As vacinas contra Covid-19 já estão em ampla distribuição, mas muitas coisas sobre elas ainda não são totalmente conhecidas, como, por exemplo, qual é o nível de proteção proporcionado aos idosos. No caso da CoronaVac, produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, um novo estudo demonstra uma boa resposta imunológica em pessoas com mais de 60 anos.

O estudo, publicado na revista The Lancet, reforça algumas declarações do Butantan sobre a resposta conferida entre os mais velhos. Dimas Covas, diretor do instituto, e o governador de São Paulo, João Doria, repetiram algumas vezes que a vacina produziu anticorpos em 98% das pessoas na faixa etária de mais de 60 anos, o que foi confirmado com a publicação do artigo.

publicidade

O ensaio em questão, no entanto, não avalia a eficácia da vacina. Os testes, de fase 1 e 2, visavam analisar a segurança da CoronaVac especificamente em idosos, confirmar uma dosagem ideal e analisar imunogenicidade, que é a capacidade de induzir o organismo a produzir uma resposta imune. Foram 442 participantes dos estudos, realizados na China.

Em todos os aspectos analisados, o estudo da CoronaVac foi positivo: não houve reações preocupantes e a taxa de soroconversão, que é a proporção de pessoas que produziu anticorpos em decorrência da vacina, foi alta em qualquer dosagem, com níveis superiores a 90%.

No entanto, isso não significa que a eficácia da CoronaVac seja de 90% ou superior em idosos. A soroconversão é um indicador, mas não há garantia de que esses anticorpos sejam capazes de proteger quem se vacinou. Isso é realizado apenas em um estudo de fase 3, com milhares de voluntários e com comparação direta com um grupo placebo, que recebe uma substância inerte que não deve oferecer proteção nenhuma. É comparando quantas pessoas se contaminam em cada grupo e o desenvolvimento de complicações que se calcula a eficácia.

Durante a fase 1 do estudo da CoronaVac, foram 72 participantes, sendo que 24 receberam a dosagem de 3 μg, 24 receberam a de 6 μg e os demais receberam apenas um placebo. Já na fase 2, foram 350 voluntários divididos em quatro grupos: 100 receberam a dosagem de 6 μg, 100 receberam a de 3 μg e outros 100 a de 1,5 μg. Os outros 50 receberam placebo.

No grupo que recebeu 1,5 μg, 90,7% foram soroconvertidos. No grupo dos 3 μg, a soroconversão foi de 98%, enquanto no de 6 μg, 99% desenvolveram uma resposta imunológica. A conclusão a que os pesquisadores chegaram foi a de que não houve diferença estatística relevante nos resultados de quem recebeu a dosagem de 3 μg e quem recebeu a de 6 μg, mas houve ganhos claros em comparação à de 1,5 μg. Assim, os cientistas entenderam que 3 μg seria o ideal a se testar em um ensaio de fase 3 para a CoronaVac.

A preocupação com o potencial protetor das vacinas com idosos tem aumentado nos últimos tempos, especialmente depois da divulgação de informações alarmantes sobre a CoviShield, o imunizante desenvolvido por Oxford/AstraZeneca. Devido à falta de testes mais profundos com voluntários de 65 anos ou mais um resultado impreciso de eficácia foi amplamente divulgado graças a um jornal alemão, mas com um intervalo de confiança gigantesco, que indicava uma falta de certeza enorme no resultado.

A matéria original falava em apenas 8% de eficácia entre idosos, mas autoridades alemãs posteriormente publicaram um documento que falava em 6%, mas com um intervalo de confiança que variava entre −1.405% e 94%. Ou seja: os dados são tão poucos, que a conclusão pode ser qualquer uma: a eficácia pode ser altíssima, chegando a 94%, ou a vacina pode colaborar para o desenvolvimento de Covid-19, com eficácia negativa.