A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP/SP) registrou uma crescente nos números de sequestros-relâmpago em que os criminosos rendem as vítimas para roubar suas contas bancárias através do Pix. O método de pagamento eletrônico instantâneo mudou a lógica da distribuição do dinheiro e tornou a modalidade de crime ainda mais lucrativa, utilizado pelos atacantes para esvaziar a conta dos alvos em até dez segundos por transferência.

Dados da Secretaria de Segurança Pública apontam que, de janeiro a julho, foram registrados 206 boletins de ocorrência de sequestro relâmpago no estado de São Paulo. Os números correspondem a um aumento de 39,1% contra o mesmo período, em 2020, que registrou 146 casos no primeiro semestre.

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Até o momento, a incidência atual também equivale a 78,6% do total de casos na capital durante o ano passado, 262. O número entrou em alta a partir de março deste ano, quando também atingiu o maior número desde a crescente, com 37 sequestros-relâmpago.

Em nota, a instituição afirma que “as forças de segurança prenderam mais de 100 criminosos envolvidos com essa prática”, e que outros autores já identificados estão sendo perseguidos. As polícias Civil e Militar estão agindo para coibir os crimes na região via investigações em campo e policiamento ostensivo.

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Celulares se transformaram em terminais de caixa eletrônico

O aumento nos sequestros-relâmpago desde o lançamento do Pix é apenas um reflexo imediato da criminalidade visando os pontos mais vulneráveis da cadeia bancária — que agora, são os clientes. Para o pesquisador criminal e consultor em segurança pessoal, Jorge Lordello, o método de pagamento revolucionou esta modalidade de crime, que ocorre há pelo menos quatro décadas, visando os cartões de banco, e agora visam os smartphones.

“Antes do Pix, o aplicativo de banco não era uma ferramenta adequada para transferência rápida de dinheiro”, explica. “Os criminosos não percebiam o aplicativo como forma de fazer dinheiro.”

O especialista aponta que a modalidade de crime cresceu na mesma proporção do declínio dos tradicionais assaltos à banco e explosões à caixa eletrônicos. E que uma soma do estado atual da digitalização financeira, junto às medidas de proteção bancária, fizeram do sequestro-relâmpago um crime cada vez mais lucrativo.

“Para o criminoso entrar num banco e pegar um pouquinho de dinheiro que tem nas gavetas, não vale mais a pena. Hoje, um aplicativo transforma o seu celular num terminal bancário. Só que um terminal bancário dentro do banco é protegido. Você, com um terminal bancário, qual é a sua proteção?”

Lordello alerta que, para além dos prejuízos financeiros, o dano emocional de um sequestro-relâmpago pode levar vítimas à sérios danos psicológicos, como Síndrome do Pânico e Transtorno Pós-Traumático.

“Algumas pessoas conseguem superar o acontecimento grave, entender que ele passou,” completa. “Outras não conseguem se livrar da sensação de violência, da falta de segurança, de se sentir um idiota.”

“Universalidade e onipresença” do Pix também o torna prático no sequestro-relâmpago

Lançado pelo Banco Central em novembro do ano passado, o Pix ganhou rápida adesão pela população brasileira, com 1.570 operações nas primeiras oito horas de testes abertos, totalizando R$ 147 mil em movimentações. As chaves bancárias permitem o envio e recebimento 24 horas por dia e sete dias por semana, sem tarifas, o que agiliza as operações de muitos brasileiros.

Logotipo Pix na tela do smartphone com o logotipo do Banco Central do Brasil exibido ao fundo. Pix Brasil é um sistema de pagamento instantâneo
Praticidade do método de transferência também pode ser utilizada nos crimes (Imagem: Brenda Rocha – Blossom / Shutterstock)

Porém, é a mesma praticidade que faz com que o método de transferência ofereça uma série de vantagens aos criminosos. O analista sênior da Kaspersky, Fábio Assolini, atribui a preferência da ferramenta, tanto por golpistas virtuais quanto reais, por agilizar os cashouts — os saques das quantias roubadas.

“Todos os bancos, fintechs e cooperativas de crédito hoje, inclusive contas digitais, oferecem acesso ao Pix por obrigação da lei. Então o Pix está onipresente, disponível em todos os momentos”, explica o especialista.

Já o coordenador da pós-graduação em Cyber Threat Intelligence no IDESP, Thiago Bordini, destaca o processo de estorno da transação como outro agravante. “Uma transação de TED ou DOC você, de certa forma, consegue cancelar, no caso de Pix, não.”

Os especialistas explicam que, independente de fraude ou sequestros-relâmpago, os contraventores conseguem ignorar qualquer rastreabilidade do Pix com a criação de contas falsas, ou ainda, se apropriando das de terceiros.

“Os criminosos acabam colocando este dinheiro em conta de laranja, ou seja, que não é dele. Isso já era uma prática comum com o uso do TED e DOC e que está se popularizando no Pix também,” conclui Bordini.

Banco Central altera regras do Pix, mas pode não ser suficiente

Em pronunciamento público, o Banco Central anunciou hoje alteração de regras de uso do Pix, motivadas para coibir o impacto dos sequestros-relâmpago. A instituição criou limites máximos de R$ 1.000,00 para transferências em meios de pagamento por pessoas físicas e MEIs nos horários noturnos, onde vigoravam mais incidentes.

Outras mudanças envolvem redução nos valores máximos por período, e espera de até 48h para reajuste. Para o diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, João Manoel Pinho de Mello, a medida desestimula diretamente a prática aos criminosos.

“Uma intervenção dessas protege o patrimônio das pessoas, não diminui a usabilidade dos meios de pagamento e desestimulam alguns crimes, como o sequestro-relâmpago, se o fruto do crime chega a ser apenas mil reais,” afirma o diretor.

Para Jorge Lordello, a resposta não é assim tão simples. “Sempre que há uma mudança no sistema bancário, o crime muda. Não porque o sistema é falho, mas porque os criminosos se aproveitam da fragilidade humana na operação”, explica.

“O criminoso pode ter esse limite, mas ele está com a vítima em mãos”, conclui. “Ele pode reter a vítima para causar outros saques de mais mil reais, há uma série de possibilidades.”

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