Você se lembra de quando limpava cada item da compra do supermercado ou de quando começaram a aparecer as primeiras máscaras caseiras? Não demorou muito para a cloroquina era encarada como um tratamento promissor contra a Covid-19 e chegar outras fake news.

Ao longo da uma pandemia, o avanço do vírus segue sendo veloz. Então, ficar atento às diretrizes e consensos entre especialistas continua sendo uma questão de vida ou morte. Desde fevereiro de 2020, quando os casos de Covid-19 começaram a se espalhar pelo mundo, as recomendações de prevenção, diagnóstico e tratamento da doença se transformaram radicalmente.

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Conheça como essas mudanças aconteceram e entenda como elas nos trazem mais segurança e certeza de que, um dia, essa crise sanitária vai passar.

1. As máscaras têm poder

Durante boa parte do primeiro semestre de 2020, autoridades e instituições públicas como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos foram unânimes em afirmar que as máscaras só deveriam ser usadas por médicos, enfermeiros e profissionais da linha de frente ou indivíduos com suspeita e diagnóstico de Covid-19.

A recomendação estava baseada em dois argumentos principais. Primeiro, havia um medo de que a peça colada ao rosto incomodaria, fazendo com que as pessoas levassem as mãos aos olhos, nariz e boca com mais frequência. Isso, em tese, aumentaria o risco de infecção, pois os dedos poderiam estar contaminados com o coronavírus.

O segundo motivo estava vinculado a uma eventual escassez de material de proteção a quem mais precisava, como os pacientes e os profissionais da saúde, isso porque se temia que uma busca desenfreada pela compra de máscaras acabaria com os estoques disponíveis.

Porém, com o passar dos meses, as máscaras cirúrgicas e os modelos profissionais ganharam terreno e se tornaram mais populares. E isso está diretamente vinculado à evolução do conhecimento sobre as formas de disseminação do coronavírus. “A compreensão ampla dos mecanismos de transmissão de vírus respiratórios foi, sem dúvida, uma das maiores revoluções científicas que vivemos nos últimos tempos”, compreendeu Mori.

As máscaras de tecido conseguem barrar a saída ou a entrada dessas gotículas de saliva maiores. Com o passar do tempo, porém, os cientistas foram observando que a Covid-19 tem uma segunda forma de transmissão: os aerossóis.

Como são menos pesadas, elas ficam vagando pelo ambiente por muito mais tempo, numa dinâmica parecida ao que acontece, por exemplo, com a fumaça do cigarro. “Um indivíduo infectado com o coronavírus pode entrar num elevador, espirrar e sair. E os aerossóis ficam pairando por algum tempo naquele ambiente”, explicou o infectologista Celso Granato, diretor do Fleury Medicina e Saúde.

2. Desinfetar não é tão importante assim

A limpeza foi uma ação que marcou os primeiros meses da pandemia com o álcool 70%, o álcool em gel, o desinfetante e a água sanitária tiveram um crescimento significativo. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Produtos de Higiene, Limpeza e Saneantes de Uso Doméstico e de Uso Profissional (Abipla), esse mercado cresceu 13% no Brasil durante o primeiro semestre de 2020, com destaque para um aumento de 67% na venda de produtos à base de álcool.

O interesse tinha a ver com as recomendações dos especialistas e das agências públicas, que apontavam a desinfecção como uma das principais medidas preventivas contra a Covid-19. Ao longo do tempo, a ideia perdeu muita força, conforme se observou a relevância dos aerossóis na transmissão do coronavírus. Muitas instituições, como o CDC americano, consideram o contato com objetos contaminados como uma possível fonte de infecção e admitem que a probabilidade de isso acontecer na prática é baixíssima.

3. A necessidade do ar circular

Um trabalho publicado em maio de 2020 foi decisivo para que a ciência entendesse melhor a dinâmica de transmissão do coronavírus. Os especialistas do condado de Skagit, em Washington, nos Estados Unidos, relataram o caso dos cidadãos que participavam de um coral. No dia 17 de março de 2020, 61 integrantes do grupo se reuniram para um ensaio numa sala fechada com uma pessoa estava infectada com o coronavírus.

O resultado disso foi que, alguns dias depois, 52 tinham suspeita ou Covid-19 confirmada, o que representa 87% de todos os presentes. “E isso faz todo o sentido quando lembramos que o vírus é transmitido através dos aerossóis, que saem da boca e do nariz quando espirramos, tossimos e falamos (ou cantamos, no caso do coral), avaliou Mori.

covid-19 américa latina
Teste positivo para Covid-19
Imagem: Shutterstock

4. Não adianta só medir a febre

Outro “protocolo” clássico desde o início da pandemia envolve os termômetros. A medição era feita na testa, mas uma notícia falsa que circulou por redes sociais e WhatsApp apontava que os “raios infravermelho” do aparelho podiam mexer com o cérebro.

Isso fez com que a temperatura fosse checada no pulso e essa prática continua a acontecer em muitas regiões do Brasil, apesar de as evidências científicas terem evoluído. Ou seja, o problema é que essa estratégia não faz sentido e pode deixar escapar muita gente com Covid-19.

Em primeiro lugar, a infecção pelo coronavírus demora alguns dias para dar as primeiras manifestações, como a febre. Nesse meio tempo, a pessoa pode transmitir o vírus para contatos próximos. Segundo, já se admite há muitos meses que existem outros sintomas possíveis da doença, como diarreia, conjuntivite e perda de olfato e paladar.

Portanto, os termômetros podem reforçar uma falsa sensação de segurança, em que os indivíduos com a temperatura normal acham que estão livres do perigo, quando a realidade é bem mais complexa do que isso.

5. A doença além do sistema respiratório

A trajetória viral da Covd-19 é muito mais complexa do que o esperado. “Em alguns pacientes, começamos a encontrar o coronavírus em outras partes do corpo. Detectamos, por exemplo, o agente infeccioso nas fezes de algumas pessoas, que tinham a diarreia como único sintoma”, relatou Granato.

De acordo com ele, é perceptível que não se tratava de uma doença pulmonar, mas, sim, com uma enfermidade do endotélio, que é uma camada de células que reveste o interior de nossos vasos sanguíneosL”Com isso, apesar do foco maior nos pulmões, passamos a entender que Covid-19 também poderia acometer os intestinos, o coração, o sistema circulatório, os rins, o cérebro.”

6. A Covid longa

A Covid-19 se mostrou ser muito mais complexa e há muitas pessoas que seguem apresentando incômodos meses após a infecção inicial. Um artigo da Universidade College London, no Reino Unido, publicado em julho de 2021, chegou a listar 200 possíveis sintomas diferentes da Covid longa.

Alguns afetam o cérebro e podem estar por trás de problemas de memória e raciocínio. Já outros prejudicam o ciclo menstrual das mulheres ou a capacidade de ereção dos homens. Além disso, há ainda aqueles que causam palpitações no coração ou deixam a visão borrada.

“Ao longo desse tempo, nós aprendemos a ficar de olho nos sintomas diferentes e acionar colegas especialistas naquilo, como cardiologistas e neurologistas”, complementou a infectologista Raquel Stucchi, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Idosa de máscara olhando pela janela
Imagem: Miriam Doerr Martin Frommherz/Shutterstock

7. A inteligência dos testes

Fazer programas de testagem amplos sem nenhum critério é algo difícil de se manter no longo prazo, por falta de equipamentos e recursos humanos, além de pode levar ao desperdício de insumos valiosos. Por isso, muitos especialistas defendem o uso desses exames de forma otimizada, com o objetivo de reduzir a transmissão do coronavírus na comunidade. Essa foi a estratégia adotada por países como Austrália e Nova Zelândia, que alcançaram os ótimos resultados na condução da pandemia.

“Vamos supor que um paciente com sintomas faz o teste e ele dá positivo. O próximo passo seria ir atrás das pessoas com quem ele teve contato nos últimos dias, para que elas também sejam avaliadas”, exemplificou Granato.

Esse método é chamado de rastreamento de contatos, mas hoje em dia é possível adotá-lo e até aumentar sua eficácia com a ajuda da tecnologia, uma vez que os quarentenados podem fazer consultas por aplicativos de videochamada e receber orientações por mensagens de texto, por exemplo.

8. Tratamento precoce (ainda) não teve sucesso

O objetivo de todo o médico era ter um remédio que pudesse ser prescrito no início dos sintomas para curar de vez a Covid-19. Por mais que vários medicamentos foram testados, nenhum mostrou um bom resultado até o momento, como hidroxicloroquina, da ivermectina, da azitromicina, da nitazoxanida e vários outros integrantes do “kit covid”.

“Nos testes iniciais, com culturas de células e cobaias, algumas dessas substâncias até mostravam algum efeito. Mas quando as pesquisas evoluíram para seres humanos, esses resultados não se mantiveram”, contextualizou Granato.s

9. O vírus sofre mutações e pode ser derrotado

O virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), chama a atenção para o surgimento de múltiplas variantes: “Não observamos esse mesmo comportamento nos surtos de Sars [Síndrome Respiratória Aguda Grave], em 2003, e de Mers [Síndrome Respiratória do Oriente Médio], em 2011, que também foram causados por tipos de coronavírus.”

Isso porque o aparecimento das novas linhagens, como a Alfa, a Beta, a Gama e a Delta tem a ver com a rápida disseminação do vírus por todo o planeta. Segundo ele, as variantes não são exatamente uma surpresa, mas no início não se sabia que o coronavírus seria a causa de uma pandemia, nem que se espalharia nessa velocidade.

“A boa notícia é que as vacinas disponíveis atualmente continuam a funcionar contra essas novas versões virais, apesar de sofrerem uma diminuição de sua eficácia original.Tomar as doses, aliás, é o melhor caminho para proteger a si e contribuir para o controle coletivo da pandemia”, finalizou.

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Fonte: O Dia

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