O Aurora Safety Car é um conceito de 1957 que costuma – e já era assim antes de a internet sequer existir – ser associado à expressão “carro mais feio da história”. Para entender, é só bater o olho nele.

Aurora Safety Car
Aurora Safety Car (Andy Saunders)

Mas esse é um caso de monstro que, como o do Dr. Frankenstein, é dotado de coração. Ele foi feito com as melhores intenções possíveis por um religioso católico. E, de várias maneiras, previu o futuro da segurança automobilística.

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Um padre, duas paixões

O Aurora Safety Car (“Carro Seguro Aurora”) foi um projeto de um padre Alfred A. Juliano, cuja paróquia ficava em Branford, Connecticut, EUA. Nascido em 1919, Juliano tinha duas paixões na vida: religião e design de automóveis.

Chegou a se candidatar e conseguir uma vaga num programa de estudos de design automotivo da General Motors, em Detroit. Mas a resposta só chegou quando tinha acabado de ser ordenado padre, de forma que acabou tendo que escolher entre a paróquia e o curso. Escolheu a primeira, mas estudou aerodinâmica na mais próxima Universidade de Yale.

Em 1953, o padre notou que muita coisa poderia ser feita para diminuir a letalidade no trânsito, que existe desde que existem carros (ou antes, porque acidentes com carroças também eram fatais). Seus próximos quatro anos seriam dedicados a criar um veículo, ao máximo possível, à prova de morte. O carro que entraria para a história como o mais feio levou dois anos na prancheta, e mais dois para ser feito.

E aqueles que chegaram a ter contato com o carro ficaram realmente impressionados em como um padre que não sabia nada de mecânica conseguiu fazer um carro (descontando considerações estéticas) extremamente bem feito. O Aurora, construído sobre um chassis de um Buick 1953 novinho saiu conforme as especificações. Regular, sem partes tortas, um trabalho profissional.

Aurora Safety Car
Aurora Safety Car (Andysaunders.net)

Carro pode ser o mais feio, mas tem beleza interior

As esquisitices todas no projeto do Aurora estão ligadas a sua razão de ser, a segurança. A frente em formato de pá é para jogar os pedestres sobre o capô, não embaixo, aumentando sua chance de sobrevivência em acidentes de baixa velocidade. A saia preta que circunda o veículo, em espuma sintética, é o primeiro exemplo de parachoque emborrachado – algo hoje padrão. Na época, parachoques eram todos em metal cromado rígido.

As janelas e parabrisas são de resina plástica, e o formato em bolha serve para distanciá-los ao máximo da cabeça dos ocupantes. Não há limpador de parabrisas porque, segundo o padre, essa foram seria tão aerodinâmica que a água não pararia em cima.

Mas é por dentro que o design realmente previu o futuro. O Aurora já vinha com cintos de segurança, o que então os fabricantes hesitavam em colocar, porque achavam que isso faria os clientes acharem que seus carros são inseguros. O painel é emborrachado, e não de metal, como seria comum na época. A barra de direção é deformável.

O carro conversível conta com uma gaiola de proteção, o que também não era feito, além de barras laterais anticolisão. A posição dos passageiros é afastada das paredes, também para proteger em caso de colisões.

E os bancos – essa não colou – podem girar para trás, em caso de colisão iminente, e proteger seus ocupantes.

A história lhe fez justiça

Diante de tantos avanços, o “carro mais feio do mundo” parece menos repulsivo. Talvez houvesse uma chance de as pessoas em 1957 pensarem assim, mas o padre, por melhor que fosse seu talento em esculpir carrocerias, não entendia mesmo nada de mecânica. Havia deixado o motor parado desde o começo do projeto, por quatro anos.

Após tanto tempo parado, o sistema de combustível estava entupido. Assim, de sua garagem até a conferência de imprensa em que o mundo conheceria o Aurora, em Nova York, a 137 km de distância, o carro quebrou 15 vezes.

Se você tem um carro com aspecto tão insólito, chegar atrasado e explicar que foi falha de segurança não ajuda em nada. O prego no caixão foi o preço: US$ 12 mil (US$ 117 mil hoje, ou R$ R$ 614 mil). Na época, o carro mais caro dos EUA era o Cadillac Eldorado, por US$ 13 mil.

O padre Juliano, que já tinha até registrado uma marca industrial, acabou voltando para casa sem nenhuma encomenda. Com o projeto já tomando US$ 30 mil (US$ 292 mil, ou R$ 1,53 milhão), em parte pagos pela congregação, ele não teve escolha se não vender sua maravilha para uma oficina mecânica para a qual estava devendo dinheiro.

Seria, em meio a investigações, expulso da Ordem dos Cavaleiros do Espírito Santo, pela qual havia sido ordenado.

O padre morreria em 1989, sem mais trabalhar com veículos. Seu legado seria o de questionar os padrões de segurança automotiva de seu tempo, com muitas novidades perfeitamente razoáveis. Pena que embalado no que foi considerado o carro mais feio já visto.

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