Empreendedorismo, inovação e tecnologia: caminhos para o empoderamento feminino

Letícia Piccolotto
Letícia Piccolotto, editado por André Lucena 14/04/2021 17:00, atualizada em 14/04/2021 17:06
empoderamento feminino
empoderamento feminino. Créditos: Shutterstock

Já falei algumas vezes aqui que a atuação da mulher na tecnologia não é algo novo. Tivemos um papel fundamental para que, hoje, a humanidade possa usufruir de soluções que transformaram completamente a nossa vida – desde computadores até a internet.

Continua após a publicidade

Ainda assim, por muito tempo não tivemos reconhecimento ou participação nas profissões da tecnologia. Ainda que de maneira tímida, nos últimos anos, esse cenário tem mudado. Mas não nos enganemos: ainda há muito para trilhar para alcançar a equidade de gênero entre homens e mulheres.

E também é hora de pensar sobre o impacto que a pandemia pode trazer nesse esforço. De acordo com uma pesquisa da empresa de cibersegurança Kaspersky, a crise atual afetou a vida profissional das mulheres que trabalham em tecnologia. Na América Latina, cerca de 60% das mulheres que atuam no setor acreditam que os efeitos da covid-19 prejudicaram seu desempenho no trabalho.

Mas a resiliência, aliada ao empreendedorismo e à tecnologia são marcantes entre as mulheres. Segundo estudo realizado pelo Sebrae e pela Fundação Getúlio Vargas, fomos as que mais apostamos na tecnologia para empreender. Enquanto 71% das mulheres fazem uso das redes sociais, aplicativos ou internet para vender seus produtos, o percentual de homens que utilizam essas ferramentas é de 63%.

O estudo ainda aponta que elas inovaram mais diante das medidas de isolamento social, passaram a utilizar mais as vendas online (34%) do que os homens (29%) e ofertaram mais produtos e serviços (11%). 11% das empreendedoras disseram ter inovado, contra 7% dos homens. A pesquisa indica que seis em cada dez empreendedores – tanto homens quanto mulheres – tiveram que implementar mudanças durante a pandemia.

Uma das possíveis explicações para essa aposta na tecnologia e inovação é o grau de escolaridade. A mesma pesquisa mostra que 63% das mulheres possuem nível superior incompleto ou mais, contra 55% dos homens pertencentes a esse mesmo grupo. Além disso, as mulheres têm empreendido cada vez mais jovens, tendo mais facilidade para se adaptar a novos canais de comunicação, inclusive, sabem trabalhar melhor com as redes sociais. Segundo o Sebrae, 24% das empreendedoras têm até 35 anos, enquanto 18% dos empresários estão nessa faixa etária.

Avanços são necessários também no empreendedorismo feminino

Quando olhamos para este cenário, podemos até pensar que o empreendedorismo feminino está em excelentes patamares no Brasil. Mas a verdade é que, assim como outras dimensões, ele vem se desenvolvendo devagar. Apesar das mulheres serem inovadoras, usarem a tecnologia a seu favor e saberem tanto quanto os homens a empreender, os avanços ainda são limitados.

Apenas 4,7% das startups brasileiras são fundadas exclusivamente por mulheres. Isso é o que aponta o estudo “Female Founders Report 2021”, realizado pela Distrito em parceria com a Endeavor e a B2Mamy. Quando analisadas as empresas de fundação mista, ou seja, que possuem mulheres como cofundadoras, o número é um pouco maior, mas ainda ínfimo: 5,1%.

Os desafios são práticos e muito reais: segundo o estudo, apenas 0,04% de todo o capital de risco investido no Brasil em 2020 foi destinado a empresas fundadas exclusivamente por mulheres. Empreender no Brasil é uma atividade para poucos, naturalmente arriscada e complexa, mas torna-se quase impossível para as mulheres quando os requisitos mínimos para a sua realização não são garantidos.

Continua após a publicidade

Os números também mostram como a maternidade ainda é uma questão que incomoda muitos investidores. Das entrevistadas, mais da metade (51,2%) das mulheres que não conseguiram obter captação de recursos para seus negócios tinham filhos. Das mulheres que conseguiram captação, 58% não tinham filhos.

Nossa sociedade ainda tem um longo caminho à frente para garantir a equidade de gênero. Apesar do aumento no envolvimento de mulheres nas lideranças de empresas e na área de tecnologia, o crescimento continua lento e muito aquém do que desejamos e merecemos. e escalar um negócio no Brasil e com uma fundadora mulher, torna o desafio ainda maior.

Mesmo com tantas barreiras e empecilhos, estamos mostrando que, diante de uma crise sem precedentes, sabemos inovar e criar novas possibilidades. Que seja, então, feito juz à garra e ao potencial das mulheres, garantindo que todas tenham as oportunidades para se desenvolver e prosperar.

Continua após a publicidade

*Letícia Piccolotto é Presidente Executiva da Fundação BRAVA (www.brava.org.br) e fundadora do BrazilLAB – primeiro hub de inovação GovTech que conecta startups com o poder público.

Letícia Piccolotto
Letícia Piccolotto

Criadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação GovTech do Brasil.

Gostou? Compartilhe! Ajude mais pessoas a ficarem informadas.
Prefira o OD no Google
Ícone Whatsapp Ícone Whatsapp Ícone Instagram Ícone Facebook Ícone Linkedin Ícone Telegram Ícone Email