Segundo uma análise provisória do Estudo Global Consortium de Disfunção Neurológica em Covid-19 (GCS-NeuroCOVID), pacientes com sintomas neurológicos clinicamente diagnosticados associados à Covid-19 têm seis vezes mais probabilidade de morrer no hospital do que aqueles sem complicações neurológicas. O artigo foi publicado nesta terça-feira (11) no JAMA Network Open.

A pesquisa, que tenta reunir informações sobre a incidência, gravidade e resultados das manifestações, é o maior estudo de coorte de manifestações neurológicas relacionadas à Covid-19 até o momento. Estudos de coorte são pesquisas de estatísticas e são desenvolvidos de forma observacional, analisando características em comum entre grupos de pessoas. Neste estudo, 133 locais com pacientes adultos em todos os continentes estão sendo considerados, exceto a Antártica.

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“Logo no início da pandemia, tornou-se aparente que um bom número de pessoas que estavam doentes o suficiente para serem hospitalizadas também desenvolve problemas neurológicos “, disse a autora principal e professora associada de medicina intensiva, neurologia e neurocirurgia na Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh e UPMC, Sherry Chou.

“Um ano depois, ainda estamos lutando contra um inimigo invisível desconhecido e, como em qualquer batalha, precisamos de informações – temos que aprender o máximo que pudermos sobre os impactos neurológicos da Covid-19 em pacientes que estão ativamente doentes e em sobreviventes”, explicou a pesquisadora.

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Métodos e números

Os pesquisadores analisaram dados de três tipos diferentes de coortes de pacientes:

  • A coorte “all Covid-19”, que incluiu todos os 3.055 pacientes hospitalizados com Covid-19, independentemente de seu estado neurológico; 
  • A coorte “neurológica”, que incluiu 475 pacientes com Covid-19 hospitalizados com problemas neurológicos clinicamente confirmados e; 
  • A coorte “ENERGY”, com 214 pacientes diagnosticados com Covid-19 e hospitalizados que exigiram avaliação por um neurologista consultor e forneceram consentimento para participar do Registro Neuro-COVID da Academia Europeia de Neurologia (ENERGY), um parceiro formal do Consórcio GCS-NeuroCOVID.

Dentre os 3.744 pacientes internados com Covid-19 (a soma total dos pacientes analisados), 82% apresentaram sintomas neurológicos autorrelatados ou capturados por exames. Quase 4 em cada 10 pacientes relataram ter dores de cabeça e aproximadamente 3 em cada 10 disseram que perderam o olfato ou o paladar. 

Das síndromes diagnosticadas clinicamente, a mais comum identificada entre os pacientes com Covid-19 foi a encefalopatia aguda – qualquer doença cerebral que altera o funcionamento ou a estrutura do cérebro – afetando quase metade dos pacientes. Depois dela, o coma (17%) e derrame (6%) foram as condições neurológicas desenvolvidas.

Pacientes com sintomas neurológicos têm maior probabilidade de morte. Imagem: Shutterstock
Pacientes com sintomas neurológicos têm maior probabilidade de morte. Imagem: Shutterstock

“Esses pacientes podem estar em um estado sensorial alterado ou ter consciência prejudicada, ou eles não se sentem como eles mesmos e agem confusos, delirantes ou agitados”, disse a médica, também diretora associada do Pitt Safar Center for Resuscitation Research. 

A respeito das preocupações iniciais sobre a capacidade do coronavírus de atacar diretamente o cérebro e causar edema cerebral e inflamação – meningite e encefalite – o estudo revelou que o evento é raro, ocorrendo em menos de 1% dos pacientes hospitalizados por Covid-19.

Resultados

O estudo descobriu que ter uma condição neurológica já existente de qualquer tipo – de doenças do cérebro, medula espinhal e nervos a enxaquecas crônicas, demência ou doença de Alzheimer, entre outras – é a mais forte característica para desenvolver outras complicações neurológicas relacionadas à Covid-19, aumentando o risco por duas vezes. Uma por já ter problemas neurológicos e outra pelo coronavírus trazer também a possibilidade da condição.

Além disso, ter qualquer sintoma neurológico relacionado à Covid-19 – desde algo aparentemente inofensivo, como a perda do olfato, até eventos importantes como derrames – está associado a um risco seis vezes maior de morte.

Com isso, a médica neurologista ainda ressalta que, mesmo que o paciente se recupere da doença, a perspectiva de sua saúde a longo prazo é incerta e precisa ser acompanhada.

“Mesmo que a pandemia seja completamente erradicada, ainda estamos falando sobre milhões de sobreviventes que precisam de nossa ajuda”, alerta a dra. 

“É importante descobrir quais são os sintomas e problemas de saúde que esses pacientes estão enfrentando, e ainda há muito trabalho para os próximos anos”, finalizou.

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