O Star+ está prestes a receber no catálogo ‘Y: The Last Man‘, uma série de drama pós-apocalíptica que promete cativar o público com ótimas atuações e uma narrativa que parece ser apenas mais uma produção sobre como a humanidade enfrentaria o fim do mundo, mas que utiliza da famigerada premissa como pano de fundo para explorar os conflitos políticos intensos em meio ao caos e ressaltar o quão delicado é qualquer sistema governamental, seja Democrata ou Republicano.

O Olhar Digital teve acessos aos três primeiros capítulos do seriado produzido pelo canal FX e que tem como showrunner Eliza Clark (‘Animal Kingdom’) e baseada nos quadrinhos homônimos da Vertigo (selo da editora DC Comics) escritos por Brian K. Vaughan e Pia Guerra. O ponto central da trama é “direto e reto”: um evento cataclísmico dizimou todos os mamíferos com cromossomo Y da Terra, exceto o humano Yorick Brown, interpretado por Ben Schnetzer (‘A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert’).

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A tragédia abre espaço para uma nova ordem mundial comandada pelas mulheres. Tal qual a aclamada obra original, a série explora os debates sobre gênero, raça, classe e sobrevivência de forma ágil e não explícita, porém pertinente e de fácil consumo para que o espectador logo entenda quais os pontos que ‘Y: The Last Man’ quer abordar.

Clark se mostra perspicaz ao escrever os roteiros dos dois primeiros episódios da produção. A cineasta foge do tom de mistério que muitas vezes dita shows do tipo, como ‘The Walking Dead’ e ‘Between’, e explica praticamente a história de fundo de todos os protagonistas antes do desastre apocalíptico. A sensação do público, logo, é focada apenas no porquê de Yorick ser o único com cromossomo Y vivo e, claro, no futuro dos personagens em evidência.

Ben Schnetzer como Yorick Brown em ‘Y; The Last Man’. Imagem: FX/Divulgação

Para um seriado, isso é ótimo e foge do estilo impregnado antes por ‘Lost’ e ‘Game of Thrones’ e atualmente pelo Marvel Studios de fazer com que os espectadores criem teorias e rumores exacerbadamente e aproveitem a produção como sequência e não como o desvendamento de pontas soltas – algo que até polpa Clark e a produção de possíveis frustrações geradas por expectativas do público.

Contudo, é fácil notar a mudança de direção e roteiro em ‘Y: The Last Man’. Os dois primeiros episódios (dirigidos por Louise Friedberg e escritos por Clark) tem tom muito inicial e explicativo, visando ambientar o público com os personagens e o desenrolar da história. Já no terceiro capítulo, sob a responsabilidade de Daisy von Scherler Mayer (de ‘The Walking Dead’, vale ressaltar) com o argumento de Katie Edgerton, a trama tem caráter mais decisivo e o desenrolar de diversas situações ocorrem prontamente.

Claro, isso não afeta em nada o enredo até aqui, porém o olho mais atento irá notar a diferença dos dois primeiros capítulos para o seguinte. Vale ressaltar também que a primeira temporada do seriado terá, ao todo, seis episódios – e todos a partir do terceiro são produzidor por duplas (diretor e roteirista) totalmente diferentes. Por isso, cabe atenção minuciosa para o rumo que a história irá tomar.

De qualquer modo, ‘Y: The Last Man’ é extremamente bem produzida e conta com uma fotografia incrível de Nova York, nos Estados Unidos (EUA), em estado caótico. Mesmo tendo sido gravada em boa parte no Canadá, os episódios exploram e valorizam outras localidades da nação do Tio Sam, como Missouri e Washington D.C. As mortes grotescas (no bom sentido) dos seres vivos com cromossomo Y são bem feitas assemelham-se muito às transformações em zumbi de ‘Zumbilandia’ e ‘The Walking Dead’, mas sem o fator de tornar-se um morto vivo.

Diane Lane impressiona como Presidente Jennifer Brown. Imagem: FX/Divulgação

O CGI dos animais, no entanto, equilibram qualidade com bizarrice (aqui no mal sentido). Como dito anteriormente, todos os mamíferos com cromossomo Y morrem. Ratos, cães e cavalos são bem feitos visualmente e assombram o público durante os episódios, dando um sentimento de desespero ao ver que os animais não podem ser salvos. No entanto, o primata de destaque Ampersand, parceiro de Yorick, é claramente uma animação que precisaria de uns retoques. Os movimentos robóticos revelam facilmente que o macaco-prego-de-cara-branca foi feito por computador.

No quesito atuação, felizmente, ‘Y: The Last Man’ impressiona. Schnetzer absorve tudo de bom na atuação intensa que entregou em ‘O Trote’ (2016) e aplica doses de carisma como Yorick. O ator de 31 anos sabe trabalhar muito bem em produções de comédia e drama, então ir de um momento cômico a um desesperador não é dificuldade para ele. A relação dele com Ampersand deve ser mais bem desenvolvida ao longo da temporada das próximas, mas o desempenho do artista por si só já cativa como protagonista logo no primeiro capítulo.

O destaque maior até agora para Ashley Romans como Agente 355. A misteriosa mulher traz uma excelente performance de espião completa à lá James Bond, não recaindo sob o estereótipo de femme fatale, mas demonstrando uma presença forte e sexy em cena. E mesmo com segredos a revelar, a personagem deve cair no gosto do público por ser um contraponto mais racional e badass a Yorick e à Presidente dos EUA. Aliás…

Veterana, Diane Lane é talentosa e traz boa performance como a congressista, e mãe do protagonista, Jennifer Brown. A personagem, após o desastre, precisa assumir o posto de Presidente dos EUA e é a partir deste ponto que ‘Y: The Last Man’ prova que não é mais uma produção pós-apocalíptica e sim uma obra visa debater a visão sobre como seria a política num cenário caótico.

Ashley Romans como Sarah, ou “Agente 355”, é o maior destaque até então. Imagem: FX/Divulgação

Os efeitos em cascata lógicos do que aconteceria se todos os machos biológicos morressem instantaneamente é explorado de forma totalmente política, dando protagonismo às mulheres de modo mais racional com singelos toques de emoção. De certo modo, a produção escancara há grande disparidade de gênero em muitos aspectos da infraestrutura essencial, que vão desde a rede de energia elétrica até algo tão básico como o transporte por caminhão para manter as linhas de abastecimento funcionais. Ou seja, quando todos os seres com cromossomo Y são repentinamente mortos, essencialmente removendo a divisão binária de gênero entre os sobreviventes, a sociedade resultante que se desenvolve ao longo da série não se torna de modo nenhum igualitária.

Há também o destrinchar do debate em torno do que é ser “macho biológico”. Assim como na vida real, o seriado mostra que nem todo homem tem o gene determinador do sex, assim como há mulheres que possuem. Então, no mundo de ‘Y: The Last Man’, todo mamífero vivo com um cromossomo Y morre. Tragicamente, isso inclui muitas mulheres trans, pessoas não-binárias e intersexuais – da mesma forma que homens trans permanecem vivos.

A série também aborda como seria o confronto, protagonizado apenas por seres humanos sem o cromossomo Y, entre Republicanos e Democratas. Em uma ambientação pós-apocalíptica, o foco no social e preservação dos sobreviventes seria a alternativa mais viável de uma gestão governamental, porém ainda seria passível de (muitas) críticas em meio ao caos. Esse e outros aspectos destacam o quão frágil seria um sistema político diante de um povo desesperado imerso no apocalipse e, logo no começo do segundo episódio, há um discurso reflexivo da personagem de Lane que remove a culpa das atitudes desesperadas da população momento após à dizimação em massa.

Vale a pena assistir e ver o futuro de ‘Y: The Last Man’

‘Y: The Last Man’ estreia em 13 de setembro. Os três primeiros episódios chegarão ao Brasil pelo serviço de streaming Star+. Seja pela inevitável curiosidade quanto à (mais uma) premissa apocalíptica ou por boas atuações em uma trama política e contemporânea, o seriado vale a pena. E, do modo que season finale for proposto, a produção pode até aparecer nas principais premiações ano que vem e, se cair nas graças do público, ir adiante com mais temporadas.

Confira abaixo a sinopse e trailer oficiais:

“Baseado na obra homônima de Brian K Vaughan e Pia Guerra, Y: The Last Man acompanha um mundo distópico depois que uma estranha doença dizima quase todos os seres vivos com cromossomo Y. Os únicos sobreviventes do estranho acontecimento são Yorick Brown (Ben Schnetzer) e seu macaco de estimação. No entanto, ser os únicos com o cromossomo Y no mundo irá colocá-los no centro da atenção de toda a humanidade e Yorick terá que encontrar uma forma de viver nesse complicado novo mundo. Enquanto isso, sua mãe, a senadora Jennifer Brown (Diane Lane) precisará tomar as rédeas da situação e controlar o pânico social quando se torna a presidente dos EUA.”

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