A Índia é um dos países do mundo que mais sofre com a pandemia da Covid-19, mas além do vírus, o país ainda enfrenta uma alta de casos de Mucormicose, também conhecida como “fungo negro”. Isso não é uma coincidência, o coronavírus pode favorecer o surgimento do fungo, não à toa, a maior parte de casos de Mucormicose ocorre em pacientes que tiveram Covid. As informações são de uma reportagem da Science News.

A estimativa é de que o país já tenha registrado mais de 30 mil casos de fungo negro. A maior parte dos relatos indicam que o fungo se concentra nos seios, no nariz e na face dos pacientes. O rosto é o local mais agressivo, já que a infecção pode atingir os olhos, comprometendo a visão, e atém mesmo o cérebro, podendo levar o paciente a óbito.

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Do total de casos de Mucormicose, pelo menos 86% seriam de pacientes que tiveram Covid-19. “No período pré-Covid, tínhamos aproximadamente 30 pacientes por ano com a infecção”, disse Sanjiv Lewin, chefe de serviços médicos do Hospital St. John’s Medical College em Bangalore. “Mas em um período recente de duas semanas, tivemos um aumento repentino de 63 pacientes”.

A Mucormicose é uma doença rara causada pela exposição a mofo mucoso que é comumente encontrado no solo, plantas, esterco, frutas e vegetais em decomposição. O fungo está presente em praticamente todos os lugares do mundo, mas dificilmente causa complicações. No entanto a Covid-19, com internação e o cenário hospitalar, deixa o sistema imunológico mais vulnerável ao “fungo negro”.

mucormicose
Foto: Yale Rosen/Wikimedia Commons

“Fungo negro” e a Covid-19

Apesar de outros países do mundo terem registrado casos recentes de Mucormicose, como o Brasil, em nenhum lugar além da Índia foi visto um aumento relevante dos contaminados. O país asiático, no entanto, sempre teve mais infectados pelo fungo do que em outros lugares do mundo.

A Índia costuma ter 140 casos de Mucormicose por milhão de pessoas, estima o especialista Arunaloke Chakrabarti, micologista médico do Instituto de Pós-graduação de Educação Médica e Pesquisa em Chandigarh. “Isso é 70 vezes o do mundo ocidental”, explicou. “O ambiente tem tanta quantidade de esporos que, quando você dá a ele um solo fértil, ele se torna um problema”, completou ainda.

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Primeiramente, o clima quente de países como a Índia ajuda na proliferação do Rhizopus arrhizus, um dos fungos que pode causar a Mucormicose. Além da Covid-19, outros fatores podem influenciar na infecção pelo patógeno, como diabetes, ser portador de doenças onco-hematológicas (como a leucemia) e até mesmo fazer uso de corticoides em doses elevadas.

Acontece que a Índia é um dos países do mundo com uma das maiores populações de diabéticos. “Cada oitava pessoa admitida no hospital ou [tem] diabetes ou desenvolveu níveis elevados de glicose no sangue durante a internação”, disse diz SP Kalantri, médico do Instituto Mahatma Gandhi de Ciências Médica.

Toda essa situação já é favorável ao surgimento do “fungo negro” e com a pandemia da Covid-19, a Índia sofreu com uma onda de desinformação e a população começou a ingerir altas quantidades de corticoides em uma tentativa falha de evitar o coronavírus. O uso descontrolado do medicamento também ajuda na proliferação da Mucormicose. “A mensagem que passou pela mídia para o público leigo e também para o médico regular é provavelmente que os corticoides são a única coisa que ajuda, então, assim que fizeram um diagnóstico de Covid, eles deram esteróides”, disse Lewin.

Apesar do país estar vendo uma diminuição do número de mortes por Covid-19, os casos de “fungo negro” continuam aumentando. No entanto, a índia começou a intensificar a produção e compra do anfotericina B lipossomal, um dos poucos remédios eficazes contra o fungo. Com isso, o governo diz que espera uma redução nas infecções nos próximos meses.

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