

Mesmo com o objetivo de combater as notícias falsas, o Sleeping Giants deveria ter fornecido maior transparência e buscado força em um lado do espectro político, afirmou Cristina Tardáguila, diretora associada da International Fact-Checking Network e fundadora da Agência Lupa.

“Havia uma certa ingenuidade em pensar que seriam carregados nos ombros do povo, mas os brasileiros são ultra-polarizados”, disse Tardáguila.

Justamente por conta dessa poralização partidária, há um receio de que a divulgação das identidades de Leal e Stelle traga ainda mais riscos ao casal.

No entanto, o espírito de combate às fake news do Sleeping Giants Brasil não demonstra indícios de que o perfil encerrará suas atividades tão cedo.

Via: Associated Press