O porto do Rio das Pérolas, em Hong Kong, é uma das zonas marítimas mais agitadas do mundo, dado o volume de navios e embarcações que entram e saem de lá. A área também é uma das mais afetadas pela poluição da industrialização chinesa e o aquecimento global.

Pensando nisso, cientistas da Universidade de Hong Kong liderados pela doutora em ciências biológicas, Yuanyuan Hong, buscaram reproduzir o ecossistema marítimo da cidade asiática há 100 anos, pouco antes das grandes movimentações de industrialização alterarem o ambiente de formas ainda desconhecidas.

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Imagem mostra a Dra. Yuanyuan Hong coletando amostras da água do Rio das Pérolas, no intuito de restaurar o ecossistema marítimo de Hong Kong
A Dra. Yuanyuan Hong, da Universidade de Hong Kong, coleta amostras de água do lado leste do Rio das Pérolas, no intuito de restaurar o ecossistema marítimo da cidade. Imagem: Yuanyuan Hong/Acervo pessoal

A ideia do estudo, publicado na revista Anthropocene, é entender como era a vida marítima antes de Hong Kong se modernizar por completo e, com sorte, tentar reconstruir na vida real o que problemas como o aquecimento global, a água de reuso despejada por fábricas e até as tintas anti desgaste de navios destruíram quase que por completo.

“A mudança climática – especificamente, o enfraquecimento da Monção do Leste Asiático, no verão – resultou em menos chuva e menos despejo de água doce no Rio das Pérolas, o que impactou substancialmente a vida marítima das águas a leste de Hong Kong, como a Baía de Mirs ou a Península de Sai Kung”, disse a Dra. Hong, referindo-se aos ventos que sinalizam a alternância entre períodos de chuva e de seca. “Mais além, a poluição metálica da água despejada por fábricas e os revestimentos de navios alteraram comunidades marinhas nas partes mais centrais de Hong Kong, como por exemplo o Porto Natural Victoria”.

Segundo a especialista, as águas a leste de Hong Kong são menos poluídas que as da região central. Entretanto, elas também são mais vulneráveis ao aquecimento global e a outros poluentes. “O aquecimento global futuro pode reduzir a circulação oceânica global, ampliando a Monção do Leste Asiático. Por isso, organismos das águas a leste de Hong Kong podem enfrentar uma descarga mais violenta do Rio das Pérolas, resultando em menor salinidade, maior turbidez (retenção de resíduos não solúveis) e ambientes mais sujos”, disse o Dr. Moriyaki Yasuhara, também da Universidade de Hong Kong.

“Nossa pesquisa indica que essas mudanças ambientais afetarão, especialmente, as espécies mais raras. A maioria dos animais de regiões tropicais ou subtropicais – como Hong Kong – são raras, então as mudanças especuladas terão um impacto bem profundo”, ele completou.

A solução pode residir no outro lado, ou seja, nas águas a oeste da cidade: “este lado do Rio das Pérolas de Hong Kong é mais resistente e resiliente a mudanças climáticas e antropogênicas [causadas pelo homem], o que é surpreendente”, disse a Dra. Hong. “A eutrofização e desoxigenação não trouxeram nenhum efeito substancial na vida marítima, segundo nosso estudo”.

A especialista especula que isso se deu pelo fato do estuário do Rio das Pérolas ser naturalmente rico em matéria orgânica e nutrientes de grandes rios, além de ter uma alta taxa de precipitação (em termos leigos: chove muito na região). Além disso, a desoxigenação em Hong Kong não é tão séria se comparada a outras áreas do tipo, como a Baía de Chesapeake, nos EUA, a Baía de Tóquio, no Japão; ou ainda o Mar Báltico rodeado por muitas metrópoles da Europa.

A dra. Hong argumenta que mudanças de grande impacto são mais difíceis de serem observadas nos ambientes marítimos do que, digamos, em áreas florestais. O problema nelas é mais evidente, com florestas densas virando grandes cerrados por causa do desmatamento, por exemplo, mas nas palavras da especialista, “o mar é sempre o mar”. O estudo chefiado por ela, porém, identificou alterações graves nos últimos 50 a 100 anos.

A aposta está na identificação de fatores resistentes à mudança humana no ecossistema marítimo de Hong Kong: fósseis como conchas depositadas no chão do mar tendem a perdurar em seus estados naturais por mais tempo, dando aos cientistas uma janela ao passado distante e, quem sabe, poder reconstruir ou minimizar os efeitos mais nocivos.

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